“O
ofício de escritor é talvez o único que se torna mais difícil à
medida que mais se pratica. A facilidade com que me sentei a escrever
aquele conto não se pode comparar com o trabalho que me dá agora
escrever uma página. Quanto ao meu método de trabalho, é bastante
coerente com isto que vos estou a dizer. Nunca sei quanto vou poder
escrever nem o que vou escrever. Espero que me ocorra alguma coisa e,
quando me ocorre uma ideia que ache boa para a escrever, ponho-me a
dar-lhe voltas na cabeça e deixo-a ir amadurecendo. Quando a tenho
terminada (e às vezes passam muitos anos, como no caso de Cem
Anos de Solidão,
que passei dezenove
anos a pensar), quando a tenho terminada, repito, então sento-me a
escrevê-la e é aí que começa a parte mais difícil e a que mais
me aborrece. Porque o mais delicioso da história é concebê-la, ir
arredondando-a, dando-lhe voltas e mais voltas, de maneira que na
altura de nos sentarmos a escrevê-la já não nos interessa muito,
ou pelo menos a mim não me interessa muito; a ideia que dá voltas.”
Gabriel
García Marquez,
in
Eu não venho
fazer
um discurso
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