Bernardo escreve escorreito, com as
unhas, na água,
O Dialeto-Rã.*
Nele o chão exubera.
O Dialeto-Rã exara lanhos.
Bernardo conversa em rã como quem
conversa em
Aramaico.
Pelos insetos que usa ele sabe o nome
das chuvas.
Bernardo montou no quintal Oficina de
Transfazer
Natureza.
(Objetos fabricados na Oficina, por
exemplo:
Duas aranhas com olho de estame
Um beija-flor de rodas vermelhas
Um imitador de auroras — usado pelos
tordos.
Três peneiras para desenvolver moscas
E uma flauta para solos de garça.)
Bernardo é inclinado a quelônio.
A córnea azul de uma gota de orvalho
o embevece.
*Falado por pessoas de águas,
remanescentes do Mar de Xaraiés, o Dialeto-Rã, na sua escrita, se
assemelha ao Aramaico — idioma falado pelos povos que antigamente
habitavam a região pantanosa entre o Tigre e o Eufrates. Sabe-se que
o Aramaico e o Dialeto-Rã são línguas escorregadias e carregadas
de consoantes líquidas. É a razão desta nota.
Manoel de Barros, em O guardador de águas
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