O sr. Presidente — Tem a palavra o
sr. deputado Marta Rocha.
O sr. Marta Rocha (movimento geral
de atenção; palmas no recinto e nas galerias) — Sr.
Presidente, ao subir a esta tribuna…
Vários senhores deputados — Muito
bem! V. ex.a está-se exprimindo com rara eloquência e felicidade.
O sr. Marciano Condeúba — Não
apoiado. V. ex.a não sobe à tribuna. Esta é que, com muita honra,
se alça até v. ex.a.
(Novas palmas e vivas nas
galerias.)
O sr. Presidente — Atenção! Peço
às galerias que não se manifestem.
O sr. Demóstenes Latino — Sr.
Presidente, rogo a v. ex.a, em nome da velha Grécia e dos imortais
princípios de 2 de julho, que admita, neste caso excepcional, a
manifestação irreprimível das galerias.
o sr. Presidente — Atendendo às
ponderações do líder da maioria, permito às galerias que se
manifestem com três hurras, terminados os quais voltará a
prevalecer o regimento. (Ouvem-se três hurras e muitos fius.)
Prossiga o nobre orador.
O sr. Romualdo Alecrim — Um momento,
sr. Presidente. O nobre líder da maioria devia ter dado uma chance à
minoria para também se solidarizar com as justas expansões do povo,
pois é evidente que, numa hora solar como esta, cessam as distinções
partidárias. A oposição também é filha de Deus.
O sr. Marta Rocha — Como dizia, sr.
Presidente…
O sr. Demóstenes Latino — V. ex.a
não precisa dizer nada. Os elevados pensamentos políticos de v.
ex.a estão estampados em seu rosto. Esta assembleia em peso sente-se
feliz em apoiar as considerações implícitas e aurifulgentes de v.
ex.a.
Outros senhores deputados — Bravo!
Já disse tudo!
O sr. Noé da Anunciação (com as
mãos em concha) — Deixa a mocinha falar, gente!
O sr. Marciano Condeúba — O
venerando colega não escutou a música dos anjos?
O sr. Noé da Anunciação — Como,
meu filho? Ando meio duro de ouvido, depois daquele acidente de
tílburi, no largo da Sé, em 85…
O sr. Marta Rocha (tira da bolsa
batom e espelhinho, e aplica-se meticulosamente a retificar a linha
dos lábios. Terminada a operação, sorri. Um clarão celestial
espalha-se pelo recinto. Os senhores deputados quedam-se em êxtase
nas bancadas, as galerias fazem o mesmo; o sr. Presidente, com as
mãos no queixo, tem uma particular expressão de beatitude) —
Bem, sr. Presidente…
O sr. Caribé — Vá ser bonita nos
quintos dos infernos, puxa!
O sr. Noé da Anunciação — O que é
que esse moço aí está dizendo?
O sr. Caribé — Nada, não.
O sr. Firmino Azedo — Sr.
Presidente, tudo isso está muito bem, mas lembro à casa que há
quatro anos seguidos não votamos a proposta de orçamento do Estado,
remetida pelo eminente governador Pedrinho Calmon. A Assembleia não
aprovou sequer o projeto de aumento de subsídio. Sei que estou sendo
impertinente, mas a Bahia, que a todos nos julgará…
O sr. Demóstenes Latino — Sr.
Presidente, em nome da maioria protesto contra as insinuações
malévolas do nobre deputado. A Bahia é testemunha de que se não
foi possível produzir mais nesta legislatura é porque, sr.
Presidente…
O sr. Romualdo Alecrim — Claro,
claro! A minoria, por sua vez, repele a acusação inepta e infeliz.
Dou testemunho de que nunca fomos tão assíduos a esta casa, e que
passamos a nos reunir de janeiro a dezembro, sem parar. Se não há
projetos votados, devemos atribuir o fato…
O sr. Presidente (dirigindo-se ao
sr. Firmino Azedo) — O nobre deputado está expulso deste
recinto! (Sensação.)
O sr. Crispim Moreno — Sr.
Presidente, no dia em que for restabelecida a votação, pedirei
preferência para o meu projeto que modifica o sistema métrico
decimal. Esse sistema permitiu a inqualificável prevaricação do
júri capitalista de Long Beach, há quatro anos, que privou a nossa
pátria do título mundial a que fazia jus. Os infames trastes
petrolíferos, por uma questão de poucas polegadas…
O sr. Demóstenes Latino — Malgrado
a orientação doutrinária do nobre representante de Ilhéus,
proponho, sr. Presidente, que o seu projeto seja votado
imediatamente, de pé, e por aclamação.
(Tempestade de aplausos nas
galerias.)
O sr. Presidente — Atenção,
atenção, as galerias não podem votar! Bem, já votaram. Está
aprovado o projeto!
O sr. Marta Rocha (sorrindo
novamente) — Sr. Presidente, tenho dito.
(Delírio. O orador é carregado em
triunfo.)
Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira
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