Come-se bem e caro em Nova Iorque. Num
daqueles restaurantes com nome francês ali das ruas 55 ou 56, você
põe os dois olhos no pires e o maître ainda fica esperando
você botar uma orelha de gorjeta. Nem sempre o caro é bom. Caímos
em alguns blefes memoráveis, levados por um nome promissor ou uma
fachada bonita. E nem sempre o bom é caro. O principal é a gente
abandonar alguns preconceitos sobre a comida americana padronizada.
Por exemplo: em Nova Iorque existem
cadeias de restaurantes especializados em duas ou três coisas como
hambúrgueres e saladas, e todos com o mesmo nome, a mesma decoração
e o mesmo tipo de serviço. A sua primeira reação é passar longe
deles, prevendo que tudo será robotizado e terá o mesmo gosto de
papelão. Ledo e ivo engano. O hambúrguer é grande e gostoso, a
salada é fresca e, se o serviço é um pouco automático, pelo menos
você não está pagando pela empáfia de nenhum maître nem
por um nome francês na porta. Agora, não invente de querer sair
fora do padrão. Se com o Superbúrguer nº 2 você tem direito a
salada com molho Russo ou das Mil Ilhas, não invente de pedir o
molho Roquefort que vem com o Superbúrguer nº 3. O garçom entrará
em pânico, uma luz acenderá no escritório do gerente, em dois
minutos o Presidente Ford ficará sabendo e colocará a Guarda
Nacional em alerta. Peça o que está escrito.
Outra boa saída para quem está em
Nova Iorque com um orçamento subdesenvolvido é a porcaria, a grande
porcaria americana. O sanduíche de drugstore, o
cachorro-quente de rua, os sorvetes e milk-shakes. Porcaria
boa e barata, cheia de colesterol e energia, a sustança do turista.
Grande lance, também, é o breakfast. A maior invenção
americana depois do raibã e do chiclé balão. Com um breakfast
de bacon, ovos, torradas, manteiga, geléias, laranjada e café com
leite ali pelas 9 ou 10 da manhã, você fica de pé e ativo até as
10 da noite e economiza o almoço. Há casos de brasileiros que
resolveram experimentar panquecas com melado de breakfast e
ficaram alimentados por dois dias, só que com a locomoção e o
raciocínio um pouco prejudicados. São dúzias de panquecas com
montes de manteiga em cima.
No nosso último dia em Nova Iorque,
resolvemos almoçar num dos franceses famosos. Acontece que já
tínhamos feito as malas e eu já estava com o meu uniforme de
viagem, um casaco tipo jaqueta, ou uma jaqueta tipo casaco, que —
se não fosse o protesto de familiares e de órgãos da saúde
pública — me acompanharia até o túmulo. Entramos no Clos
Normand, Rua 55, leste. Restaurante vazio — ainda não era meio-dia
— e aquele ar que diz aos sentidos: este é dos bons. O maître
vem em nossa direção do fundo do restaurante. Sorrindo. É meio
parecido com o Nestor Jost. De repente nota o meu casaco e o sorriso
vacila. É evidente o seu esforço para não se deixar dominar pela
náusea. O senhor tem reserva? É uma pergunta retórica, pois ele já
decidiu que eu só sento em restaurante em que ele seja maître
com uma ordem judicial, e mesmo assim ele dará um jeito de me
envenenar antes do primeiro prato. Não tenho reserva. Ele não
consegue tirar os olhos do meu casaco. É o fascínio do ultraje. Ele
toma o meu casaco como uma afronta pessoal. Finge que passa os olhos
pelo restaurante, como que pensando numa possibilidade de nos
acomodar, e finalmente pede desculpas. Sem reserva, infelizmente…
Agradeço e começo a me retirar, mas
ele não resiste. Pega a gola do meu casaco entre o polegar e o
indicador, e numa voz conciliadora pergunta: “Você não tem outro
casaco, não?” Como quem diz: meu jovem, você se dá conta do que
me fez? Você tem consciência do que acaba de tentar aqui, hoje?
Pensei em várias respostas para lhe dar. Mas aí já estávamos a
duas quadras de distância, e rindo muito do incidente. “Tenho,
sim, mas está no bolso de trás e é difícil tirar.” Ou “no
Lasserre, em Paris, ninguém reparou”. Ou “tenho, sim, mas este
eu não dou, não insista”. Fomos almoçar em outro francês, onde
o meu casaco, além de alguns narizes torcidos, não causou nenhum
efeito.
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
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