82.
Não sei que vaga carícia, tanto mais
branda quanto não é carícia, a brisa incerta da tarde me traz à
cara e à compreensão. Sei só que o tédio que sofro se me ajusta
melhor, um momento, como uma veste que deixe de roçar numa chaga.
Pobre da sensibilidade que depende de
um pequeno movimento do ar para o conseguimento, ainda que episódico,
da sua tranquilidade! Mas assim é toda sensibilidade humana, nem
creio que pese mais na balança dos seres o dinheiro subitamente
ganho, ou o sorriso subitamente recebido, que são para outros o que
para mim foi, neste momento, a passagem breve de uma brisa sem
continuação.
Posso pensar em dormir. Posso sonhar
de sonhar. Vejo mais claro a objetividade de tudo. Uso com mais
conforto o sentimento externo da vida. E tudo isto, efetivamente,
porque, ao chegar quase à esquina, um virar no ar da brisa me alegra
a superfície da pele.
Tudo quanto amamos ou perdemos —
coisas, seres, significações – nos roça a pele e assim nos chega
à alma, e o episódio não é, em Deus, mais que a brisa que me não
trouxe nada salvo o alívio suposto, o momento propício e o poder
perder tudo esplendidamente.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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