Ela era uma mocinha. Trabalhava no
restaurante da tia. Já era noite e ela estava atrasada. A tia estava
preocupada, porque suspeitava que ela estivesse com um certo moço
que frequentava o restaurante, mesmo quando não estava nem comendo
nem bebendo. Onde estariam? Fazendo o quê?
Eles estavam na praia deserta sob o
céu estrelado. Tudo era silêncio, a luz da lua refletida no mar, a
voz distante das pessoas, o murmúrio das ondas mansas que lhes
molhavam os pés. Distantes um do outro, não se tocavam. Apenas se
olhavam. Ele tinha na mão um livro de poemas de amor de Pablo
Neruda. Abriu o livro e começou a ler. Ela parou e não se mexeu até
que a leitura terminasse.
Já era tarde quando ela chegou. O
restaurante estava vazio. Entrou como se estivesse em transe –
andava como um sonâmbulo, sem se dar conta da presença da tia.
– Onde você esteve? — a tia lhe
perguntou com severidade.
– Na praia — ela respondeu sem
acordar do transe.
A tia se alvoroçou. Praia, lugar
solitário, com um moço... E agora esse jeito sonambúlico, nunca
visto. Coisa muito grave deveria ter acontecido. E a imaginação da
tia começou a ver cenas de nudez e amor carnal na areia, sob a luz
do luar.
– O que foi que ele lhe fez? — ela
perguntou.
– Ele leu um poema — a moça
respondeu.
Aliviada de suas fantasias carnais, a
tia se deu conta de que uma coisa muito mais grave acontecera. E com
um profundo suspiro falou:
– Leu-lhe um poema... Então você
está perdida...
A tia conhecia os segredos do amor. O
amor começa com a poesia. O corpo é um instrumento. A poesia é a
música.
***
Florentino Ariza perdeu o emprego de
escriturário na companhia de navegação. Seu coração fora
dilacerado pelo casamento de sua amada, Fermina Daza, com o doutor
Urbino, o que interferiu no seu estilo literário: as cartas, que
deveria escrever dentro das frias formalidades do estilo comercial,
passaram a ser infectadas pela sua paixão — pareciam poemas. Foi
advertido, mas não adiantou. O remédio foi despedi-lo.
Sem emprego, teve de procurar um jeito
alternativo de ganhar a vida. E, vagabundeando pela praça central da
cidade, notou que jovens advogados ali montavam seus negócios.
Tinham mesas em que escreviam petições e requerimentos para quem
delas necessitasse. E assim ganhavam um dinheirinho. Florentino teve
então uma ideia brilhante: cartas de amor! Ele escreveria cartas de
amor! Tanta gente queria escrever cartas de amor e não sabia!
O negócio prosperou. E era fácil.
Quando um homem queria escrever uma carta para uma mulher, Florentino
imaginava que estava escrevendo uma carta para Fermina. E, quando era
uma mulher que desejava escrever uma carta para um homem, ele
imaginava a carta que gostaria de receber da amada.
Um jovem procurou os seus serviços.
Florentino escreveu-lhe uma carta com a paixão que sentia por
Fermina. Uma semana depois, foi uma jovem. Ela recebera uma carta tão
bonita que não sabia como respondê-la. Ato contínuo, passou a dita
carta para as mãos de Florentino – era a que ele mesmo havia
escrito uma semana antes. A partir desse momento, ele se envolveu
numa furiosa correspondência apaixonada consigo mesmo, ora no papel
de Florentino, ora no papel de Fermina.
Os dois jovens se apaixonaram e ao
final se casaram. Apaixonaram-se pelo quê? Apaixonaram-se pelas
cartas...
***
Um sultão, descobrindo-se traído
pela esposa a quem amava perdidamente, toma uma decisão cruel. Não
pode viver sem o amor de uma mulher, mas também não pode suportar a
possibilidade da traição. Resolve, então, que vai se casar com as
moças mais belas dos seus domínios, mas depois da primeira noite de
amor vai mandar decapitá-las. Assim o amor se renovaria, a cada
noite, em todo o seu vigor de fogo impetuoso, sem nenhum sopro de
infidelidade que pudesse apagá-lo.
Espalham-se rapidamente pelo reino as
notícias das coisas terríveis que aconteciam no palácio real –
as jovens desapareciam logo depois da noite de núpcias. Sherazade,
filha do vizir, procura então o pai e lhe anuncia sua espantosa
decisão: deseja tornar-se esposa do sultão. O pai, desesperado, lhe
revela o triste destino que a aguarda, pois é ele mesmo quem cuida
das execuções. Mas a jovem se mantém irredutível.
A estória descreve a jovem Sherazade
de forma reveladora. Quase nada diz sobre a sua beleza. Faz silêncio
total sobre o seu virtuosismo erótico. Mas conta que ela lera livros
de todas as espécies, que havia memorizado grande quantidade de
poemas e narrativas, que decorara provérbios populares e sentenças
de filósofos.
E Sherazade se casa com o sultão.
Realizados os atos de amor físico que acontecem nas noites de
núpcias, depois que o fogo do amor carnal se esgota o corpo do
esposo, quando só resta esperar o raiar do dia para que a jovem seja
sacrificada, ela começa a falar. Conta estórias. Suas palavras
penetram suavemente os ouvidos do sultão, como música. O ouvido é
feminino, vazio que espera e acolhe, que se permite ser penetrado. A
fala é masculina, algo que cresce e penetra os vazios da alma.
Segundo antiquíssima tradição, foi assim que o Deus humano foi
concebido: pelo sopro poético do Verbo Divino, que penetrou os
ouvidos encantados e acolhedores de uma virgem.
O corpo é um lugar maravilhoso de
delícias. Mas Sherazade sabe que todo amor construído sobre as
delícias do corpo tem vida breve. A chama se apaga tão logo o corpo
tenha se esvaziado do seu fogo. O seu triste destino é ser
decapitado pela madrugada – não é eterno, posto que é chama. E
então, quando as chamas dos corpos já se apagaram, a voz de
Sherazade sopra suavemente. Fala. Erotiza os vazios adormecidos do
sultão. Acorda o mundo mágico da fantasia. Cada estória contém
uma outra, dentro de si, infinitamente. Não há um orgasmo que ponha
fim ao desejo. E ela lhe parece bela, diferente de todas as outras
mulheres. Porque uma pessoa é bela não pela beleza dela, mas pela
nossa que aparece refletida na voz e nos olhos dela...
O sultão, encantado pelas estórias
de Sherazade, foi adiando a execução, por mil e uma noites,
eternamente e um dia mais. E, pela beleza das palavras de Sherazade,
o sultão a amou para sempre...
***
Conselho de Nietzsche: Diante da
possibilidade de casamento, só existe uma pergunta a ser feita –
terei prazer em conversar com essa pessoa até o fim dos meus dias?
Pois é com os tênues fios da conversa que se tece o amor.
Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

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