quinta-feira, 30 de abril de 2026

2 — Pôncio Pilatos



[…]

Prossiga!
Não houve mais nada — disse o prisioneiro. — Depois uns homens entraram correndo e começaram a me amarrar e me levaram para a prisão.
O secretário, tentando não perder uma palavra sequer, traçava as palavras no pergaminho rapidamente.
Nunca houve, não há e não haverá no mundo poder mais grandioso e maravilhoso para as pessoas do que o poder do imperador Tiberius! — cresceu a voz rasgada e doente de Pilatos.
O procurador, por algum motivo, olhava com ódio para o secretário e para o corpo de guardas.
E não é você, um criminoso demente, que deve discutir sobre ele! — Então Pilatos gritou: — Retirem o corpo de guardas da varanda! — E, voltando-se para o secretário, acrescentou: — Deixem-me a sós com o criminoso. É um assunto de Estado.
O corpo de guardas levantou as lanças e, batendo ritmicamente com as cáligas no chão, saiu da varanda para o jardim, e atrás dele saiu também o secretário.
O silêncio na varanda, durante algum tempo, só era interrompido pela canção da água do chafariz. Pilatos via como a água jorrava no prato sobre o tubo, deslizando pelas bordas e caindo em filetes.
O prisioneiro falou primeiro:
Vejo que ocorreu alguma desgraça por causa de minha conversa com esse jovem de Kerioth. Eu, Hegemon, tenho um pressentimento de que com ele acontecerá algum infortúnio, e tenho muita pena.
Eu acho — respondeu o procurador, sorrindo de forma irônica e estranha — que existe mais gente no mundo de quem você deveria sentir mais pena do que de Judas de Kerioth e que deve sofrer bem mais do que Judas! Então, Marcos Mata-ratos, um carrasco frio e convencido, as pessoas, que, como vejo — o procurador apontou para o rosto deformado de Yeshua —, bateram em você por causa de sua pregação, os bandidos Dismas e Gestas, que com seus comparsas mataram quatro soldados, e, finalmente, o sujo traidor Judas... todos eles são bons homens?
São — respondeu o prisioneiro.
E virá o reino da verdade?
Virá, Hegemon — respondeu Yeshua com firmeza.
Ele nunca virá! — Pilatos começou a gritar de repente, com uma voz tão terrível que Yeshua se afastou. Havia muitos anos, no vale das Virgens, Pilatos gritara as seguintes palavras a seus soldados: “Degolem-nos! Degolem-nos! O grandioso Mata-ratos foi preso!” Ele aumentou ainda mais a voz rasgada por causa das ordens, chamando de maneira que suas palavras fossem ouvidas no jardim: — Criminoso! Criminoso! Criminoso!
Depois, diminuindo o tom de voz, perguntou:
Yeshua Ha-Notzri, você acredita em deuses?
Existe apenas um Deus — respondeu Yeshua. — Acredito nele.
Então reze para ele! Reze muito! Aliás... — a voz de Pilatos falseou — isso não o ajudará. Você não tem mulher? — Pilatos perguntou, por alguma razão, com tristeza, sem entender o que lhe estava passando.
Não, sou sozinho.
Cidade odiosa... — o procurador, por alguma razão, balbuciou de repente, encolhendo os ombros. — Se o tivessem matado antes de seu encontro com Judas de Kerioth, realmente, teria sido melhor.
E você poderia me soltar, Hegemon — pediu o prisioneiro inesperadamente, e sua voz pareceu preocupada. — Vejo que querem me matar.
O rosto de Pilatos desfigurou-se em uma convulsão, e ele voltou para Yeshua seus olhos irritados e cobertos de veias vermelhas, dizendo:
Você supõe, seu infeliz, que o procurador romano soltará um homem que disse o que você disse? Oh, deuses, deuses! Ou você pensa que estou pronto para ocupar o seu lugar? Eu não partilho de seus pensamentos! E ouça: se, a partir desse minuto, você pronunciar uma palavra sequer, se começar a falar com alguém, tome cuidado comigo! Repito: tome cuidado!
Hegemon...
Calado! — gritou Pilatos e, com um olhar desvairado, acompanhou a andorinha que sobrevoou de novo a varanda. — Venham aqui! — gritou Pilatos.
E quando o secretário e o corpo de tropas retornaram para seus lugares, Pilatos declarou que confirmava a sentença de morte, pronunciada na reunião do Pequeno Sinédrio, ao criminoso Yeshua Ha-Notzri, e o secretário anotou o que foi dito por Pilatos.
Um minuto depois, Marcos Mata-ratos estava diante do procurador. Pilatos ordenou-lhe que entregasse o criminoso ao chefe do serviço secreto, transmitindo-lhe a ordem do procurador para que Yeshua Ha-Notzri fosse separado dos outros condenados e também que o comando do serviço secreto, sob a ameaça de pena severa, estava proibido de conversar sobre qualquer coisa com Yeshua ou de responder a qualquer uma de suas perguntas.
Ao sinal de Marcos, o corpo de tropas cercou Yeshua e o levou para fora da varanda.
Depois, diante do procurador, apresentou-se um belo rapaz de barba loura com penas de águia no penacho do capacete, cabeças de leões douradas brilhando no peito, chapinhas douradas no cinturão da espada, os calçados de três solas amarrados até os joelhos e a capa púrpura jogada no ombro esquerdo. Era o legado que comandava a Legião.
O procurador lhe perguntou onde se encontrava a coorte de Sebastião naquele momento. O legado comunicou que os seguidores de Sebastião mantinham o cerco à praça em frente ao hipódromo, onde seria anunciada ao povo a sentença dos criminosos.
Então, o procurador ordenou que o legado separasse duas centúrias da coorte romana. Uma delas, sob o comando de Mata-ratos, deveria fazer a guarda dos criminosos e dos carros com os mecanismos para a execução e com os carrascos a caminho do monte Gólgota e, ao chegar lá, cercar a área por cima. A outra centúria deveria ser enviada imediatamente para o Gólgota e começar a fazer o cerco no mesmo instante. Para isso, ou seja, para a guarda do monte, o procurador pediu ao legado que enviasse um regimento auxiliar da cavalaria — a ala síria.
Quando o legado deixou a varanda, o procurador mandou o secretário chamar ao palácio o presidente do Sinédrio, dois de seus membros e o chefe da guarda do templo de Yerushalaim, acrescentando, porém, que tudo se desse de tal maneira que, antes da reunião com todas essas pessoas, pudesse falar com o presidente mais cedo e a sós.
A ordem do procurador foi cumprida rápida e precisamente, e o sol, que queimava Yerushalaim com uma severidade incomum nesses dias, ainda não conseguira se aproximar de seu ponto mais alto quando, no terraço superior do jardim, ao lado dos dois leões brancos de mármore que guardavam a escada, encontravam-se o procurador e o presidente interino do Sinédrio, o sumo sacerdote da Judeia, José Caifás.
Fazia silêncio no jardim. Mas, ao sair da colunata para a área superior do jardim, banhada pelo sol, com palmeiras sobre monstruosas patas de elefantes, Yerushalaim, que o procurador tanto odiava, se descortinava diante dele, com suas pontes suspensas, fortalezas e, principalmente, o indescritível bloco de mármore com escamas douradas de dragão como telhado. Era o templo de Yerushalaim, ao longe, abaixo, lá onde o muro de pedra separava os terraços inferiores do jardim do palácio da praça da cidade e de onde o procurador captou com o ouvido apurado resmungos baixos, sob os quais soavam, às vezes, ora gemidos, ora gritos, fracos e agudos.
O procurador compreendeu que uma multidão inumerável de habitantes de Yerushalaim, preocupada com as últimas desordens, já estava reunida na praça, e que essa multidão aguardava impacientemente o anúncio da sentença, e vendedores de água gritavam aflitos.
O procurador convidou o sumo sacerdote para a varanda para se proteger do calor impiedoso, mas Caifás desculpou-se educadamente e explicou que não poderia fazer isso na véspera da festa. Pilatos pôs o capuz em sua cabeça um pouco calva e começou a conversa. A conversa era em grego.
Pilatos disse que tinha examinado o caso de Yeshua Ha-Notzri e confirmara a sentença de morte.
Assim, três bandidos estavam condenados à pena de morte, que deveria ser executada naquele dia: Dismas, Gestas, Bar-Raban, e, além destes, esse Yeshua Ha-Notzri. Os dois primeiros, pela intenção de incitar o povo a se rebelar contra César, foram presos pelo poder romano em batalha e estavam na conta do procurador; consequentemente, não iriam falar deles. Os dois últimos, Bar-Raban e Ha-Notzri, foram capturados pelo poder local e julgados pelo Sinédrio. De acordo com a lei, de acordo com a tradição, um desses dois criminosos deveria ser posto em liberdade em homenagem à grande festa da Páscoa que se aproximava.
Então, o procurador queria saber qual dos dois criminosos o Sinédrio pretendia soltar: Bar-Raban ou Ha-Notzri?
Caifás inclinou a cabeça em sinal de que para ele a questão estava clara e respondeu:
O Sinédrio pede que soltem Bar-Raban.
O procurador sabia muito bem que o sumo sacerdote lhe responderia exatamente assim, mas sua tarefa era demonstrar que tal resposta lhe causava espanto.
E foi isso que Pilatos fez com grande habilidade. As sobrancelhas em seu rosto soberbo se suspenderam, o procurador olhou com admiração diretamente nos olhos do sumo sacerdote.
Reconheço que essa resposta me surpreendeu — disse o procurador suavemente. — Temo se não há algum mal-entendido.
Pilatos explicou-se. O poder romano não respeitava em nada os direitos do poder espiritual local, e o sumo sacerdote sabia muito bem disso. No entanto, nesse caso havia um erro evidente. E o poder romano, é claro, estava interessado na correção desse erro.
De fato, os crimes de Bar-Raban e Ha-Notzri eram de gravidade incomparável. Se o segundo era evidentemente um doente mental, acusado de pronunciar discursos absurdos que intimidavam o povo de Yerushalaim e de algumas outras localidades, o primeiro tinha mais agravantes. Além de realizar incitações diretas a rebeliões, também matou um soldado durante as tentativas de capturá-lo. Bar-Raban era incomparavelmente mais perigoso do que Ha-Notzri.
Pelo exposto, o procurador pedia ao sumo sacerdote que revisse a decisão e pusesse em liberdade o menos nocivo dos dois condenados, ou seja, sem dúvida, Ha-Notzri. Então?...
Caifás disse com voz baixa, mas firme, que o Sinédrio analisara atentamente o processo e que comunicava, pela segunda vez, que estava disposto a libertar Bar-Raban.
Como? Mesmo depois da minha intercessão? Intercessão daquele que representa o poder romano? Repita pela terceira vez, sacerdote.
Pela terceira vez comunico que libertaremos Bar-Raban — disse Caifás baixinho.
Tudo estava terminado e não havia mais sobre o que falar. Ha-Notzri partia para sempre, e as dores terríveis e malditas do procurador ninguém mais curaria; não há remédio para elas além da morte. Mas não foi esse pensamento que impressionou Pilatos. Toda aquela mesma tristeza incompreensível, que sentira na varanda, tomava conta de todo o seu ser. Imediatamente, esforçou-se para explicá-la, e a explicação era estranha: parecia-lhe vagamente que não terminara sua conversa com o condenado, ou, quem sabe, que não ouvira bem alguma coisa.
Pilatos afastou esse pensamento, que se foi tão rapidamente quanto veio. O pensamento voou, mas a tristeza permaneceu inexplicável, pois não podia ser explicada por outro breve pensamento que brilhou feito um raio e logo se apagou: “Imortalidade... chegou a imortalidade...” A imortalidade de quem chegou? Isso o procurador não entendeu, mas o pensamento sobre essa imortalidade enigmática o fez gelar sob o sol quente.
Tudo bem — disse Pilatos. — Que assim seja.
Aqui ele olhou ao redor e lançou seu olhar para o mundo que lhe era visível e admirou-se com a mudança ocorrida. O arbusto inclinado sob o peso das rosas sumiu, sumiram os ciprestes, que orlavam o terraço superior, também a árvore de romãs, assim como a estátua branca no verde, e o próprio verde. No lugar disso tudo, flutuava uma massa púrpura e nela balançavam algas que se moviam para algum lugar, e junto com tudo isso se movia o próprio Pilatos. Agora era o mais terrível ódio que o levava, sufocando-o e queimando-o — o ódio da impotência.
Sufocado — disse Pilatos. — Sinto-me sufocado!
Com a mão úmida e fria, ele arrancou a fivela da gola da capa e a deixou cair na areia.
Hoje está abafado, está caindo uma tempestade em algum lugar — exclamou Caifás sem tirar os olhos do rosto avermelhado do procurador e, prevendo todos os sofrimentos que ainda teria de enfrentar, pensou. “Oh, Nissan está sendo um mês terrível esse ano!”
Não — disse Pilatos —, não é o tempo abafado, é a sua presença, Caifás, que me deixa sufocado. — Apertando os olhos, Pilatos sorriu e acrescentou: — Cuide-se, sumo sacerdote.
Os olhos escuros do sacerdote brilharam e ele expressou admiração em seu rosto, não menos habilmente que o procurador fizera antes.
O que estou ouvindo, procurador? — respondeu Caifás, tranquilo e soberano. — Você está me ameaçando após a sentença pronunciada e confirmada por você mesmo? Seria possível? Estamos acostumados com o procurador romano que escolhe palavras antes de dizer alguma coisa. Será que ninguém está nos ouvindo, Hegemon?
Pilatos lançou um olhar mortífero para o sumo sacerdote e, arreganhando os dentes, mostrou um sorriso.
O que é isso, sumo sacerdote! Quem poderia nos ouvir agora? Será que pareço o jovem vadio e vidente que será executado hoje? Por acaso sou um menino, Caifás? Sei o que digo e onde digo. O jardim está cercado, o palácio está cercado de tal forma que nem um rato passará por uma fresta! Não só rato, não passará nem mesmo aquele, como é mesmo... da cidade de Kerioth. A propósito, você o conhece, sumo sacerdote? É... se um desses entrasse aqui sentiria amarga pena de si mesmo, nisso, claro, você acredita em mim, não é mesmo? Então, saiba que a partir de hoje você não terá mais sossego! Nem você, nem seu povo. — Pilatos apontou para o horizonte, à direita, onde no alto o templo ardia em chamas. — Sou eu, Pôncio Pilatos, o cavaleiro da Lança Dourada, que estou lhe dizendo isso!
Sei, sei! — sem medo, respondeu Caifás, de barba preta, e seus olhos brilharam. Ele elevou o braço para o céu e prosseguiu: — O povo judeu sabe que você o odeia com um ódio severo e que vai lhe causar muitos sofrimentos, mas não conseguirá destruí-lo! Deus o protegerá! Ele nos ouvirá, o César todo-poderoso nos ouvirá e nos protegerá de Pilatos, o gênio do mal!
Oh, não! — exclamou Pilatos, e a cada palavra se sentia mais e mais leve: não precisava mais disfarçar, nem escolher palavras. — Você reclamou muito de mim a César e agora chegou a minha hora, Caifás! Uma notícia minha partirá, não para o chefe da Antióquia, nem para Roma, mas diretamente para Capri, ao imperador, a notícia de como vocês deixam escapar da morte os notórios rebeldes de Yerushalaim. E não será da água do lago de Salomão, como era o meu desejo pensando em vocês, que eu darei de beber a Yerushalaim! Não, não será com água, lembre-se, como, por causa de vocês, tive de tirar os escudos com as insígnias do imperador das paredes, tive de mover o Exército e vir em pessoa para ver o que estava acontecendo! Lembre-se de minhas palavras: o que verá aqui, sumo sacerdote, não será apenas uma coorte em Yerushalaim, não! Chegará aos muros da cidade toda a Legião Fulminata, a cavalaria arábica se aproximará e então você ouvirá o choro amargo e as lamentações! E então se lembrará do Bar-Raban que salvou e lamentará ter mandado para a morte um filósofo com sua pregação pacífica!
O rosto do sumo sacerdote cobriu-se de manchas, os olhos ardiam. Como o procurador, ele sorriu por entre os dentes e respondeu:
Será que você mesmo, procurador, acredita nisso que está dizendo? Não, não acredita! Não foi paz, não foi paz que o sedutor do povo nos trouxe para Yerushalaim, e você, cavaleiro, entende isso muito bem. Você queria libertá-lo para que perturbasse o povo, para que achincalhasse a fé e levasse o povo contra as espadas romanas! Porém eu, sumo sacerdote judeu, enquanto estiver vivo, não deixarei que achincalhem a fé e protegerei o povo! Está ouvindo, Pilatos? — Nesse instante, Caifás suspendeu o braço ameaçadoramente: — Ouça, procurador!
Caifás calou-se, e o procurador ouviu novamente como o barulho, parecido com o do mar, aproximava-se dos muros do jardim de Herodes, o Grande. O barulho subia de baixo dos pés até o rosto do procurador. Pelas costas, lá atrás das alas do palácio, ouviam-se toques de alerta das trombetas, o estalido pesado de centenas de pés, o tinido metálico — então o procurador compreendeu que a infantaria romana já estava saindo, conforme sua ordem, e dirigindo-se para a terrível parada pre-mortem dos rebeldes e bandidos.
Está ouvindo, procurador? — repetiu baixinho o sacerdote. — Será que vai me dizer que tudo isso — nesse momento, o sacerdote elevou os dois braços, e o capuz escuro escorregou de sua cabeça — foi provocado pelo pobre bandido Bar-Raban?
O procurador enxugou a testa molhada e fria com as costas da mão, olhou para o chão e depois apertou os olhos para o céu e viu a bola incandescente quase sobre sua cabeça. A sombra de Caifás havia encolhido totalmente perto do rabo do leão e o procurador disse baixinho e indiferente:
É quase meio-dia. Ficamos entretidos com a conversa e, no entanto, é preciso prosseguir.
Com expressões sofisticadas, o procurador desculpou-se diante do sacerdote, pediu que sentasse em um banco à sombra de uma magnólia e que aguardasse enquanto ele chamava as outras pessoas, necessárias para a última e breve reunião, e dava ainda uma ordem, relacionada à execução.
Caifás agradeceu educadamente, pôs a mão no peito e permaneceu no jardim, enquanto Pilatos voltou para a varanda. Lá mandou o secretário, que o esperava, chamar para o jardim o legado da Legião, o tribuno da coorte e, também, dois membros do Sinédrio e o chefe da guarda do templo, que aguardavam o chamado no coreto redondo com chafariz no terraço inferior. Pilatos acrescentou que logo sairia para o jardim, mas se retirou para dentro do palácio.
Enquanto o secretário reunia o conselho, o procurador, dentro do quarto protegido do sol pelas cortinas, encontrava-se com um homem que tinha o rosto coberto pela metade com o capuz, embora dentro do quarto os raios de sol não pudessem incomodá-lo. O encontro foi extremamente breve. O procurador disse baixinho ao homem algumas palavras, após as quais este se retirou e Pilatos dirigiu-se, através da colunata, para o jardim.
Lá, na presença de todos que queria ver, o procurador confirmou solene e secamente que ele aprovava a sentença de morte de Yeshua Ha-Notzri e que, oficialmente, havia tomado conhecimento pelos membros do Sinédrio sobre qual dos prisioneiros deveria ficar vivo. Ao receber a resposta de que era Bar-Raban, o procurador disse:
Muito bem. — Mandou o secretário anotar isso no protocolo no mesmo instante, apertou na mão a fivela encontrada na areia pelo secretário e disse solenemente: — Está na hora!
Nesse instante, todos os presentes puseram-se em movimento, desceram pela larga escada de mármore entre os muros de rosas que exalavam um aroma nauseabundo, descendo mais e mais até o muro do palácio, até os portões que levavam à grande praça, pavimentada com pedras, no fim da qual se avistavam as colunas e estátuas da liça de Yerushalaim.
Assim que o grupo saiu do jardim para a praça e subiu no amplo palanque de pedra que ali reinava, Pilatos, olhando através das pálpebras semicerradas, tomou ciência da situação. O espaço pelo qual havia passado, ou seja, o espaço entre o muro do palácio até o palanque, estava vazio, porém, à sua frente, Pilatos já não via a praça — a multidão a tomara. A multidão também teria tomado o próprio palanque e aquele espaço aberto, se não fosse retida pelas fileiras triplas dos soldados de Sebastião, à esquerda de Pilatos, e pelos soldados da coorte auxiliar da Itureia, à sua direita.
Então, Pilatos subiu ao palanque, apertando mecanicamente no punho a dispensável fivela e franzindo os olhos. Não era por causa do sol que o procurador estava franzindo os olhos, não! Por algum motivo, ele não queria ver o grupo de condenados que, como sabia perfeitamente, subiria atrás dele no palanque.
Assim que o manto branco com aplicações púrpuras surgiu no alto do penhasco de pedra sobre a beirada do mar humano, uma onda sonora bateu nos ouvidos do invisível Pilatos: “Aaahh...” Ela começou baixinho, nasceu ao longe, perto do hipódromo, depois se tornou retumbante e, sustentando-se por alguns segundos, começou a diminuir. “Eles me viram”, pensou o procurador. A onda não chegou ao ponto mais baixo e, inesperadamente, começou a crescer novamente, oscilando, aumentou ainda mais alto do que a primeira. E, na segunda onda, como fervilha a espuma numa vala marítima, ferveu um assobio e diversos gemidos femininos isolados foram ouvidos através das trovoadas. “Eles subiram ao palanque...”, pensou Pilatos, “e os gemidos são de algumas mulheres pisoteadas quando a multidão avançou”.
Ele aguardou um tempo, sabendo que nenhuma força jamais faria a multidão se calar, enquanto ela não extravasasse tudo aquilo que havia acumulado dentro dela e que não se calaria sozinha.
E, quando esse momento chegou, o procurador estendeu o braço direito para o alto e o último ruído soprou da multidão.
Então, Pilatos encheu o peito o quanto pôde de ar quente e gritou, e sua voz rouca soou sobre milhares de cabeças:
Em nome do imperador César!
Nesse instante, um grito metálico e entrecortado bateu algumas vezes em seus ouvidos — nas coortes, erguendo as lanças e os estandartes para o alto, os soldados deram um terrível grito:
Viva César!
Pilatos levantou a cabeça e a expôs diretamente ao sol. Sob as pálpebras explodiu um fogo verde, dele seu cérebro ardeu e, sob a multidão, voaram as palavras roucas em aramaico:
Quatro criminosos, presos em Yerushalaim por assassinato, incitação à rebelião e desrespeito às leis e à fé, foram sentenciados à vergonhosa execução, ao enforcamento em postes! E essa execução será no monte Gólgota! Os nomes dos criminosos são: Dismas, Gestas, Bar-Raban e Ha-Notzri. Ei-los diante de vocês!
Pilatos apontou com a mão direita sem ver nenhum dos criminosos, mas sabia que estavam lá, no lugar onde deveriam estar.
A multidão respondeu com um longo rumor de admiração ou alívio. Depois que ela cessou, Pilatos prosseguiu:
Porém, serão executados somente três deles, pois, de acordo com a lei e a tradição, em homenagem à festa da Páscoa, a um dos condenados, escolhido pelo Pequeno Sinédrio e com a aprovação do poder romano, o benevolente César imperador devolve a vida miserável!
Pilatos gritava as palavras e, ao mesmo tempo, ouvia como o rumor era substituído por grande silêncio. Agora, não se ouvia uma respiração sequer, nenhum barulho chegava a seus ouvidos e houve um instante em que pareceu que tudo ao seu redor havia sumido. A cidade odiada por ele tinha morrido e somente ele estava lá, queimado pelos raios verticais, com o rosto voltado diretamente para o céu. Pilatos ainda manteve o silêncio e depois começou a gritar:
O nome daquele que agora será libertado na presença de vocês...
Ele fez mais uma pausa, segurando o nome, conferindo se havia dito tudo, pois sabia que a cidade morta iria ressuscitar depois de anunciado o nome do felizardo e que mais nenhuma palavra seria ouvida.
Pronto?”, sem pronunciar um som sequer, Pilatos cochichou para si mesmo. — Pronto. O nome!
E, esticando a letra “r” sobre a cidade calada, ele gritou:
Bar-Raban!
Nesse instante, pareceu-lhe que o sol, tilintando, explodira sobre ele e encharcara seus ouvidos com fogo. Nesse fogo esbravejavam berros, gritos, gemidos, gargalhadas e assobios.
Pilatos virou-se e caminhou para trás pelo palanque até os degraus, sem olhar para nada, além dos sabres coloridos sob seus pés para não tropeçar. Ele sabia que agora, ao virar as costas, eram atiradas ao palanque, feito granizo, moedas de bronze e tâmaras; que, na multidão rumorosa, as pessoas, pisoteando umas às outras, subiam nos ombros para ver o milagre com seus próprios olhos: como uma pessoa que já estava nas mãos da morte escapara dessas mãos! Como os legionários lhe retiravam as cordas, causando-lhe involuntariamente uma dor ardente nas mãos torcidas durante os interrogatórios, como ele, fazendo careta e suspirando, ainda sorria com um sorriso insensato e louco.
Ele sabia que, nesse momento, o corpo de tropas estava levando para os degraus laterais os três com as mãos amarradas, para levá-los até a estrada para o ocidente, para fora da cidade, até o monte Gólgota. Somente quando se viu atrás do palanque, no fundo, Pilatos abriu os olhos, sabendo que agora estava seguro, não podia mais ver os condenados.
Ao gemido da multidão, que começava a se acalmar, misturavam-se, e eram perceptíveis, os estridentes gritos dos arautos que repetiam o que o procurador gritara do palanque, uns em aramaico, outros em grego. Além disso, aos seus ouvidos, voou o som que se aproximava, fragmentado e matraqueado, do tropel dos cavalos e da trombeta, que tocou algo curto e alegre. A esses sons respondeu um assobio estridente de meninos sentados nos telhados das casas da rua que saía do mercado e terminava na praça do hipódromo, e os gritos de “Cuidado!”.
Um soldado, que estava parado sozinho no espaço liberado da praça com um estandarte na mão, agitou-o preocupado. Então o procurador, o legado da Legião, o secretário e o corpo de tropas pararam.
A ala da cavalaria, trotando cada vez mais rápido, voou pela praça para atravessá-la pela lateral, passando diante do amontoado de gente e a seguir pela travessa sob o muro de pedra, no qual se estendia uma parreira, que levava à estrada mais curta para o Gólgota.
Voando a trote, quando o comandante da ala, pequeno como um menino e escuro como um mulato — um sírio —, alcançou Pilatos, gritou algo forte e puxou a espada da bainha. O maldoso cavalo murzelo, transpirando, afastou-se bruscamente e empinou-se. Embainhando a espada, o comandante chicoteou o cavalo no pescoço, acertou o passo e trotou para a travessa, começando a galopar. Seguindo-o, os três cavaleiros lado a lado voaram numa nuvem de poeira, as pontas das lanças leves de bambu começaram a pular e eles passaram diante do procurador, parecendo ainda mais mulatos sob os turbantes brancos, com os rostos alegres e dentes brilhantes e arreganhados.
Levantando poeira até o céu, a ala irrompeu na travessa, e o último a passar a galope diante de Pilatos foi um soldado com uma trombeta nas costas que brilhava ao sol.
Protegendo o rosto da poeira com a mão e fazendo careta involuntariamente, Pilatos continuou a andar, dirigindo-se aos portões do jardim do palácio, e atrás dele caminhavam o legado, o secretário e o corpo de guardas.
Eram aproximadamente dez horas da manhã.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

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