[…]
— Prossiga!
— Não houve mais nada — disse o
prisioneiro. — Depois uns homens entraram correndo e começaram a
me amarrar e me levaram para a prisão.
O secretário, tentando não perder
uma palavra sequer, traçava as palavras no pergaminho rapidamente.
— Nunca houve, não há e não
haverá no mundo poder mais grandioso e maravilhoso para as pessoas
do que o poder do imperador Tiberius! — cresceu a voz rasgada e
doente de Pilatos.
O procurador, por algum motivo, olhava
com ódio para o secretário e para o corpo de guardas.
— E não é você, um criminoso
demente, que deve discutir sobre ele! — Então Pilatos gritou: —
Retirem o corpo de guardas da varanda! — E, voltando-se para o
secretário, acrescentou: — Deixem-me a sós com o criminoso. É um
assunto de Estado.
O corpo de guardas levantou as lanças
e, batendo ritmicamente com as cáligas no chão, saiu da varanda
para o jardim, e atrás dele saiu também o secretário.
O silêncio na varanda, durante algum
tempo, só era interrompido pela canção da água do chafariz.
Pilatos via como a água jorrava no prato sobre o tubo, deslizando
pelas bordas e caindo em filetes.
O prisioneiro falou primeiro:
— Vejo que ocorreu alguma desgraça
por causa de minha conversa com esse jovem de Kerioth. Eu, Hegemon,
tenho um pressentimento de que com ele acontecerá algum infortúnio,
e tenho muita pena.
— Eu acho — respondeu o
procurador, sorrindo de forma irônica e estranha — que existe mais
gente no mundo de quem você deveria sentir mais pena do que de Judas
de Kerioth e que deve sofrer bem mais do que Judas! Então, Marcos
Mata-ratos, um carrasco frio e convencido, as pessoas, que, como vejo
— o procurador apontou para o rosto deformado de Yeshua —,
bateram em você por causa de sua pregação, os bandidos Dismas e
Gestas, que com seus comparsas mataram quatro soldados, e,
finalmente, o sujo traidor Judas... todos eles são bons homens?
— São — respondeu o prisioneiro.
— E virá o reino da verdade?
— Virá, Hegemon — respondeu
Yeshua com firmeza.
— Ele nunca virá! — Pilatos
começou a gritar de repente, com uma voz tão terrível que Yeshua
se afastou. Havia muitos anos, no vale das Virgens, Pilatos gritara
as seguintes palavras a seus soldados: “Degolem-nos! Degolem-nos! O
grandioso Mata-ratos foi preso!” Ele aumentou ainda mais a voz
rasgada por causa das ordens, chamando de maneira que suas palavras
fossem ouvidas no jardim: — Criminoso! Criminoso! Criminoso!
Depois, diminuindo o tom de voz,
perguntou:
— Yeshua Ha-Notzri, você acredita
em deuses?
— Existe apenas um Deus —
respondeu Yeshua. — Acredito nele.
— Então reze para ele! Reze muito!
Aliás... — a voz de Pilatos falseou — isso não o ajudará. Você
não tem mulher? — Pilatos perguntou, por alguma razão, com
tristeza, sem entender o que lhe estava passando.
— Não, sou sozinho.
— Cidade odiosa... — o procurador,
por alguma razão, balbuciou de repente, encolhendo os ombros. — Se
o tivessem matado antes de seu encontro com Judas de Kerioth,
realmente, teria sido melhor.
— E você poderia me soltar, Hegemon
— pediu o prisioneiro inesperadamente, e sua voz pareceu
preocupada. — Vejo que querem me matar.
O rosto de Pilatos desfigurou-se em
uma convulsão, e ele voltou para Yeshua seus olhos irritados e
cobertos de veias vermelhas, dizendo:
— Você supõe, seu infeliz, que o
procurador romano soltará um homem que disse o que você disse? Oh,
deuses, deuses! Ou você pensa que estou pronto para ocupar o seu
lugar? Eu não partilho de seus pensamentos! E ouça: se, a partir
desse minuto, você pronunciar uma palavra sequer, se começar a
falar com alguém, tome cuidado comigo! Repito: tome cuidado!
— Hegemon...
— Calado! — gritou Pilatos e, com
um olhar desvairado, acompanhou a andorinha que sobrevoou de novo a
varanda. — Venham aqui! — gritou Pilatos.
E quando o secretário e o corpo de
tropas retornaram para seus lugares, Pilatos declarou que confirmava
a sentença de morte, pronunciada na reunião do Pequeno Sinédrio,
ao criminoso Yeshua Ha-Notzri, e o secretário anotou o que foi dito
por Pilatos.
Um minuto depois, Marcos Mata-ratos
estava diante do procurador. Pilatos ordenou-lhe que entregasse o
criminoso ao chefe do serviço secreto, transmitindo-lhe a ordem do
procurador para que Yeshua Ha-Notzri fosse separado dos outros
condenados e também que o comando do serviço secreto, sob a ameaça
de pena severa, estava proibido de conversar sobre qualquer coisa com
Yeshua ou de responder a qualquer uma de suas perguntas.
Ao sinal de Marcos, o corpo de tropas
cercou Yeshua e o levou para fora da varanda.
Depois, diante do procurador,
apresentou-se um belo rapaz de barba loura com penas de águia no
penacho do capacete, cabeças de leões douradas brilhando no peito,
chapinhas douradas no cinturão da espada, os calçados de três
solas amarrados até os joelhos e a capa púrpura jogada no ombro
esquerdo. Era o legado que comandava a Legião.
O procurador lhe perguntou onde se
encontrava a coorte de Sebastião naquele momento. O legado comunicou
que os seguidores de Sebastião mantinham o cerco à praça em frente
ao hipódromo, onde seria anunciada ao povo a sentença dos
criminosos.
Então, o procurador ordenou que o
legado separasse duas centúrias da coorte romana. Uma delas, sob o
comando de Mata-ratos, deveria fazer a guarda dos criminosos e dos
carros com os mecanismos para a execução e com os carrascos a
caminho do monte Gólgota e, ao chegar lá, cercar a área por cima.
A outra centúria deveria ser enviada imediatamente para o Gólgota e
começar a fazer o cerco no mesmo instante. Para isso, ou seja, para
a guarda do monte, o procurador pediu ao legado que enviasse um
regimento auxiliar da cavalaria — a ala síria.
Quando o legado deixou a varanda, o
procurador mandou o secretário chamar ao palácio o presidente do
Sinédrio, dois de seus membros e o chefe da guarda do templo de
Yerushalaim, acrescentando, porém, que tudo se desse de tal maneira
que, antes da reunião com todas essas pessoas, pudesse falar com o
presidente mais cedo e a sós.
A ordem do procurador foi cumprida
rápida e precisamente, e o sol, que queimava Yerushalaim com uma
severidade incomum nesses dias, ainda não conseguira se aproximar de
seu ponto mais alto quando, no terraço superior do jardim, ao lado
dos dois leões brancos de mármore que guardavam a escada,
encontravam-se o procurador e o presidente interino do Sinédrio, o
sumo sacerdote da Judeia, José Caifás.
Fazia silêncio no jardim. Mas, ao
sair da colunata para a área superior do jardim, banhada pelo sol,
com palmeiras sobre monstruosas patas de elefantes, Yerushalaim, que
o procurador tanto odiava, se descortinava diante dele, com suas
pontes suspensas, fortalezas e, principalmente, o indescritível
bloco de mármore com escamas douradas de dragão como telhado. Era o
templo de Yerushalaim, ao longe, abaixo, lá onde o muro de pedra
separava os terraços inferiores do jardim do palácio da praça da
cidade e de onde o procurador captou com o ouvido apurado resmungos
baixos, sob os quais soavam, às vezes, ora gemidos, ora gritos,
fracos e agudos.
O procurador compreendeu que uma
multidão inumerável de habitantes de Yerushalaim, preocupada com as
últimas desordens, já estava reunida na praça, e que essa multidão
aguardava impacientemente o anúncio da sentença, e vendedores de
água gritavam aflitos.
O procurador convidou o sumo sacerdote
para a varanda para se proteger do calor impiedoso, mas Caifás
desculpou-se educadamente e explicou que não poderia fazer isso na
véspera da festa. Pilatos pôs o capuz em sua cabeça um pouco calva
e começou a conversa. A conversa era em grego.
Pilatos disse que tinha examinado o
caso de Yeshua Ha-Notzri e confirmara a sentença de morte.
Assim, três bandidos estavam
condenados à pena de morte, que deveria ser executada naquele dia:
Dismas, Gestas, Bar-Raban, e, além destes, esse Yeshua Ha-Notzri. Os
dois primeiros, pela intenção de incitar o povo a se rebelar contra
César, foram presos pelo poder romano em batalha e estavam na conta
do procurador; consequentemente, não iriam falar deles. Os dois
últimos, Bar-Raban e Ha-Notzri, foram capturados pelo poder local e
julgados pelo Sinédrio. De acordo com a lei, de acordo com a
tradição, um desses dois criminosos deveria ser posto em liberdade
em homenagem à grande festa da Páscoa que se aproximava.
Então, o procurador queria saber qual
dos dois criminosos o Sinédrio pretendia soltar: Bar-Raban ou
Ha-Notzri?
Caifás inclinou a cabeça em sinal de
que para ele a questão estava clara e respondeu:
— O Sinédrio pede que soltem
Bar-Raban.
O procurador sabia muito bem que o
sumo sacerdote lhe responderia exatamente assim, mas sua tarefa era
demonstrar que tal resposta lhe causava espanto.
E foi isso que Pilatos fez com grande
habilidade. As sobrancelhas em seu rosto soberbo se suspenderam, o
procurador olhou com admiração diretamente nos olhos do sumo
sacerdote.
Reconheço que essa resposta me
surpreendeu — disse o procurador suavemente. — Temo se não há
algum mal-entendido.
Pilatos explicou-se. O poder romano
não respeitava em nada os direitos do poder espiritual local, e o
sumo sacerdote sabia muito bem disso. No entanto, nesse caso havia um
erro evidente. E o poder romano, é claro, estava interessado na
correção desse erro.
De fato, os crimes de Bar-Raban e
Ha-Notzri eram de gravidade incomparável. Se o segundo era
evidentemente um doente mental, acusado de pronunciar discursos
absurdos que intimidavam o povo de Yerushalaim e de algumas outras
localidades, o primeiro tinha mais agravantes. Além de realizar
incitações diretas a rebeliões, também matou um soldado durante
as tentativas de capturá-lo. Bar-Raban era incomparavelmente mais
perigoso do que Ha-Notzri.
Pelo exposto, o procurador pedia ao
sumo sacerdote que revisse a decisão e pusesse em liberdade o menos
nocivo dos dois condenados, ou seja, sem dúvida, Ha-Notzri.
Então?...
Caifás disse com voz baixa, mas
firme, que o Sinédrio analisara atentamente o processo e que
comunicava, pela segunda vez, que estava disposto a libertar
Bar-Raban.
— Como? Mesmo depois da minha
intercessão? Intercessão daquele que representa o poder romano?
Repita pela terceira vez, sacerdote.
— Pela terceira vez comunico que
libertaremos Bar-Raban — disse Caifás baixinho.
Tudo estava terminado e não havia
mais sobre o que falar. Ha-Notzri partia para sempre, e as dores
terríveis e malditas do procurador ninguém mais curaria; não há
remédio para elas além da morte. Mas não foi esse pensamento que
impressionou Pilatos. Toda aquela mesma tristeza incompreensível,
que sentira na varanda, tomava conta de todo o seu ser.
Imediatamente, esforçou-se para explicá-la, e a explicação era
estranha: parecia-lhe vagamente que não terminara sua conversa com o
condenado, ou, quem sabe, que não ouvira bem alguma coisa.
Pilatos afastou esse pensamento, que
se foi tão rapidamente quanto veio. O pensamento voou, mas a
tristeza permaneceu inexplicável, pois não podia ser explicada por
outro breve pensamento que brilhou feito um raio e logo se apagou:
“Imortalidade... chegou a imortalidade...” A imortalidade de quem
chegou? Isso o procurador não entendeu, mas o pensamento sobre essa
imortalidade enigmática o fez gelar sob o sol quente.
— Tudo bem — disse Pilatos. —
Que assim seja.
Aqui ele olhou ao redor e lançou seu
olhar para o mundo que lhe era visível e admirou-se com a mudança
ocorrida. O arbusto inclinado sob o peso das rosas sumiu, sumiram os
ciprestes, que orlavam o terraço superior, também a árvore de
romãs, assim como a estátua branca no verde, e o próprio verde. No
lugar disso tudo, flutuava uma massa púrpura e nela balançavam
algas que se moviam para algum lugar, e junto com tudo isso se movia
o próprio Pilatos. Agora era o mais terrível ódio que o levava,
sufocando-o e queimando-o — o ódio da impotência.
— Sufocado — disse Pilatos. —
Sinto-me sufocado!
Com a mão úmida e fria, ele arrancou
a fivela da gola da capa e a deixou cair na areia.
— Hoje está abafado, está caindo
uma tempestade em algum lugar — exclamou Caifás sem tirar os olhos
do rosto avermelhado do procurador e, prevendo todos os sofrimentos
que ainda teria de enfrentar, pensou. “Oh, Nissan está sendo um
mês terrível esse ano!”
— Não — disse Pilatos —, não é
o tempo abafado, é a sua presença, Caifás, que me deixa sufocado.
— Apertando os olhos, Pilatos sorriu e acrescentou: — Cuide-se,
sumo sacerdote.
Os olhos escuros do sacerdote
brilharam e ele expressou admiração em seu rosto, não menos
habilmente que o procurador fizera antes.
— O que estou ouvindo, procurador? —
respondeu Caifás, tranquilo e soberano. — Você está me ameaçando
após a sentença pronunciada e confirmada por você mesmo? Seria
possível? Estamos acostumados com o procurador romano que escolhe
palavras antes de dizer alguma coisa. Será que ninguém está nos
ouvindo, Hegemon?
Pilatos lançou um olhar mortífero
para o sumo sacerdote e, arreganhando os dentes, mostrou um sorriso.
— O que é isso, sumo sacerdote!
Quem poderia nos ouvir agora? Será que pareço o jovem vadio e
vidente que será executado hoje? Por acaso sou um menino, Caifás?
Sei o que digo e onde digo. O jardim está cercado, o palácio está
cercado de tal forma que nem um rato passará por uma fresta! Não só
rato, não passará nem mesmo aquele, como é mesmo... da cidade de
Kerioth. A propósito, você o conhece, sumo sacerdote? É... se um
desses entrasse aqui sentiria amarga pena de si mesmo, nisso, claro,
você acredita em mim, não é mesmo? Então, saiba que a partir de
hoje você não terá mais sossego! Nem você, nem seu povo. —
Pilatos apontou para o horizonte, à direita, onde no alto o templo
ardia em chamas. — Sou eu, Pôncio Pilatos, o cavaleiro da Lança
Dourada, que estou lhe dizendo isso!
— Sei, sei! — sem medo, respondeu
Caifás, de barba preta, e seus olhos brilharam. Ele elevou o braço
para o céu e prosseguiu: — O povo judeu sabe que você o odeia com
um ódio severo e que vai lhe causar muitos sofrimentos, mas não
conseguirá destruí-lo! Deus o protegerá! Ele nos ouvirá, o César
todo-poderoso nos ouvirá e nos protegerá de Pilatos, o gênio do
mal!
— Oh, não! — exclamou Pilatos, e
a cada palavra se sentia mais e mais leve: não precisava mais
disfarçar, nem escolher palavras. — Você reclamou muito de mim a
César e agora chegou a minha hora, Caifás! Uma notícia minha
partirá, não para o chefe da Antióquia, nem para Roma, mas
diretamente para Capri, ao imperador, a notícia de como vocês
deixam escapar da morte os notórios rebeldes de Yerushalaim. E não
será da água do lago de Salomão, como era o meu desejo pensando em
vocês, que eu darei de beber a Yerushalaim! Não, não será com
água, lembre-se, como, por causa de vocês, tive de tirar os escudos
com as insígnias do imperador das paredes, tive de mover o Exército
e vir em pessoa para ver o que estava acontecendo! Lembre-se de
minhas palavras: o que verá aqui, sumo sacerdote, não será apenas
uma coorte em Yerushalaim, não! Chegará aos muros da cidade toda a
Legião Fulminata, a cavalaria arábica se aproximará e então você
ouvirá o choro amargo e as lamentações! E então se lembrará do
Bar-Raban que salvou e lamentará ter mandado para a morte um
filósofo com sua pregação pacífica!
O rosto do sumo sacerdote cobriu-se de
manchas, os olhos ardiam. Como o procurador, ele sorriu por entre os
dentes e respondeu:
— Será que você mesmo, procurador,
acredita nisso que está dizendo? Não, não acredita! Não foi paz,
não foi paz que o sedutor do povo nos trouxe para Yerushalaim, e
você, cavaleiro, entende isso muito bem. Você queria libertá-lo
para que perturbasse o povo, para que achincalhasse a fé e levasse o
povo contra as espadas romanas! Porém eu, sumo sacerdote judeu,
enquanto estiver vivo, não deixarei que achincalhem a fé e
protegerei o povo! Está ouvindo, Pilatos? — Nesse instante, Caifás
suspendeu o braço ameaçadoramente: — Ouça, procurador!
Caifás calou-se, e o procurador ouviu
novamente como o barulho, parecido com o do mar, aproximava-se dos
muros do jardim de Herodes, o Grande. O barulho subia de baixo dos
pés até o rosto do procurador. Pelas costas, lá atrás das alas do
palácio, ouviam-se toques de alerta das trombetas, o estalido pesado
de centenas de pés, o tinido metálico — então o procurador
compreendeu que a infantaria romana já estava saindo, conforme sua
ordem, e dirigindo-se para a terrível parada pre-mortem dos rebeldes
e bandidos.
— Está ouvindo, procurador? —
repetiu baixinho o sacerdote. — Será que vai me dizer que tudo
isso — nesse momento, o sacerdote elevou os dois braços, e o capuz
escuro escorregou de sua cabeça — foi provocado pelo pobre bandido
Bar-Raban?
O procurador enxugou a testa molhada e
fria com as costas da mão, olhou para o chão e depois apertou os
olhos para o céu e viu a bola incandescente quase sobre sua cabeça.
A sombra de Caifás havia encolhido totalmente perto do rabo do leão
e o procurador disse baixinho e indiferente:
— É quase meio-dia. Ficamos
entretidos com a conversa e, no entanto, é preciso prosseguir.
Com expressões sofisticadas, o
procurador desculpou-se diante do sacerdote, pediu que sentasse em um
banco à sombra de uma magnólia e que aguardasse enquanto ele
chamava as outras pessoas, necessárias para a última e breve
reunião, e dava ainda uma ordem, relacionada à execução.
Caifás agradeceu educadamente, pôs a
mão no peito e permaneceu no jardim, enquanto Pilatos voltou para a
varanda. Lá mandou o secretário, que o esperava, chamar para o
jardim o legado da Legião, o tribuno da coorte e, também, dois
membros do Sinédrio e o chefe da guarda do templo, que aguardavam o
chamado no coreto redondo com chafariz no terraço inferior. Pilatos
acrescentou que logo sairia para o jardim, mas se retirou para dentro
do palácio.
Enquanto o secretário reunia o
conselho, o procurador, dentro do quarto protegido do sol pelas
cortinas, encontrava-se com um homem que tinha o rosto coberto pela
metade com o capuz, embora dentro do quarto os raios de sol não
pudessem incomodá-lo. O encontro foi extremamente breve. O
procurador disse baixinho ao homem algumas palavras, após as quais
este se retirou e Pilatos dirigiu-se, através da colunata, para o
jardim.
Lá, na presença de todos que queria
ver, o procurador confirmou solene e secamente que ele aprovava a
sentença de morte de Yeshua Ha-Notzri e que, oficialmente, havia
tomado conhecimento pelos membros do Sinédrio sobre qual dos
prisioneiros deveria ficar vivo. Ao receber a resposta de que era
Bar-Raban, o procurador disse:
— Muito bem. — Mandou o secretário
anotar isso no protocolo no mesmo instante, apertou na mão a fivela
encontrada na areia pelo secretário e disse solenemente: — Está
na hora!
Nesse instante, todos os presentes
puseram-se em movimento, desceram pela larga escada de mármore entre
os muros de rosas que exalavam um aroma nauseabundo, descendo mais e
mais até o muro do palácio, até os portões que levavam à grande
praça, pavimentada com pedras, no fim da qual se avistavam as
colunas e estátuas da liça de Yerushalaim.
Assim que o grupo saiu do jardim para
a praça e subiu no amplo palanque de pedra que ali reinava, Pilatos,
olhando através das pálpebras semicerradas, tomou ciência da
situação. O espaço pelo qual havia passado, ou seja, o espaço
entre o muro do palácio até o palanque, estava vazio, porém, à
sua frente, Pilatos já não via a praça — a multidão a tomara. A
multidão também teria tomado o próprio palanque e aquele espaço
aberto, se não fosse retida pelas fileiras triplas dos soldados de
Sebastião, à esquerda de Pilatos, e pelos soldados da coorte
auxiliar da Itureia, à sua direita.
Então, Pilatos subiu ao palanque,
apertando mecanicamente no punho a dispensável fivela e franzindo os
olhos. Não era por causa do sol que o procurador estava franzindo os
olhos, não! Por algum motivo, ele não queria ver o grupo de
condenados que, como sabia perfeitamente, subiria atrás dele no
palanque.
Assim que o manto branco com
aplicações púrpuras surgiu no alto do penhasco de pedra sobre a
beirada do mar humano, uma onda sonora bateu nos ouvidos do invisível
Pilatos: “Aaahh...” Ela começou baixinho, nasceu ao longe, perto
do hipódromo, depois se tornou retumbante e, sustentando-se por
alguns segundos, começou a diminuir. “Eles me viram”, pensou o
procurador. A onda não chegou ao ponto mais baixo e,
inesperadamente, começou a crescer novamente, oscilando, aumentou
ainda mais alto do que a primeira. E, na segunda onda, como fervilha
a espuma numa vala marítima, ferveu um assobio e diversos gemidos
femininos isolados foram ouvidos através das trovoadas. “Eles
subiram ao palanque...”, pensou Pilatos, “e os gemidos são de
algumas mulheres pisoteadas quando a multidão avançou”.
Ele aguardou um tempo, sabendo que
nenhuma força jamais faria a multidão se calar, enquanto ela não
extravasasse tudo aquilo que havia acumulado dentro dela e que não
se calaria sozinha.
E, quando esse momento chegou, o
procurador estendeu o braço direito para o alto e o último ruído
soprou da multidão.
Então, Pilatos encheu o peito o
quanto pôde de ar quente e gritou, e sua voz rouca soou sobre
milhares de cabeças:
— Em nome do imperador César!
Nesse instante, um grito metálico e
entrecortado bateu algumas vezes em seus ouvidos — nas coortes,
erguendo as lanças e os estandartes para o alto, os soldados deram
um terrível grito:
— Viva César!
Pilatos levantou a cabeça e a expôs
diretamente ao sol. Sob as pálpebras explodiu um fogo verde, dele
seu cérebro ardeu e, sob a multidão, voaram as palavras roucas em
aramaico:
— Quatro criminosos, presos em
Yerushalaim por assassinato, incitação à rebelião e desrespeito
às leis e à fé, foram sentenciados à vergonhosa execução, ao
enforcamento em postes! E essa execução será no monte Gólgota! Os
nomes dos criminosos são: Dismas, Gestas, Bar-Raban e Ha-Notzri.
Ei-los diante de vocês!
Pilatos apontou com a mão direita sem
ver nenhum dos criminosos, mas sabia que estavam lá, no lugar onde
deveriam estar.
A multidão respondeu com um longo
rumor de admiração ou alívio. Depois que ela cessou, Pilatos
prosseguiu:
— Porém, serão executados somente
três deles, pois, de acordo com a lei e a tradição, em homenagem à
festa da Páscoa, a um dos condenados, escolhido pelo Pequeno
Sinédrio e com a aprovação do poder romano, o benevolente César
imperador devolve a vida miserável!
Pilatos gritava as palavras e, ao
mesmo tempo, ouvia como o rumor era substituído por grande silêncio.
Agora, não se ouvia uma respiração sequer, nenhum barulho chegava
a seus ouvidos e houve um instante em que pareceu que tudo ao seu
redor havia sumido. A cidade odiada por ele tinha morrido e somente
ele estava lá, queimado pelos raios verticais, com o rosto voltado
diretamente para o céu. Pilatos ainda manteve o silêncio e depois
começou a gritar:
— O nome daquele que agora será
libertado na presença de vocês...
Ele fez mais uma pausa, segurando o
nome, conferindo se havia dito tudo, pois sabia que a cidade morta
iria ressuscitar depois de anunciado o nome do felizardo e que mais
nenhuma palavra seria ouvida.
“Pronto?”, sem pronunciar um som
sequer, Pilatos cochichou para si mesmo. — Pronto. O nome!
E, esticando a letra “r” sobre a
cidade calada, ele gritou:
— Bar-Raban!
Nesse instante, pareceu-lhe que o sol,
tilintando, explodira sobre ele e encharcara seus ouvidos com fogo.
Nesse fogo esbravejavam berros, gritos, gemidos, gargalhadas e
assobios.
Pilatos virou-se e caminhou para trás
pelo palanque até os degraus, sem olhar para nada, além dos sabres
coloridos sob seus pés para não tropeçar. Ele sabia que agora, ao
virar as costas, eram atiradas ao palanque, feito granizo, moedas de
bronze e tâmaras; que, na multidão rumorosa, as pessoas, pisoteando
umas às outras, subiam nos ombros para ver o milagre com seus
próprios olhos: como uma pessoa que já estava nas mãos da morte
escapara dessas mãos! Como os legionários lhe retiravam as cordas,
causando-lhe involuntariamente uma dor ardente nas mãos torcidas
durante os interrogatórios, como ele, fazendo careta e suspirando,
ainda sorria com um sorriso insensato e louco.
Ele sabia que, nesse momento, o corpo
de tropas estava levando para os degraus laterais os três com as
mãos amarradas, para levá-los até a estrada para o ocidente, para
fora da cidade, até o monte Gólgota. Somente quando se viu atrás
do palanque, no fundo, Pilatos abriu os olhos, sabendo que agora
estava seguro, não podia mais ver os condenados.
Ao gemido da multidão, que começava
a se acalmar, misturavam-se, e eram perceptíveis, os estridentes
gritos dos arautos que repetiam o que o procurador gritara do
palanque, uns em aramaico, outros em grego. Além disso, aos seus
ouvidos, voou o som que se aproximava, fragmentado e matraqueado, do
tropel dos cavalos e da trombeta, que tocou algo curto e alegre. A
esses sons respondeu um assobio estridente de meninos sentados nos
telhados das casas da rua que saía do mercado e terminava na praça
do hipódromo, e os gritos de “Cuidado!”.
Um soldado, que estava parado sozinho
no espaço liberado da praça com um estandarte na mão, agitou-o
preocupado. Então o procurador, o legado da Legião, o secretário e
o corpo de tropas pararam.
A ala da cavalaria, trotando cada vez
mais rápido, voou pela praça para atravessá-la pela lateral,
passando diante do amontoado de gente e a seguir pela travessa sob o
muro de pedra, no qual se estendia uma parreira, que levava à
estrada mais curta para o Gólgota.
Voando a trote, quando o comandante da
ala, pequeno como um menino e escuro como um mulato — um sírio —,
alcançou Pilatos, gritou algo forte e puxou a espada da bainha. O
maldoso cavalo murzelo, transpirando, afastou-se bruscamente e
empinou-se. Embainhando a espada, o comandante chicoteou o cavalo no
pescoço, acertou o passo e trotou para a travessa, começando a
galopar. Seguindo-o, os três cavaleiros lado a lado voaram numa
nuvem de poeira, as pontas das lanças leves de bambu começaram a
pular e eles passaram diante do procurador, parecendo ainda mais
mulatos sob os turbantes brancos, com os rostos alegres e dentes
brilhantes e arreganhados.
Levantando poeira até o céu, a ala
irrompeu na travessa, e o último a passar a galope diante de Pilatos
foi um soldado com uma trombeta nas costas que brilhava ao sol.
Protegendo o rosto da poeira com a mão
e fazendo careta involuntariamente, Pilatos continuou a andar,
dirigindo-se aos portões do jardim do palácio, e atrás dele
caminhavam o legado, o secretário e o corpo de guardas.
Eram aproximadamente dez horas da
manhã.
Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

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