“...e eu que saí de casa olhando
a lua
até hoje estou na rua.”
[Feitiço da Vila, Noel
Rosa]
Eu nasci na chamada Rua da Pedreira
(Santos Rodrigues), no Estácio, num apartamentinho escuro. A rua, na
época, não tinha saída. Era muito pobre, com vários terrenos
baldios. Estou só dando uma ideia do cenário. Aí, com quase quatro
anos, finalzinho da década de 1940, houve a mudança — e botem
mudança nisso! — para a Rua dos Artistas, em Vila Isabel.
Os chatos insistem em afirmar que o bairro era Aldeia Campista, mas,
como meu vô português botou um papel em meu bolso com o endereço,
telefone e estava escrito que o bairro era Vila Isabel, foi, é e
sempre será Vila Isabel. Os que discordarem podem, em fila
organizada, ir à merda.
Por mais que a amável leitora ou
leitor se esforcem, acho que jamais conseguirão saber o que o menino
sentiu quando, pela primeira vez, viu o quintal cheio de árvores:
laranjeiras-da-terra, limoeiros, jaqueiras, mangueiras e, entre
insignificantes goiabeiras vermelhas, a gigantesca, o que é incomum,
goiabeira branca que se curvava até o chão para que eu subisse por
seus galhos a um recanto especial, onde,recostado, lia Monteiro
Lobato. E sol, sol, sol no céu remendado de pipas. O quintal também
tinha uma parte cimentada para acirrados jogos de futebol em que eu,
sempre chegado a ficar sozinho, enfrentava o Aldirzinho, um
adversário faltoso e desleal.
Outro deslumbramento eram os almoços
de domingo. Se fosse Páscoa, um dia santo especial, festas
natalinas, armavam uma mesa de tábuas e cavaletes no quintal. Não
raro eram 30, 40 pessoas mandando ver no garfo — e no copo, claro.
Pra vocês terem uma pequena ideia, nas feijoadas, as laranjas
ficavam em enormes bacias, as cervejas suavam em tinas de madeira e
havia literalmente dezenas de garrafas de cachaças e batidas. Rolava
de tudo: porres, brigas conjugais, concurso de charadas, alguém
carregando na pimenta e se cagando em pleno repasto.
No quarto dos fundos, a estranha mesa
hexagonal com centenas de lápis de cor, de cera, pincéis,
tinteiros, vidros com penas, vários tipos de cadernos, carimbos,
réguas, compassos e esquadros ainda de madeira, sem falar de uma
tralha que eu não sabia como utilizar digna de um Harry Potter da
Zona Norte. O destaque era meu imenso cavalo com rodinhas (bem maior
que eu), o laboratório de química e o “cabaré”. Isso aí,
ca-ba-ré. Eu fechava a janela, trancava a porta, acendia um abajur
velho e dançava um treco entre o tango e o vodu com as filhas das
empregadas. Bom começo, né?
Aos 11 anos, como uma punhalada, me
devolveram ao Estácio, pra Rua Maia Lacerda, transversal daquela em
que nasci. Um antro. A infância acabou — ou quase. É
inacreditável a falta de respeito dos adultos com o que pertence às
crianças. Cavalo, trem elétrico, gangorra, escorrega, patinete,
rema-rema, centenas de soldadinhos e carros, sacos de bolas de gude,
caixas cheias de figurinhas duplicatas de vários álbuns, milhares
de gibis, tudo isso sumiu da noite para o dia. Para sobreviver à
esmagadora tristeza, eu “brincava de Vila Isabel”. Lia os
capa-e-espada fingindo que estava na goiabeira branca. Fazia longas e
silenciosas viagens pelo rio Amazonas, espingarda e cigarros de
chocolate ao alcance da mão. Acho que a necessidade de brincar com a
mente me levou a escrever letras de música. Eu precisava sonhar. A
realidade na Maia eram trabalhos de cartolina rasgados e atirados na
sarjeta, raquetes de pingue-pongue Procópio destruídas, bolas
furadas... O que um garoto de 12, 13 anos faz com maconheiros de 25,
além de PMs, mecânicos e motoristas de caminhão de porre? Sonha
com a infância dilacerada. Reconstrói a Vila, as árvores as
chuvaradas com barquinhos de papel jogados da janela. Nesses torós,
o quintal enchia tanto que apareciam peixinhos entre as árvores. Não
me perguntem como.
Hoje, com 69 anos, estou escrevendo
esse texto — mas não sou eu. É o menino quem lança essas
garatujas no papel, o menino correndo atrás da infância, agarrado
aos cacos que sobraram dela. A rua e a Vila viverão enquanto o
menino viver.
Aldir Blanc, em Vila Isabel, inventário da infância

Nenhum comentário:
Postar um comentário