sábado, 7 de março de 2026

O guardador de águas – IX

Bernardo escreve escorreito, com as unhas, na água,
O Dialeto-Rã.*
Nele o chão exubera.
O Dialeto-Rã exara lanhos.
Bernardo conversa em rã como quem conversa em
Aramaico.
Pelos insetos que usa ele sabe o nome das chuvas.
Bernardo montou no quintal Oficina de Transfazer
Natureza.
(Objetos fabricados na Oficina, por exemplo:
Duas aranhas com olho de estame
Um beija-flor de rodas vermelhas
Um imitador de auroras — usado pelos tordos.
Três peneiras para desenvolver moscas
E uma flauta para solos de garça.)
Bernardo é inclinado a quelônio.
A córnea azul de uma gota de orvalho o embevece.

*Falado por pessoas de águas, remanescentes do Mar de Xaraiés, o Dialeto-Rã, na sua escrita, se assemelha ao Aramaico — idioma falado pelos povos que antigamente habitavam a região pantanosa entre o Tigre e o Eufrates. Sabe-se que o Aramaico e o Dialeto-Rã são línguas escorregadias e carregadas de consoantes líquidas. É a razão desta nota.

Manoel de Barros, em O guardador de águas

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