terça-feira, 21 de abril de 2026

Na rua, até hoje...



...e eu que saí de casa olhando a lua
até hoje estou na rua.”
[Feitiço da Vila, Noel Rosa]

Eu nasci na chamada Rua da Pedreira (Santos Rodrigues), no Estácio, num apartamentinho escuro. A rua, na época, não tinha saída. Era muito pobre, com vários terrenos baldios. Estou só dando uma ideia do cenário. Aí, com quase quatro anos, finalzinho da década de 1940, houve a mudança — e botem mudança nisso! — para a Rua dos Artistas, em Vila Isabel. Os chatos insistem em afirmar que o bairro era Aldeia Campista, mas, como meu vô português botou um papel em meu bolso com o endereço, telefone e estava escrito que o bairro era Vila Isabel, foi, é e sempre será Vila Isabel. Os que discordarem podem, em fila organizada, ir à merda.
Por mais que a amável leitora ou leitor se esforcem, acho que jamais conseguirão saber o que o menino sentiu quando, pela primeira vez, viu o quintal cheio de árvores: laranjeiras-da-terra, limoeiros, jaqueiras, mangueiras e, entre insignificantes goiabeiras vermelhas, a gigantesca, o que é incomum, goiabeira branca que se curvava até o chão para que eu subisse por seus galhos a um recanto especial, onde,recostado, lia Monteiro Lobato. E sol, sol, sol no céu remendado de pipas. O quintal também tinha uma parte cimentada para acirrados jogos de futebol em que eu, sempre chegado a ficar sozinho, enfrentava o Aldirzinho, um adversário faltoso e desleal.
Outro deslumbramento eram os almoços de domingo. Se fosse Páscoa, um dia santo especial, festas natalinas, armavam uma mesa de tábuas e cavaletes no quintal. Não raro eram 30, 40 pessoas mandando ver no garfo — e no copo, claro. Pra vocês terem uma pequena ideia, nas feijoadas, as laranjas ficavam em enormes bacias, as cervejas suavam em tinas de madeira e havia literalmente dezenas de garrafas de cachaças e batidas. Rolava de tudo: porres, brigas conjugais, concurso de charadas, alguém carregando na pimenta e se cagando em pleno repasto.
No quarto dos fundos, a estranha mesa hexagonal com centenas de lápis de cor, de cera, pincéis, tinteiros, vidros com penas, vários tipos de cadernos, carimbos, réguas, compassos e esquadros ainda de madeira, sem falar de uma tralha que eu não sabia como utilizar digna de um Harry Potter da Zona Norte. O destaque era meu imenso cavalo com rodinhas (bem maior que eu), o laboratório de química e o “cabaré”. Isso aí, ca-ba-ré. Eu fechava a janela, trancava a porta, acendia um abajur velho e dançava um treco entre o tango e o vodu com as filhas das empregadas. Bom começo, né?
Aos 11 anos, como uma punhalada, me devolveram ao Estácio, pra Rua Maia Lacerda, transversal daquela em que nasci. Um antro. A infância acabou — ou quase. É inacreditável a falta de respeito dos adultos com o que pertence às crianças. Cavalo, trem elétrico, gangorra, escorrega, patinete, rema-rema, centenas de soldadinhos e carros, sacos de bolas de gude, caixas cheias de figurinhas duplicatas de vários álbuns, milhares de gibis, tudo isso sumiu da noite para o dia. Para sobreviver à esmagadora tristeza, eu “brincava de Vila Isabel”. Lia os capa-e-espada fingindo que estava na goiabeira branca. Fazia longas e silenciosas viagens pelo rio Amazonas, espingarda e cigarros de chocolate ao alcance da mão. Acho que a necessidade de brincar com a mente me levou a escrever letras de música. Eu precisava sonhar. A realidade na Maia eram trabalhos de cartolina rasgados e atirados na sarjeta, raquetes de pingue-pongue Procópio destruídas, bolas furadas... O que um garoto de 12, 13 anos faz com maconheiros de 25, além de PMs, mecânicos e motoristas de caminhão de porre? Sonha com a infância dilacerada. Reconstrói a Vila, as árvores as chuvaradas com barquinhos de papel jogados da janela. Nesses torós, o quintal enchia tanto que apareciam peixinhos entre as árvores. Não me perguntem como.
Hoje, com 69 anos, estou escrevendo esse texto — mas não sou eu. É o menino quem lança essas garatujas no papel, o menino correndo atrás da infância, agarrado aos cacos que sobraram dela. A rua e a Vila viverão enquanto o menino viver.

Aldir Blanc, em Vila Isabel, inventário da infância

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