03/02/2021

A cela um (trecho)

          Na primeira vez em que nossa casa foi roubada, foi nosso vizinho Osita que entrou pela janela da sala de jantar e levou a televisão, o videocassete e as fitas de Purple Rain e Thriller, que meu pai tinha trazido dos Estados Unidos. Na segunda vez em que nossa casa foi roubada, foi meu irmão Nnamabia que forjou um arrombamento e roubou as joias da minha mãe. Era um domingo. Meus pais tinham ido para nossa cidade natal, Mbaise, visitar nossos avós, por isso eu e Nnamabia fomos à igreja sozinhos. Ele dirigiu o Peugeot 504 verde da minha mãe. Sentamos juntos na igreja, como sempre, mas não ficamos nos cutucando e sufocando risadas por causa do chapéu feio ou do cafetã surrado de alguém, pois Nnamabia foi embora sem dizer uma palavra depois de uns dez minutos. Ele voltou um pouco antes de o padre dizer: “A missa acabou. Vão em paz”. Eu fiquei um pouco chateada. Imaginei que tivesse saído para fumar e encontrar alguma menina, já que finalmente tinha o carro só para ele, mas podia pelo menos ter dito aonde ia. Voltamos para casa em silêncio e, enquanto meu irmão estacionava o carro no longo caminho que ia do nosso portão à garagem, parei no jardim para colher algumas flores do pé de ixora até que ele destrancasse a porta da frente. Quando entrei, encontrei-o parado no meio da sala de estar.
“Fomos roubados!”, ele disse em inglês.
Levou um instante até que eu compreendesse, para que absorvesse a bagunça do cômodo. Mesmo depois, senti que havia qualquer coisa de teatral no modo como as gavetas estavam escancaradas, como se tivessem sido deixadas daquela maneira por alguém que queria impressionar quem as encontrassem. Ou talvez fosse simplesmente o fato de eu conhecer meu irmão tão bem. Mais tarde, quando meus pais voltaram e os vizinhos vieram todos para dizer ndo, estalar os dedos e dar de ombros, fiquei sozinha no meu quarto e entendi o que era aquele enjoo na boca do estômago: Nnamabia tinha feito aquilo, eu sabia. Meu pai também sabia. Ele comentou que a veneziana tinha sido aberta por dentro, não por fora (Nnamabia era bastante esperto para não cometer esse erro; talvez estivesse com pressa de voltar para a igreja antes de a missa acabar), e que o ladrão sabia exatamente onde ficavam as joias da minha mãe — no canto esquerdo de seu baú de metal. Nnamabia encarou meu pai com um sofridíssimo olhar dramático e disse: “Sei que já causei uma dor terrível a vocês dois antes, mas jamais violaria sua confiança desse jeito”. Ele falou em inglês, usando palavras desnecessárias como “dor terrível” e “violaria”, exatamente como fazia sempre que estava se defendendo. Então, saiu pela porta dos fundos e não voltou para casa naquela noite. Nem na seguinte. Nem na que veio depois. Voltou duas semanas mais tarde, magro, cheirando a cerveja, chorando, dizendo que sentia muito e que tinha penhorado as joias com os comerciantes hausa de Enugu e gastado todo o dinheiro.
“Quanto eles deram pelo meu ouro?”, perguntou minha mãe. E quando Nnamabia contou, ela colocou as mãos na cabeça e exclamou: “Oh! Oh! Chi m egbuo m! Meu Deus me matou!”. Parecia que ela achava que meu irmão tivesse que pelo menos conseguir um bom preço pelas joias. Eu quis bater nela. Meu pai pediu que Nnamabia escrevesse um relatório contando como as tinha roubado, em que tinha gastado o dinheiro, com quem tinha gastado. Eu não achei que Nnamabia fosse contar a verdade, e creio que meu pai também não, mas ele gostava de relatórios, meu pai, o professor; gostava que as coisas fossem bem escritas e documentadas de maneira organizada. Além do mais, Nnamabia tinha dezessete anos e uma barba aparada com cuidado. Estava naquele hiato entre o ensino médio e a universidade, velho demais para levar uma surra. O que mais meu pai podia ter feito? Depois que Nnamabia escreveu o relatório, meu pai o arquivou na gaveta de aço do escritório, onde guardava nossos trabalhos escolares.
“Como ele pôde magoar a mãe desse jeito?”, murmurou meu pai. Foi a última coisa que disse sobre o assunto.
Mas Nnamabia, na verdade, nunca quis magoá-la. Ele fez aquilo porque as joias da minha mãe eram os únicos objetos de valor da casa: toda uma vida reunindo uma coleção de peças de ouro maciço. Também fez aquilo porque outros filhos de professores estavam fazendo. Era a temporada de furtos no nosso sereno campus em Nsukka. Meninos que tinham passado a infância assistindo à Vila Sésamo, lendo Enid Blyton, comendo cereal no café da manhã e frequentando a escola primária reservada aos filhos dos professores da universidade com suas sandálias marrons brilhantes agora cortavam as telas contra mosquito dos vizinhos, deslizavam as venezianas de vidro e pulavam pelas janelas para roubar televisões e videocassetes. Nós conhecíamos os ladrões. O campus de Nsukka era um lugar tão pequeno — com ruas arborizadas e casas dispostas lado a lado, separadas apenas por cercas baixas — que era impossível não saber quem estava roubando. Mesmo assim, quando os pais professores se encontravam no clube reservado aos docentes, na igreja ou nas reuniões da universidade, continuavam a lamentar o fato de que a ralé da cidade estava entrando em seu campus sagrado para roubar.
Os meninos que roubavam eram os mais populares. Eles dirigiam os carros dos pais à noite, com os bancos inclinados para trás e os braços esticados para alcançar o volante. Osita, o vizinho que roubara nossa televisão poucas semanas antes do incidente com Nnamabia, era ágil, tinha uma espécie de beleza prestes a aflorar e andava com a elegância de um gato. Suas camisas estavam sempre bem engomadas; eu costumava olhar por cima da cerca, vê-lo e fechar os olhos imaginando que ele estava caminhando na minha direção, vindo declarar que eu lhe pertencia. Ele nunca me notou. Quando nos roubou, meus pais não foram até a casa do professor Ebube para dizer a ele que pedisse ao filho para devolver nossas coisas. Disseram publicamente que tinha sido a ralé da cidade. Mas sabiam que tinha sido Osita. Osita era dois anos mais velho que Nnamabia; a maioria dos meninos que roubavam era um pouco mais velha que meu irmão, e talvez por isso ele não tenha roubado a casa de outra pessoa. Talvez não se sentisse velho o suficiente, experiente o suficiente, para nada maior do que as joias da minha mãe.
Nnamabia era igualzinho à minha mãe, com a pele clara cor de mel, olhos grandes e uma boca generosa que se curvava perfeitamente. Quando minha mãe nos levava ao mercado, os feirantes gritavam: “Ei! Senhora, por que desperdiçou sua pele clara num menino e deixou a menina tão escura? O que um menino está fazendo com tanta beleza?”. E minha mãe ria, como se assumisse uma alegre e travessa responsabilidade pela beleza de Nnamabia. Quando, aos onze anos, Nnamabia quebrou a janela da sala de aula com uma pedra, minha mãe deu a ele o dinheiro para pagar pelo conserto e não contou para o meu pai. Quando ele perdeu alguns livros da biblioteca no segundo ano, ela disse à professora que eles tinham sido roubados pelo menino que trabalhava lá em casa. Quando, no terceiro ano, Nnamabia, apesar de sair cedo todos os dias para ir ao catecismo, não pôde receber a primeira comunhão, pois depois se descobriu que ele não tinha ido nem uma vez, ela disse aos outros pais que ele teve malária no dia da prova. Quando Nnamabia pegou a chave do carro do meu pai e fez um molde num pedaço de sabão que meu pai encontrou antes que ele pudesse levar a um chaveiro, ela disse vagamente que aquilo era coisa da juventude e não significava nada. Quando Nnamabia roubou do escritório as questões da prova e vendeu para os alunos do meu pai, minha mãe gritou com ele, mas depois disse ao meu pai que Nnamabia afinal de contas já tinha dezesseis anos, e devia receber uma mesada maior.
Não sei se Nnamabia sentiu remorso por roubar as joias dela. Nem sempre eu conseguia saber o que realmente seu rosto encantador e sorridente dizia. E nós não conversamos sobre isso. Apesar de as irmãs da minha mãe terem lhe mandado seus brincos de ouro, apesar de ela ter comprado um conjunto de brincos e pingente da sra. Mozie, a mulher glamorosa que importava ouro da Itália, e de ter começado a ir à sua casa de carro uma vez por mês para pagar as prestações, nós, depois daquele dia, nunca mais falamos sobre o fato de que Nnamabia roubara suas joias. Era como se fingir que Nnamabia não tinha feito o que fizera fosse lhe dar a oportunidade de começar do zero. Talvez o roubo jamais voltasse a ser mencionado se, três anos depois, quando estava no terceiro ano da faculdade, Nnamabia não tivesse sido preso e trancado numa cela na delegacia.
Era a época dos cultos no nosso sereno campus em Nsukka. A época em que surgiram cartazes por toda a universidade que diziam, em letras grandes: “ DIGA NÃO AOS CULTOS ”. Os mais conhecidos eram o Black Axe, os Buccaneers e os Pirates. Podiam ter começado como fraternidades inofensivas, mas tinham evoluído e agora eram chamados de “cultos”; jovens de dezoito anos que haviam aprendido a imitar com perfeição as bravatas vistas nos vídeos de rap americanos passavam por cerimônias de iniciação secretas e estranhas que às vezes deixavam um ou dois cadáveres na colina Odim. Armas, lealdades forçadas e machados agora eram comuns. Guerras entre os cultos agora eram comuns: um menino dizia uma gracinha para uma menina que, por acaso, era a namorada de um chefão do Black Axe, e mais tarde aquele menino, ao andar até um quiosque para comprar um cigarro, levava uma facada na coxa. Mas ele, por acaso, era membro dos Buccaneers, de modo que os outros rapazes do culto iam a um bar e atiravam no primeiro membro do Black Axe que viam, e então no dia seguinte um Buccaneer era morto a tiros no refeitório, com o cadáver caindo sobre as tigelas de sopa de alumínio, e naquela tarde um Black Axe era estraçalhado em seu quarto num alojamento masculino, deixando seu CD player todo manchado de sangue. Era insano. Isso era tão anormal que logo se tornou normal. As meninas não saíam dos alojamentos depois das aulas, os professores tremiam, e bastava que uma mosca zumbisse alto demais para que todos sentissem medo. Por isso, a polícia foi chamada. Eles passavam a toda pelo campus em seu Peugeot 505 azul, uma lata-velha, com armas enferrujadas saindo pelas janelas, olhando feio para os estudantes. Nnamabia chegava em casa das aulas rindo. Ele achava que a polícia ia ter que se esforçar mais; todo mundo sabia que os meninos dos cultos tinham armas mais modernas.
Meus pais observavam o rosto sorridente de Nnamabia com uma preocupação silenciosa e eu soube que eles também se perguntavam se ele pertencia a um culto. Eu, às vezes, achava que sim. Todo mundo admirava os membros dos cultos e todo mundo admirava Nnamabia. Os meninos gritavam seu apelido — The Funk! — e apertavam sua mão por onde quer que ele passasse, e as meninas, principalmente as famosas Big Chicks, lhe davam um abraço longo demais sempre que ele as cumprimentava. Ele ia a todas as festas, tanto às mais tranquilas no campus como às mais loucas na cidade, e era um conquistador que ao mesmo tempo tinha muitos amigos homens, do tipo que fumava um maço de Rothmans por dia e cultivava a fama de conseguir beber uma dúzia de latas de cerveja Star numa noite. Às vezes, eu achava que Nnamabia não pertencia a um culto justamente por ser tão popular, pois me parecia mais seu estilo ficar amigo dos meninos de todos os cultos e não ser inimigo de ninguém. Além do mais, eu não tinha nenhuma certeza de que meu irmão tinha a característica necessária — fosse coragem ou insegurança — para ser membro de um culto. Na única ocasião em que lhe perguntei se fazia parte de um deles, ele me olhou com surpresa, com aqueles cílios longos e espessos, como se eu já devesse saber a resposta, e disse: “É claro que não”. Eu acreditei. Meu pai também acreditou. Mas a nossa fé nele não fez muita diferença, pois Nnamabia já tinha sido preso e acusado de ser um membro. Ele me disse esse “É claro que não” em nossa primeira visita à delegacia onde estava preso.

Chimamanda Ngozi Adichie, in No Seu Pescoço

Ser cronista

          Sei que não sou, mas tenho meditado ligeiramente no assunto. Na verdade eu deveria conversar a respeito com Rubem Braga, que foi o inventor da crônica. Mas quero ver se consigo tatear sozinha no assunto e ver se chego a entender.
Crônica é um relato? É uma conversa? é o resumo de um estado de espírito? Não sei, pois antes de começar a escrever para o Jornal do Brasil, eu só tinha escrito romances e contos. Quando combinei com o jornal escrever aqui aos sábados, logo em seguida morri de medo. Um amigo que tem voz forte, convincente e carinhosa, praticamente intimou-me a não ter medo. Disse: escreva qualquer coisa que lhe passe pela cabeça, mesmo tolice, porque coisas sérias você já escreveu, e todos os seus leitores hão de entender que sua crônica semanal é um modo honesto de ganhar dinheiro. No entanto, por uma questão de honestidade para com o jornal, que é bom, eu não quis escrever tolices. As que escrevi, e imagino quantas, foi sem perceber.
E também sem perceber, à medida que escrevia para aqui, ia me tornando pessoal demais, correndo o risco daqui em breve de publicar minha vida passada e presente, o que não pretendo. Outra coisa notei: basta eu saber que estou escrevendo para jornal, isto é, para algo aberto facilmente por todo o mundo, e não para um livro, que só é aberto por quem realmente quer, para que, sem mesmo sentir, o modo de escrever se transforme. Não é que me desagrade mudar, pelo contrário. Mas queria que fossem mudanças mais profundas e interiores que então viessem a se refletir no escrever. Mas mudar só porque isto é uma coluna ou uma crônica? Ser mais leve só porque o leitor assim o quer? Divertir? fazer passar uns minutos de leitura? E outra coisa: nos meus livros quero profundamente a comunicação profunda comigo e com o leitor. Aqui no jornal apenas falo com o leitor e agrada-me que ele fique agradado. Vou dizer a verdade: não estou contente. E acho mesmo que vou ter uma conversa com Rubem Braga porque sozinha não consegui entender.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

O impagável Mordillo

 

Cabeceira

Intratável.

Não quero mais pôr poemas no papel
nem dar a conhecer minha ternura.
Faço ar de dura,
muito sóbria e dura,
não pergunto
“da sombra daquele beijo
que farei?”
É inútil
ficar à escuta
ou manobrar
a lupa da adivinhação.
Dito isto
o livro de cabeceira cai no chão.
Tua mão desliza
distraidamente?
sobre a minha mão.

Ana Cristina César

Na cela do inimigo público número um

          Estava escutando Brahms em Filadélfia em 1942. numa vitrola pequena. o segundo movimento da 2a sinfonia. naquela época eu morava sozinho. bebia devagar uma garrafa de vinho do Porto e fumava um charuto ordinário. num quartinho limpo, como se diz. houve uma batida na porta. pensei que fosse alguém pra me entregar o prêmio Nobel ou Pulitzer. eram 2 sujeitos enormes com cara de burros e grossos.
Bukowski?
é.
mostraram o emblema: F.B.I.
nos acompanhe. melhor vestir o casaco. vai se ausentar por uns tempos.
não sabia o que tinha feito. nem perguntei. achei que, de qualquer forma, estava tudo perdido. um deles tirou o Brahms da vitrola. descemos a escada e saímos na rua. cabeças apareciam nas janelas como se todo mundo já estivesse sabendo.
depois a eterna voz de mulher: ah, lá vai aquele homem horrível! prenderam o cafajeste!
simplesmente não dou sorte com elas.
continuei me esforçando pra lembrar o que podia ter feito, e a única coisa que me ocorria é que talvez, de porre, houvesse matado alguém. mas não conseguia entender o que era que o F.B.I. tinha a ver com aquilo.
mantenha as mãos nos joelhos e não mexa com elas!
havia 2 homens no banco da frente e 2 no de trás, de modo que imaginei que devia ter assassinado alguém – decerto algum figurão.
continuamos rodando, de repente esqueci e levantei a mão pra coçar o nariz.
OLHA ESSA MÃO AÍ!!
quando chegamos na delegacia, um dos agentes apontou para uma fileira de fotos nas 4 paredes.
tá vendo estes retratos?, perguntou com dureza.
olhei um por um. estavam bem emoldurados, mas nenhuma das caras me dizia nada.
tô vendo, sim – respondi.
são homens que foram assassinados quando trabalhavam pro F.B.I.
não sei o que ele queria que eu dissesse, por isso continuei calado.
me levaram pra outra sala.
tinha um homem atrás da escrivaninha.
CADÊ O TEU TIO JOHN? – gritou na minha cara.
como? – retruquei.
CADÊ O TEU TIO JOHN?
eu não sabia a quem ele estava se referindo. por um instante cheguei a pensar que quisesse dizer que eu andava por aí carregando alguma arma secreta pra matar gente quando ficava bêbado. me senti todo atrapalhado, não entendendo mais nada.
me refiro a JOHN BUKOWSKI!
ah. ele morreu.
merda, POR ISSO é que a gente não conseguia descobrir onde ele estava!
me levaram lá pra baixo, pra uma cela cor de laranja. era sábado de tarde. pelas grades da janela dava pra ver as pessoas caminhando na calçada. que sorte que tinham! do outro lado da rua havia uma loja de discos. o alto-falante tocava música pra mim. tudo parecia tão calmo e tranquilo lá fora. ficava ali parado, de pé, tentando lembrar o que poderia ter feito. sentia vontade de chorar, mas não saía lágrima alguma. era só uma espécie de tristeza, de náusea, uma mistura de uma com a outra, não existe nada pior. acho que você sabe o que quero dizer. todo mundo, volta e meia, passa por isso. só que comigo é muito frequente, acontece demais.
a Prisão de Moyamensing me lembrava um castelo antigo. 2 vastos portões de madeira se abriram pra me acolher. até hoje me admiro que não tivéssemos que passar por cima de um fosso.
me puseram na cela de um sujeito gordo com cara de perito contador.
sou Courtney Taylor, inimigo público no 1 – disse ele pra mim.
por que você foi preso? – perguntou.
(a essa altura eu já sabia; tinha perguntado no caminho.)
fui convocado e não me apresentei.
tem 2 coisas que aqui ninguém topa: recruta que não se apresenta
e exibicionista tarado.
código de honra de ladrões, hem? manter o país forte pra continuar com a roubalheira.
mesmo assim, ninguém gosta de convocados omissos.
sou de fato inocente. me mudei e esqueci de deixar o novo endereço na junta de recrutamento. comuniquei aos correios. recebi carta de St. Louis quando já estava aqui, dizendo que tinha que comparecer ao exame médico. respondi que não dava para ir até lá e pedi pra fazer o exame aqui mesmo. botaram os caras atrás de mim e agora tô em cana. não entendo: então, se eu quisesse escapar do recrutamento, ia dar o endereço pra eles?
todos vocês sempre se fazem de sonsos. pra mim isso é conversa mole pra boi dormir.
me estirei no beliche.
passou um carcereiro.
LEVANTA ESSE RABO DE MORTO DAÍ! – berrou comigo.
levantei meu rabo de morto de convocado omisso.
você quer se matar? – perguntou Taylor.
quero – respondi.
então puxa esse cano aí em cima que prende a lâmpada da cela. enche aquele balde com água e coloca o pé dentro. desatarraxa, tira a lâmpada fora e enfia o dedo no encaixe. aí você sai daqui.
fiquei olhando um bocado de tempo pra lâmpada. obrigado,
Taylor, você é um verdadeiro amigão.

as luzes apagaram, me deitei e eles começaram. piolhos.
porra, o que é isto? – berrei.
piolhos – respondeu Taylor. – aqui tem muito.
aposto que tenho mais que você – retruquei.
tá apostado.
dez cents?
dez cents.
comecei a catar e a matar os meus. fui colocando em cima da mesinha de madeira.
por fim demos um basta. Levamos os piolhos pra grade da cela, onde havia luz, e contamos. eu tinha 13 e ele 18. entreguei-lhe a moedinha. só muito mais tarde descobri que ele partia os dele ao meio e depois esticava. era estelionatário. profissional. filho da puta.
fiquei cobra com os dados no pátio de exercício. ganhava todo santo dia e já estava cheio da grana. cheio da grana pra cadeia, bem entendido. fazia 15 ou 20 pratas por dia. o regulamento proibia o jogo de dados e os guardas, lá de cima das torres, apontavam as metralhadoras pra gente e berravam PAREM COM ISSO! mas sempre se dava um jeito de continuar a partida. quem trouxe os dados pra prisão sem ninguém perceber foi um tarado exibicionista. o tipo do tarado que não me agrada. aliás, não gostava de nenhum deles. todos tinham queixo fraco, olhar lacrimoso, bunda magra e jeito viscoso. projetos de homens. acho que não era culpa deles, mas não gostava de olhar pra aquela gente. esse a que me refiro sempre se chegava depois de cada partida.
você tá afiado, tá ganhando uma nota preta, dá um pouco pra mim.
eu largava uns trocados naquela mão de cadáver e ele se afastava, feito cobra, o porco sacana, sonhando com o dia em que pudesse mostrar a pica de novo pra garotinhas de 3 anos. eu dava o dinheiro porque era o único meio de me conter e não bater com o cinto nele, mas quem fazia isso ia pra solitária, um buraco deprimente – não tanto quanto o pão molhado na água que se ficava obrigado a comer. eu via quando os caras saíam de lá: demoravam um mês pra voltar ao seu estado normal. mas todos nós éramos abortos da natureza. eu não fugia à regra. não fugia mesmo. fui muito duro com ele. só conseguia raciocinar direito quando desviava o olhar.
estava rico. depois que apagavam as luzes, o cozinheiro trazia pratos de comida, comida da boa e à beça, sorvete, bolo, torta, café de primeira. Taylor me avisou pra nunca dar mais de 15 cents pra ele, senão seria exagero. o cozinheiro agradecia em voz baixa e perguntava se devia voltar na noite seguinte.
mas nem tem dúvida – respondia eu.
era a mesma comida que levavam para o diretor da prisão, que, evidentemente, gostava de passar bem. os presos andavam todos famintos, enquanto que Taylor e eu desfilávamos pra lá e pra cá, parecendo 2 mulheres no nono mês de gravidez.
gosto desse cozinheiro – comentei –, acho um cara legal.
e ele é – concordou Taylor.
Não parávamos de reclamar dos piolhos pro carcereiro, e ele berrava conosco:
ONDE PENSAM QUE ESTÃO? NUM HOTEL? QUEM TROUXE ESSES BICHOS PRA CÁ FORAM VOCÊS MESMOS!
o que, naturalmente, considerávamos um insulto.
os carcereiros eram mesquinhos, os carcereiros eram burros e viviam mortos de medo. sentia pena deles.
finalmente puseram Taylor e eu em celas separadas e fumigaram a que tinha piolhos.
encontrei Taylor no pátio.
me botaram junto com um pirralho – disse Taylor, bobo que só vendo –, tá por fora de tudo. um horror.
fiquei com um velho que não sabia falar inglês e passava o tempo todo sentado no penico, a repetir: TARA BUBA COME, TARA BUBA CAGA! não parava nunca. tinha a vida programada: comer e cagar. acho que se referia a alguma figura mitológica da terra dele. ah, vai ver que era Taras Bulba? sei lá. a primeira vez que saí pra fazer exercício no pátio, o velho rasgou o lençol do meu beliche e fez com ele uma corda; pendurou as meias e as cuecas naquilo e quando entrei ficou tudo pingando em cima de mim. nunca saía da cela, nem pra tomar banho. não havia cometido crime nenhum, diziam, só queria ficar ali dentro e deixavam. um ato de bondade? fiquei brabo com ele porque não gosto de roçar a pele em cobertor de lã. minha pele é muito sensível.
seu velho sacana – gritava com ele –, já matei um cara e é só você não andar direito que acabo matando dois!
mas ele ficava simplesmente sentado ali no penico, rindo pra mim e dizendo: TARA BUBA COME, BUBA CAGA!
acabei desistindo. mas, seja lá como for, nunca precisei escovar o chão, aquela porra de casa dele vivia sempre úmida e escovada. devia ser a cela mais limpa da América. do mundo. e adorava aquela refeição extra de noite. se adorava.
o F.B.I. resolveu que eu estava inocente da acusação de ter fugido deliberadamente da convocação das forças armadas e me mandou para o centro de recrutamento. tinha uma porção de presos que mandavam pra lá. fui aprovado no exame biométrico e depois tive que falar com o psiquiatra.
você acredita na guerra? – perguntou.
não.
está disposto a lutar?
estou. (andava com uma ideia meio biruta de sair de uma trincheira e sair caminhando em direção à linha de fogo até que me matassem.)
ficou um bocado de tempo sem falar nada, só escrevendo numa folha de papel. depois levantou os olhos.
a propósito, na próxima quarta-feira à noite vai ter uma festa com médicos, pintores e escritores. queria te convidar. você aceita o convite?
não.
tá certo – retrucou –, não precisa ir.
aonde?
pra guerra.
fiquei só olhando pra ele.
pensou que a gente não ia entender, não é? entregue esta folha de papel ao funcionário da sala ao lado.
era uma longa caminhada. a folha estava dobrada e presa por um clipe no meu cartão. levantei a ponta e espiei: “... possui uma grande sensibilidade dissimulada pela fisionomia impassível...” boa piada, pensei, puta que pariu! eu: sensível!!
e lá se foi Moyamensing. e assim ganhei a guerra.

Charles Bukowski, in A mulher mais linda da cidade

02/02/2021

Tiago Iorc / Nessa Paz Eu Vou

Sonho infinito de Pao Yu

          Pao Yu sonhou que estava em um jardim idêntico ao de sua casa. Será possível — disse — que haja um jardim idêntico ao meu?
Acercaram-se a ele umas donzelas. Pao Yu, atônito, disse a si mesmo: “Alguém terá donzelas iguais a Hsi-Yen, a Pin-Erh e a todas as da casa?” Uma das donzelas exclamou: “Aí está Pao Yu. Como terá chegado até aqui?” Pao Yu pensou que o haviam reconhecido. Adiantou-se e lhes disse: “Estava caminhando, e por casualidade cheguei até aqui. Caminhemos um pouco”.
As donzelas riram. “Que desatino! Te confundimos com Pao Yu, nosso amo, porém não és tão garboso como ele”. Eram donzelas de outro Pao Yu. “Queridas irmãs” — lhes disse — “eu sou Pao Yu. Quem é vosso amo?” “É Pao Yu” — responderam. “Seus pais lhe deram esse nome, composto dos caracteres Pao (precioso) e Yu (jade), para que sua vida fosse longa e feliz. Quem és tu para usurpar seu nome?” E se foram, rindo.
Pao Yu ficou abatido. “Nunca me trataram tão mal. Porque me detestaram estas donzelas? Existirá, de fato, um outro Pao Yu? Tenho que averiguar”. Movido por estes pensamentos, chegou até um pátio que lhe era familiar. Subiu a escada e entrou no seu quarto. Viu um jovem deitado; ao lado da cama, rindo, umas mocinhas faziam trabalhos domésticos. O jovem suspirava. Uma donzela lhe disse: “Que sonhas, Pao Yu? Estás aflito?”. “Tive um sonho muito esquisito. Sonhei que estava em um jardim e que vocês não me reconheciam e me deixavam só. Eu as segui até a casa e me encontrei com outro Pao Yu dormindo em minha cama”. Ao ouvir o diálogo, Pao Yu não se conteve e exclamou: “Vim em busca de um Pao Yu; és tu”. O jovem levantou-se e o abraçou, gritando: “Não era um sonho; tu és Pao Yu”. Do Jardim uma voz chamou: “Pao Yu!” Os dois Pao Yu estremeceram. O sonhado se foi; o outro dizia: “Volta logo, Pao Yu”. Pao Yu se despertou. Sua donzela Hsi-Yen lhe perguntou: “Que sonhavas, Pao Yu? Estás aflito?”. “Tive um sonho muito esquisito. Sonhei que estava em um jardim e que vocês não me reconheciam...”

Tsao Hsue-qin, Sonho do aposento vermelho (c. 1754)

Jorge Luis Borges, in Livro de Sonhos

A baleia de Melville foi um aviso que não acatamos

 


Em 1841, a bordo do baleeiro Acushnet, Herman Melville encontrou William Chase como complemento de outro navio. William emprestou a Melville um livro de seu pai, Owen Chase: “Narrativa do naufrágio mais extraordinário e angustiante do navio baleeiro Essex”. Melville havia lido o violento relato de Jeremiah Reynolds sobre um cachalote “branco como lã”, batizado – por causa de seu refúgio perto da Ilha Mocha, na costa do Chile – Mocha Dick. Não se sabe o que levou Melville a ajustar Mocha para “Moby”. Que bom que ele fez, e que Starbuck foi o nome que deu a seu primeiro imediato, em vez de seu capitão. Caso contrário, o romance seguiria a obsessão de Starbuck por um Mocha.
Owen Chase deu a Melville seu clímax: enquanto os barcos do Essex arpoavam cachalotes fêmeas, um enorme macho, com cerca de 25 metros, correu e furou o navio de 88 pés, duas vezes. Nenhuma baleia jamais afundou um navio. “A leitura desta história maravilhosa no mar sem terra e tão perto da própria latitude do naufrágio teve um efeito surpreendente sobre mim”, Melville recordou mais tarde.
Ele inicialmente planejou um livro sobre baleias e caça às baleias. Reynolds ajudou a fornecer a Melville uma ideia mais estígia, exortando seus homens a atacar Mocha Dick como “se ele fosse o próprio Belzebu!” – um demônio em vez de uma baleia.
Ainda assim, Moby Dick não é nem baleia nem demônio, mas um suporte branco contrastando com o demoníaco Capitão Ahab, o atormentador atormentado, o maligno e abusado abusador da autoridade e dos homens. O preconceito de Ahab é pessoal e baseado na cor. Uma baleia branca torna-se uma almofada de alfinetes em branco para a mania de investidas de Ahab enquanto Melville sombreia as páginas com sua loucura. No entanto – e isso foi absolutamente surpreendente para a época – Moby Dick se torna a afirmativa definitiva da razão. Em legítima defesa, a baleia faz justiça. E nunca morre.
Ahab jura perseguir Moby Dick “por todos os lados da terra”, mas ele não pode fazer isso sozinho, então ele lisonjeia seus homens em fidelidade à sua busca maníaca: “O que vocês dizem, homens...? Eu acho que você parece corajoso.” Os arpoadores gritam: “Sim!” Ahab é impecavelmente hábil em manipular as pessoas para que o estimulem, em tornar suas as obsessões autodestrutivas. Ahab não é apenas sintomático; por meio de sua capacidade de levar os homens à cumplicidade – e da incapacidade deles de perceber isso - ele se torna contagioso, verdadeiramente perigoso.
“Moby-Dick” é considerado um grande romance americano. Talvez seja o primeiro grande romance global. Melville rompeu com a miopia americana, desaparecendo em muitos horizontes, ombro a ombro com apóstatas, vendo civilidade nos selvagens, selvageria na obediência civilizada e ruinosa aos tiranos loucos. Os anos de Melville em navios semearam o que seu biógrafo Newton Arvin chamou de “um ódio estabelecido à autoridade externa”.
Na década de 1840, depois de se aventurar meio mundo para longe da América, Melville lançou uma perspectiva semelhante à de uma fragata sobre a malignidade congênita mais profunda do personagem americano, então chamada de Negrofobia. No início do século 19, a caça ao cachalote nunca esteve longe do comércio de escravos. O livro de Thomas Beale, de 1839, “A História Natural do Cachalote”, incluiu esta notável dedicatória ao armador britânico Thomas Sturge: “Seu caráter pode ser avaliado pelos esforços incessantes que você fez para libertar o negro da condição de escravo.”
Em docas e conveses, humanos de vários tons de pele e respirando o suor uns dos outros em companhia cuidavam de caldeirões fervendo de baleias e se olhavam nos olhos. Homens de pele clara podiam se sentir presos e os homens morenos podiam saborear a liberdade, sobrevivendo, às vezes se afogando, juntos. O narrador sempre filosófico de Melville, Ishmael, pergunta: “Quem não é escravo? Diga-me isso.” De um mundo que ele experimentou como esférico no topo de mastros de navios, Melville percebeu uma humanidade ao nível do mar, abraçando e celebrando as latitudes e longitudes da variação humana, agora denominada diversidade.
Quando Ishmael se viu compelido a dividir um cobertor no esgotado Spouter Inn, ele declara: “Nenhum homem prefere dormir dois em uma cama”. Mas ele se acomoda, esperando por seu misterioso companheiro de quarto dos mares do sul que, segundo ele, está vendendo uma cabeça encolhida nas ruas de New Bedford. A aparência de Queequeg apavora Ishmael mudo. Mas depois que as coisas se equilibraram, Ishmael reconsiderou: “Apesar de todas as suas tatuagens, ele era, em geral, um canibal limpo e atraente... um ser humano assim como eu. … Melhor dormir com um canibal sóbrio do que com um cristão bêbado.”
De manhã, Ishmael acorda e encontra o braço de Queequeg “jogado sobre mim da maneira mais amorosa e afetuosa. Você quase pensou que eu era sua esposa.” Agora não há pânico. Por fim, Queequeg desperta e, por meio de sinais e sons, faz Ishmael entender que ele se vestirá e partirá. “A verdade é que esses selvagens têm um senso inato de delicadeza”, editorializa Ishmael. “É maravilhoso como eles são essencialmente educados. … Tanta civilidade e consideração, embora eu fosse culpado de grande grosseria”. Refletindo sobre o rosto tatuado de Queequeg, ele conclui: “Embora fosse selvagem, e horrivelmente marcado no rosto – pelo menos para o meu gosto – seu semblante ainda tinha algo que não era de forma alguma desagradável. Você não pode esconder a alma. … Queequeg foi George Washington canibalisticamente desenvolvido”.
Companheiros agora para a vida, eles encontram um navio, mas Queequeg está barrado; ele não é cristão. Ishmael fala rápido: Queequeg, como “todos nós, e cada filho e alma nossa”, pertence “à grande e eterna Primeira Congregação de todo este mundo de adoração. ... Em que todos nós juntar as mãos.” Impressionado com o sermão improvisado de Ishmael, o recrutador permite suas marcas; eles vão embarcar no Pequod, um navio que Melville deu o nome, ele nos lembra, de uma famosa tribo de nativos de Massachusetts, já extinta.
Quase dois séculos atrás, Melville nos mostrou como é fácil receber como nossos os toques dos outros, suas cores, costumes e crenças equivalentes; suas viagens, suas transições. E para lembrar aqueles que, indesejados, sofreram. Quanto poderia ter sido evitado e adotado, se tivéssemos atendido.
Melville rabiscou febrilmente um diagnóstico, prognóstico e receita para a condição humana. Somos todos Ishmael, o ingênuo, Starbuck, o pragmático, e Ahab, o maníaco, presos em um navio impulsionado por ventos que não podemos prever, comandados por uma mente não totalmente compreensível, cujas compulsões não controlamos. O mundo é uma baleia esquiva; podemos escolher a coexistência ou a destruição. E embora não decidamos o resultado, as mãos sobre esses remos são nossas; cada derrame atrai consequências. E para que não deixemos de lado o óbvio: os homens foram equipados para fazer o mal em sua busca por – petróleo. Se todos nós somos Ismael e Starbuck e Ahab, presos em nosso vício coletivo, as baleias exemplificam uma contracultura, uma forma de viver sem peso, de não drenar o mundo que as flutua.
Não é por acaso que o Leviathan, o cachalote, é o veículo escolhido por Melville. Nenhum outro candidato se qualifica. Ahab poderia ter perseguido um dragão cuspidor de fogo. Mas para enfrentar a verdadeira loucura cotidiana, devemos ter em jogo sangue real e vontade real de ambos os lados. Somente esta criatura – a maior com dentes do planeta – vem a nós como carne vivificada e metáfora imortal, nos enredando com nossas próprias buscas, profana, sangrenta, sagrada, livre. Apenas Leviathan poderia fazer isso. Poderia vencer.
Portanto, podemos nos perguntar sobre aqueles que rejeitaram o livro – como eu fiz na faculdade. Como alguém se sai, não tendo sido avisado sobre nossos Ahabs interiores ou dos riscos de ser levado à cumplicidade com a loucura, desaconselhado sobre a sabedoria de rejeitar as buscas obsessivas que os púlpitos do mundo toleram e seus portos recompensam. “Moby-Dick” é apenas parcialmente sobre loucura; é igualmente sobre banalidade.
A inquietante investigação de Herman Melville – “se o Leviatã pode suportar uma perseguição tão ampla e uma devastação tão implacável” – retorna para mim novamente enquanto todas as baleias em todos os oceanos voltam para compartilhar nosso ar nos mares que estamos aquecendo e engrossando com plástico. “Se algum dia o mundo for inundado novamente, como a Holanda, para matar seus ratos”, Melville meditou, “então a baleia eterna ainda sobreviverá e ... lançará seu desafio espumante para os céus.” Mas o aquecimento que irá erodir os contornos da Flórida e Nova York, Houston, Hong Kong e Bangladesh também tornará a vida difícil para as baleias. Eles, e todos os seres, como escreveu o naturalista Henry Beston, estão “presos conosco mesmos na rede da vida e do tempo, companheiros prisioneiros do esplendor e do trabalho da terra”. Malha por malha atada, é uma rede que tecemos, perversamente, desfiando a teia da vida.

Carl Safina, in nytimes.com, 02/05/2020

Mafalda

 

Do olhar

Libertar-se da ordem e de suas inseparáveis extravagâncias. Como dói a certeza das coisas incertas; como machuca a validade das coisas inválidas; como entedia a urgência do que não nos interessa; como fere (corpo-alma, verbo-palavra) a utilidade do que é inútil; como mente a lógica fundante das questões periféricas; como são porosas as pessoas que se dizem essenciais; como reluzem aqueles que, ocos por dentro, desfilam suas mediocridades a torto e a direito; como são insignificantes os amores que se bastam a si mesmos; como são vazios os credos que dinamitam a solidão alheia; como é desértica a fé que se reduz ao tilintar das moedas; como é vã a pressa dos impacientes e a indulgência dos lerdos. Libertar-se dos cataclismos da ordem com suas flechas certeiras e suas extravagantes desculpas – mire, veja, repare, é tudo para o seu bem. Cruz credo! Arrenegue a bondade exasperante dos certinhos, a orientação miraculosa das bem-intencionadas criaturas plantonistas de alguma ordem. Poder a quem serve, servo servil de olhar medroso. Como é doloroso o poder que se locupleta em infinitas trapaças e, de soslaio, medra penosas condições ao povo; como é ridícula (coitada das cartas) a imprestabilidade do público a serviço do privado: a cumplicidade dos néscios e a boçalidade dos poderosos fazem a festa aqui e alhures, o resto que se dane ou se preferir entre noutra história. Da ordem e pela desordem do olhar, o caos delineia, em timbre impróprio, o seu caminho em linha torta, feito verso, poesia que se entrega sem pudores a um continuum poético de reiteradas reentrâncias, a despeito da mera ordem do dizer, segue.

R. Leontino Filho, in As ruas arejadas do verbo impuro

Um físico e um cardeal conversam sobre fé e ciência

          Muitos de meus colegas de profissão, talvez a maioria deles, considerariam uma grande perda de tempo dividir um palco com um cardeal do Vaticano para conversar sobre ciência e religião. Os mais extremos diriam que fazer isso é dar à religião uma credibilidade que não merece. Dado que discordo frontalmente desse tipo de atitude radical proveniente do que hoje chamamos de cientificismo, em abril de 2016 fui ao Teatro Tuca, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, para conversar com o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho de Cultura do Vaticano. Foi uma noite memorável e inspiradora.
Dentro da tradição historicamente conservadora do Vaticano, fiquei surpreso com a atitude de Ravasi, de franca abertura à ciência. Afinal, esse é o mesmo Vaticano que, apenas em 1992, sob ordem do então papa João Paulo II, admitiu ter errado ao condenar Galileu Galilei 359 anos antes por afirmar que a Terra gira em torno do Sol e não o contrário. Ravasi vem construindo conexões com cientistas do mundo inteiro, organizando debates públicos onde são discutidas questões de grande importância para a sociedade, incluindo temas como a pesquisa e o uso das células-tronco na medicina, a ética do uso de drogas nos esportes, a possibilidade de a moralidade ser independente da religião e o futuro da espécie humana tendo em vista a integração crescente das tecnologias digitais nas nossas vidas. Para estabelecer uma plataforma de suporte a essa iniciativa, Ravasi seguiu as diretrizes do papa Bento XVI e ressuscitou o Átrio dos Gentios, um fórum para promover o diálogo construtivo entre cristãos e não crentes, explorando questões relacionadas com “fé e razão, e cultura secular e Igreja”.
Interessante que o Átrio dos Gentios original ficava no Segundo Templo em Jerusalém, e designava a área onde judeus e não judeus podiam circular livremente, comprar e vender mercadorias, trocar dinheiro ou sacrificar animais. Foi ali que, segundo todos os evangelhos, Jesus teve sua altercação com os negociantes, acusando-os de perverter a santidade do Templo. No caso do Átrio mais recente, a ideia é abrir as portas da Igreja para uma discussão franca sobre questões de interesse para crentes e não crentes, supostamente com menos animosidade. Abri a noite explicando como a ciência amplifica nossa visão da realidade, criando uma narrativa do mundo natural que é constantemente revisada; expliquei como a ciência contribuiu de forma essencial para mudar nossa visão de mundo no passado, e como continuará a fazê-lo no futuro, ao explorarmos os confins do mundo material, do nível subatômico e humano ao cosmológico.
Mencionei Einstein, que nos convida ao engajamento com o “Mistério”, a fonte que inspira o trabalho criativo tanto nas artes quanto nas ciências. Argumentei que existe uma dimensão espiritual na ciência, ao induzir uma relação mais íntima e profunda com a Natureza. Argumentei, também, que a ciência moderna está redefinindo nossa posição no cosmo, distanciando-se do copernicanismo tradicional, que afirma que quanto mais aprendemos sobre o mundo menos importante somos. Essa interpretação é profundamente nociva para a percepção pública da ciência, já que afirma que a ciência não tem qualquer papel na nossa busca por sentido: qual o sentido da vida se vivemos num Universo gigantesco e frio, que pouco liga para nós?
Ou, como se escuta dizer em debates mais populares, a ciência roubou Deus da gente e não ofereceu nada em troca. Minha posição, que chamo de humano-centrismo, vai de encontro a esta visão, propondo que a variedade de outros mundos no cosmo e a compreensão que temos hoje dos vários passos que a vida teve que dar para evoluir de simples células procariotas até seres humanos indicam que a vida inteligente seja extremamente rara, mesmo sem excluir sua possível existência em outros cantos da galáxia. O humano-centrismo tem consequências imediatas, já que nos transforma nessa entidade rara, máquinas moleculares capazes de sentir, pensar e de se questionar sobre a existência. Surpreendentemente, ao menos de forma metafórica, a ciência moderna nos restitui uma posição central no cosmo, como guardiões da vida e do planeta onde existimos.
Concluí propondo a necessidade de uma complementaridade do conhecimento humano, que vai além da simples tolerância das diferenças. Existem diferentes modos de entender e examinar a mesma questão, diferentes modos de se engajar com o mundo. Por exemplo, ao olharmos para um cálice de vinho, podemos examiná-lo sob várias perspectivas. Bioquimicamente, como produto de um processo de fermentação; opticamente, ao estudarmos sua cor, os reflexos da luz no cristal; fisicamente, como um fluido de certa densidade, em repouso a uma determinada temperatura e pressão atmosférica, no campo gravitacional da Terra; sociologicamente, como produto agrícola em algum país distante com certas leis trabalhistas; economicamente, como um produto que compete no mercado internacional; ecologicamente, como algo que implicou o desmatamento de alguma área, o uso de técnicas inseticidas próprias e os poluentes liberados na atmosfera no transporte da fazenda até a loja onde compramos a garrafa.
Adicionalmente, temos outro lado para examinarmos o cálice de vinho, complementar a essas análises mais técnicas: sua beleza estética, a simetria das formas, a sensação de tocar e manipular o cálice, o aroma do vinho, seu gosto tão único e, talvez ainda mais importante, a companhia com quem estamos dividindo esse momento, as emoções que vêm dessa presença, o significado da experiência, única para cada um de nós. Dentro dessa óptica, exigir de um crente uma prova concreta da existência de Deus não faz sentido. A fé consiste em acreditar no que não pode ser (ou não foi ainda) provado. Por outro lado, insistir que textos religiosos explicam ou podem prever fenômenos naturais de forma científica é uma proposta absurda. Como disse Galileu, a Bíblia não foi escrita para descrever como vão os céus, mas como se vai ao céu. Felizmente, Ravasi não é um literalista. Pelo contrário, citou Santo Agostinho como alguém que já havia reconhecido os perigos de usar a Bíblia como texto com valor científico.
Se Ravasi fosse literalista, não teria aceitado dialogar com ele. Aqueles que se dizem crentes constituem em torno de dois terços da população mundial, mais do que 4 bilhões de pessoas. Denegrir sua fé como uma espécie de delírio ou loucura não leva a nada. Ravasi desconsidera os pronunciamentos mais incendiários de alguns ateus radicais sugerindo, como alternativa, uma troca aberta de ideias. Em determinado momento, propôs três modos de olhar para o mundo: para baixo, ao explorarmos a matéria que constitui as coisas; para a frente, na relação com outras pessoas e seres vivos; para cima, na busca por alguma forma de transcendência. Precisamos dos três modos, mesmo que se manifestem de formas diferentes para cada um. Raramente mencionou Deus, defendendo a necessidade de uma busca pluralista pelo conhecimento, que ressoa positivamente com minha proposta de complementaridade do saber. Ravasi mencionou o biólogo americano Stephen Jay Gould e sua proposta de magistérios que não se superpõem (do inglês, Non-Overlapping Magisteria, ou NOMA), que mencionamos aqui no ensaio anterior. Segundo Gould, ciência e religião deveriam existir em paralelo, sem interferência.
Ravasi saudou a iniciativa de Gould, que, afinal, põe a religião em pé de igualdade com a ciência. Porém, sugeriu que devemos ir além para criar uma visão mais coesiva. Brincou que, nos tempos de Galileu, seria inconcebível ter um cientista dividindo o palco com um cardeal. Naquela época, os homens da Igreja é que se recusariam a dividir o palco com um mero cientista. “Os tempos mudaram”, disse, “e devemos mudar com eles.” O cardeal pareceu-me completamente sincero e autêntico. Vi com alívio que o Vaticano hoje tem pessoas como ele em postos de comando. Ravasi está disposto a escrever um novo capítulo na longa e tortuosa história do debate entre a ciência e a Igreja, com um final mais feliz do que seus antecessores. Ficou claro para os presentes que o objetivo desses diálogos não é tentar convencer o outro.
Esse seria um exercício supérfluo, como já deveríamos ter aprendido. A proposta é estar aberto para ouvir o outro, sem recorrer aos recursos limitados de um tribalismo em que o “outro”, aquele com opiniões diversas da sua, é necessariamente um ser inferior que precisa ser eliminado ou convertido. Ficou claro, também, que um diálogo desse tipo seria impossível entre facções radicais. Não poderia conversar sobre ciência e fé com um literalista, ou mesmo com um primo distante meu, que é judeu ortodoxo. Os argumentos de um literalista são absurdos para a maioria dos cientistas, e com razão. Somos criaturas finitas, num mundo cheio de desafios, com mais perguntas do que respostas. Fatos, valores, crenças e tradições formam uma rica teia em que é fácil se perder. O fundamento de um diálogo construtivo entre a fé e a ciência é reconhecer que, mesmo considerando todas as diferenças, a busca por sentido é de cada um e de todos nós. A perplexidade de estarmos vivos, mesmo se a expressamos de modo diverso, é parte da nossa essência.

Marcelo Gleiser, in O caldeirão azul

01/02/2021

Djavan / Não Deu!

Compre livro no táxi

          Enquanto no Rio os motoristas de praça ainda cuidam de adaptar os taxímetros à nova tabela periódica de preços, os seus colegas de São Paulo já vão de primeira na corrida cultural, uma corrida diferente de qualquer outra. Junto à direção, os carros ostentam pequena e variada coleção de livros. Novidade de uma empresa de transportes coletivos.
— O senhor gosta de ler tanto assim nas horas de folga? — pergunta o passageiro, que nunca vira livro algum em táxi, salvo aquele que alguém esquecera, de propósito, para livrar-se de um poeta-processo.
— Gostar eu gosto, doutor, mas é que nunca tenho folga.
— Então por que carrega esses livros todos no carro?
— Para vender. O doutor já leu Bar Don Juan, do Antonio Callado? É o quente.
— Li logo que saiu, há tempos. Por sinal que…
— Agora está em segunda edição, e quem lê gosta, confere e comenta. E Milho pra galinha, Mariquinha, daquela moça Marisa Raja Gabaglia, sabe que o livrinho é uma graça? Pois é. Agora, se o doutor quer saber, Aonde vamos?
— Eu sei, vamos para o Alto de Pinheiros, como eu lhe disse.
— Não é isso. Aonde vamos?, que eu disse, é uma novidade, olhe aqui. Do cientista Hannes Alfvén e sua mulher, uns suecos que estudam a sério os problemas, e saem com umas perguntas e umas respostas que obrigam a gente a parar pra pensar. Espie só os assuntos: a idade do computador, a explosão demográfica, os incompetentes no poder, o direito do homem se multiplicar, e tal e coisa. Agora, se o doutor quer saber o que se passa no Peru, tem aqui esse volume do Arnaldo Pedroso d’Horta, que é tão bom no desenho como nos estudos políticos, conhece?
— Conheço e admiro. Mas me diga uma coisa: os passageiros costumam comprar?
— Primeiro se espantam, como o doutor, depois compram. Até me encomendam livros. São fregueses conhecidos, que não têm tempo (eles dizem que não têm) de passar nas livrarias. Uns compram pela primeira vez na vida, não é mentira não. O livro fica tão perto do nariz deles, no carrinho, que resolvem experimentar.
— Moça compra?
— Não posso me queixar das moças. Garotões, nem por isso.
— E que é que elas preferem?
— Dá muito psicologia, ciências sociais, comunicação, essas coisas. Os velhos é que…
— Que é que têm os velhos?
— Estão cada vez mais impossíveis. Acham que eu devia botar aqui aqueles livrecos marotos, sabe como é? Aquelas revistas de sobrecapa de plástico, que eles não têm coragem de pedir ao jornaleiro. Há um que não cansa de perguntar, quando entra no carro: “Como é, já me arranjou aquela edição do Elixir do pajé, de Bernardo Guimarães?”. Deve ser alguma receita de remédio para a faixa dos setenta, sei lá, nunca li.
— Ou senão, trata-se de um bibliófilo.
— Bíblio o quê? Pode ser. Mas caso sério foi com o assaltante.
— Carregou com os livros?
— Pior. Queria rasgar tudo, só porque eu não tinha o Manual do perfeito assaltante, que ele garantia que saiu este ano nos Estados Unidos e já foi traduzido.
— E daí?
— Daí, que ele exigia o livro com a pistola na minha nuca, e eu explicava a ele que não sabia da existência do manual americano nem da tradução. Não saiu nada no jornal, como é que eu podia vender uma coisa dessas, além do mais um livro pouco… pouco tranquilizante, né?
— E ele?
— Pela cara que eu via no retrovisor, e pelo frio da arma, não gostou da explicação. Me disse que era o tradutor da obra, e que ela só podia mesmo ser vendida em táxi, ora o doutor já viu? Sai um cristão promovendo a cultura do país, e metem-lhe um cano no pescoço, pra ele fazer a divulgação de uma barbaridade dessas.
— E como foi que o senhor saiu da situação?
— Quem saiu foi ele. Me virei pra trás e disse assim: “Olha aqui, meu distinto, se quer atirar, atira logo de uma vez, que eu não estou aqui pra aturar tradutores de livros desse tipo. Ou bem que você é tradutor ou bem que é assaltante. Anda lá, não empata!”. Ele não esperava essa, nisso o carro bateu num poste, batidinha leve, mas ele sentiu que a barra estava ficando pesada e deu no pé. No que eu nasci de novo e nunca mais vi o tipo. O doutor acredita mesmo que saiu esse livro, ou é lelequice dele?
Como chegassem ao fim da corrida, o motorista arrematou:
— Se permite, este livrinho aqui o doutor vai levar. Só oito cruzeiros, uns versinhos sem pretensão mas com muita alma, que andei rabiscando nas horas de folga. Como é o nome do doutor? Para o autógrafo.

Carlos Drummond de Andrade, in De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

O Realismo russo de Gely Korzhev

 

Mãe (1967) de Gely Korzhev

Torto Arado / 3

          Salu disse que eu era a filha mais velha, a primeira de quatro filhos vivos e de outros tantos que nasceram mortos. Belonísia veio pouco tempo depois, enquanto minha mãe ainda me amamentava, contrariando a crença de que quem amamenta não engravida. Entre nós duas, diferente dos intervalos entre os outros filhos, não houve natimortos. Dois anos depois que nasceram dois filhos mortos veio Zezé e, por último, Domingas. Entre eles, mais duas crianças que não vingaram. Minha avó, Donana, foi quem ajudou minha mãe nos partos. Era nossa avó, mas também mãe de pegação. Esse era o título que dizia qual era o seu lugar em nossas vidas: avó e mãe. Quando deixamos o ventre de Salustiana Nicolau – os vivos, os que morreram tempos depois e os natimortos – encontramos primeiro as mãos pequenas de Donana. Foi o primeiro espaço no mundo fora do corpo de Salu que ocupamos. Suas mãos côncavas que muitas vezes vi se encherem de terra, de milho debulhado e feijão catado. Eram mãos pequenas, de unhas aparadas, como deveria ser a mão de uma parteira, dona Tonha dizia. Pequenas, capazes de entrar no ventre de uma mulher para virar com destreza uma criança atravessada, mal encaixada, crianças com os movimentos errados para nascer. Ela faria os partos das trabalhadoras da fazenda até poucos dias antes de sua morte.
Quando nascemos, nossos pais já eram trabalhadores da Fazenda Água Negra. Meu pai havia ido buscar Donana semanas antes do meu nascimento. Cresci ouvindo minha avó se queixar da distância da fazenda onde havia passado sua vida, nota evidente de uma saudade que não admitia sentir. Não exigia seu retorno, compreendia seu papel ao lado do filho, mas não deixava de externar seu lamento. Quando meu pai apareceu na fazenda onde havia nascido, para buscá-la, Donana já se encontrava sozinha na casa velha onde viveu quase todo o seu tempo. Seus outros filhos haviam partido em busca de trabalho, cada um na sua vez. A primeira a deixar a casa depois de meu pai havia sido Carmelita, que partiu sem indicar o rumo que tomaria, logo após a mãe ficar viúva pela terceira vez. Mas a própria Donana, em seu íntimo, quis que a filha seguisse seu destino.
Àquela altura, a terra da Fazenda Caxangá, que havia rendido fartura de frutos por toda a sua vida, estava retalhada. Cada homem com desejo de poder havia avançado sobre um pedaço e os moradores antigos foram sendo expulsos. Outros trabalhadores que não tinham tanto tempo na terra estavam sendo dispensados. Os homens investidos de poderes, muitas vezes acompanhados de outros homens em bandos armados, surgiam da noite para o dia com um documento de que ninguém sabia a origem. Diziam que haviam comprado pedaços da Caxangá. Alguns eram confirmados pelos capatazes, outros não. Meu pai, depois de chegar à Água Negra, retornou algumas vezes ao lugar onde havia nascido. Essas histórias nos foram contadas por Salustiana, enquanto crescíamos. Só preservaram Donana por lá por conta da idade avançada, por já terem de alguma forma se afeiçoado à sua presença. E também porque corriam de casa em casa, de boca em boca, os poderes da velha feiticeira, das viuvezes, provas do seu fardo, e do filho que enlouqueceu e foi viver no mato com uma onça por semanas.
Eu e Belonísia éramos as mais próximas e, talvez por isso, as que mais se desentendiam. Tínhamos quase a mesma idade. Andávamos juntas pelo terreiro da casa, colhendo flores e barro, catando pedras de diversos formatos para construir nosso fogão, galhos para fazer nosso jirau e nossos instrumentos de trabalho para arar nossas roças de brinquedo, para repetir os gestos que nossos pais e nossos ancestrais nos haviam legado. Disputávamos espaços, disputávamos sobre o que plantar, sobre o que cozinhar. Disputávamos os calçados feitos das folhas verdes e largas que encontrávamos na mata que circundava as nossas casas. Montávamos bastões de madeira que fazíamos de nossos cavalos, recolhíamos sobras de lenha para fazer nossos móveis. Quando as disputas se tornavam brigas e gritos, nossa mãe intervinha, pouco paciente, e nos levava de volta para casa nos retirando a liberdade de sair até que nos comportássemos. Prometíamos que não brigaríamos mais, até que saíamos para o quintal ou para o terreiro e recomeçávamos a brincadeira, para pouco tempo depois retornar à rixa, às vezes com direito a arranhões e puxões de cabelo.
Nos primeiros meses após perder a língua fomos tomadas de um sentimento de união que estava embotado daquele passado de brigas e disputas infantis. No início se instalou uma grande tristeza em nossa casa. Os vizinhos e compadres vinham nos visitar, fazer votos de melhoras. Minha mãe se revezava com as vizinhas, que olhavam os filhos menores enquanto ela cozinhava papas, mingau de cachorro para ajudar na cicatrização, purês de inhame, batata-doce ou aipim. Nosso pai seguia para a roça ao nascer do dia. Rumava com seus instrumentos depois de passar a mão nas nossas cabeças com suas preces sussurradas aos encantados. Quando retomamos as brincadeiras, havíamos esquecido as disputas, agora uma teria que falar pela outra. Uma seria a voz da outra. Deveria se aprimorar a sensibilidade que cercaria aquela convivência, a partir de então. Ter a capacidade de ler com mais atenção os olhos e os gestos da irmã. Seríamos as iguais. A que emprestaria a voz teria que percorrer com a visão os sinais do corpo da que emudeceu. A que emudeceu teria que ter a capacidade de transmitir com gestos largos e também vibrações mínimas as expressões que gostaria de comunicar.
Para que essa simbiose ocorresse e produzisse um efeito duradouro, as disputas ficaram, naturalmente e por um tempo, de lado. Ocupávamos o tempo com as apreensões do corpo da outra. No começo foi difícil, muito difícil. Era necessário que se repetissem palavras, que se levantassem objetos, que se apontasse para as coisas que nos cercavam, tentando apreender a expressão desejada. Com o passar dos anos, esse gesto se tornou uma extensão das nossas expressões, até quase nos tornarmos uma a outra, sem perder a nossa essência. Às vezes nos aborrecíamos por algo, mas logo a necessidade de comunicar o que uma irmã precisava, a mesma necessidade de comunicar à outra irmã o que precisava ser expressado, fazia com que esquecêssemos a causa de nossas queixas. Foi assim que me tornei parte de Belonísia, da mesma forma que ela se tornou parte de mim.
Foi assim que crescemos, aprendemos a roçar, observamos as rezas de nossos pais, cuidamos dos irmãos mais novos. Foi assim que vimos os anos passarem e nos sentimos quase siamesas ao dividir o mesmo órgão para produzir os sons que manifestavam o que precisávamos ser.

Itamar Vieira Júnior, in Torto Arado

Universos paralelos

Há uma teoria científica que alega que há bilhões de outros universos, paralelos a este em que vivemos, e que cada um deles é um pouco diferente. Há alguns em que você nunca teria nascido e outros em que não desejaria nascer. Há universos paralelos em que estou transando com um cavalo, há aqueles em que ganhei o grande prêmio da loteria. Há universos onde estou deitado no chão do quarto sangrando lentamente até morrer, e aqueles em que sou eleito, por maioria de votos, para o cargo de presidente do país. Mas este conjunto de universos paralelos não me interessa agora. Interessam-me só aqueles em que ela não está feliz casada e tem um menininho doce. Em que está totalmente só. Há muitos universos assim, tenho certeza. Tento pensar neles agora. Dentre todos esses universos, há aqueles em que jamais nos encontramos. Eles também não me interessam no momento. Dentre os que restaram, há aqueles em que ela não me quer. Ela me diz não. Em alguns deles, de forma delicada, em outros, de modo ofensivo. Nenhum deles me interessa. Restaram somente aqueles em que ela me diz sim, e eu seleciono um deles, mais ou menos como se escolhe uma fruta na quitanda. Escolho o mais bonito, mais maduro, mais doce. É um universo em que o clima é perfeito. Nunca é quente demais ou frio demais, e vivemos ali em uma pequena cabana na floresta. Ela trabalha na biblioteca municipal, quarenta minutos de viagem de nossa casa, e eu trabalho no setor de educação do conselho regional, no prédio em frente àquele em que ela trabalha. Da janela do meu escritório posso às vezes vê-la recolocando livros nas prateleiras. Sempre almoçamos juntos. E eu a amo e ela a mim. E eu a amo e ela a mim. E eu a amo e ela a mim. Eu daria tudo para me transferir para esse universo, mas, por enquanto, até que eu encontre o caminho, só me resta pensar nele, o que não é pouco. Posso me imaginar vivendo lá no meio da floresta. Com ela, em total felicidade. Há um sem-número de universos paralelos no mundo. Em um deles estou transando com um cavalo, no outro ganhei o grande prêmio da loteria. Não quero pensar neles agora, somente naquele, naquele universo com a casa na floresta. Há um universo em que estou deitado com as veias cortadas, sangrando no chão do quarto. É o universo onde foi-me decretado viver até que isso acabe. Não quero pensar nele agora. Somente naquele universo. Uma casa na floresta, sol se pondo, dorme-se cedo. Na cama, meu braço direito está solto, estanque, ela dorme sobre ele, e estamos abraçados. Ela está deitada sobre ele há tanto tempo que começo a parar de senti-lo. Mas não me mexo, está bom para mim assim, com o braço debaixo do seu corpo quente, e continua sendo bom mesmo quando paro de sentir o braço totalmente. Sinto a respiração dela no meu rosto, ritmada, regular, não acaba. Meus olhos começam a se fechar agora. Não só naquele universo, na cama, na floresta, também em outros universos sobre os quais não quero pensar agora. É bom para mim saber que há outro lugar, no coração da floresta, em que adormeço agora feliz.

Etgar Keret, in De repente, uma batida na porta