quinta-feira, 30 de abril de 2026

Assembleia baiana

O sr. Presidente — Tem a palavra o sr. deputado Marta Rocha.
O sr. Marta Rocha (movimento geral de atenção; palmas no recinto e nas galerias) — Sr. Presidente, ao subir a esta tribuna…
Vários senhores deputados — Muito bem! V. ex.a está-se exprimindo com rara eloquência e felicidade.
O sr. Marciano Condeúba — Não apoiado. V. ex.a não sobe à tribuna. Esta é que, com muita honra, se alça até v. ex.a.
(Novas palmas e vivas nas galerias.)
O sr. Presidente — Atenção! Peço às galerias que não se manifestem.
O sr. Demóstenes Latino — Sr. Presidente, rogo a v. ex.a, em nome da velha Grécia e dos imortais princípios de 2 de julho, que admita, neste caso excepcional, a manifestação irreprimível das galerias.
o sr. Presidente — Atendendo às ponderações do líder da maioria, permito às galerias que se manifestem com três hurras, terminados os quais voltará a prevalecer o regimento. (Ouvem-se três hurras e muitos fius.) Prossiga o nobre orador.
O sr. Romualdo Alecrim — Um momento, sr. Presidente. O nobre líder da maioria devia ter dado uma chance à minoria para também se solidarizar com as justas expansões do povo, pois é evidente que, numa hora solar como esta, cessam as distinções partidárias. A oposição também é filha de Deus.
O sr. Marta Rocha — Como dizia, sr. Presidente…
O sr. Demóstenes Latino — V. ex.a não precisa dizer nada. Os elevados pensamentos políticos de v. ex.a estão estampados em seu rosto. Esta assembleia em peso sente-se feliz em apoiar as considerações implícitas e aurifulgentes de v. ex.a.
Outros senhores deputados — Bravo! Já disse tudo!
O sr. Noé da Anunciação (com as mãos em concha) — Deixa a mocinha falar, gente!
O sr. Marciano Condeúba — O venerando colega não escutou a música dos anjos?
O sr. Noé da Anunciação — Como, meu filho? Ando meio duro de ouvido, depois daquele acidente de tílburi, no largo da Sé, em 85…
O sr. Marta Rocha (tira da bolsa batom e espelhinho, e aplica-se meticulosamente a retificar a linha dos lábios. Terminada a operação, sorri. Um clarão celestial espalha-se pelo recinto. Os senhores deputados quedam-se em êxtase nas bancadas, as galerias fazem o mesmo; o sr. Presidente, com as mãos no queixo, tem uma particular expressão de beatitude) — Bem, sr. Presidente…
O sr. Caribé — Vá ser bonita nos quintos dos infernos, puxa!
O sr. Noé da Anunciação — O que é que esse moço aí está dizendo?
O sr. Caribé — Nada, não.
O sr. Firmino Azedo — Sr. Presidente, tudo isso está muito bem, mas lembro à casa que há quatro anos seguidos não votamos a proposta de orçamento do Estado, remetida pelo eminente governador Pedrinho Calmon. A Assembleia não aprovou sequer o projeto de aumento de subsídio. Sei que estou sendo impertinente, mas a Bahia, que a todos nos julgará…
O sr. Demóstenes Latino — Sr. Presidente, em nome da maioria protesto contra as insinuações malévolas do nobre deputado. A Bahia é testemunha de que se não foi possível produzir mais nesta legislatura é porque, sr. Presidente…
O sr. Romualdo Alecrim — Claro, claro! A minoria, por sua vez, repele a acusação inepta e infeliz. Dou testemunho de que nunca fomos tão assíduos a esta casa, e que passamos a nos reunir de janeiro a dezembro, sem parar. Se não há projetos votados, devemos atribuir o fato…
O sr. Presidente (dirigindo-se ao sr. Firmino Azedo) — O nobre deputado está expulso deste recinto! (Sensação.)
O sr. Crispim Moreno — Sr. Presidente, no dia em que for restabelecida a votação, pedirei preferência para o meu projeto que modifica o sistema métrico decimal. Esse sistema permitiu a inqualificável prevaricação do júri capitalista de Long Beach, há quatro anos, que privou a nossa pátria do título mundial a que fazia jus. Os infames trastes petrolíferos, por uma questão de poucas polegadas…
O sr. Demóstenes Latino — Malgrado a orientação doutrinária do nobre representante de Ilhéus, proponho, sr. Presidente, que o seu projeto seja votado imediatamente, de pé, e por aclamação.
(Tempestade de aplausos nas galerias.)
O sr. Presidente — Atenção, atenção, as galerias não podem votar! Bem, já votaram. Está aprovado o projeto!
O sr. Marta Rocha (sorrindo novamente) — Sr. Presidente, tenho dito.
(Delírio. O orador é carregado em triunfo.)

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira 

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