63.
Toda a vida da alma humana é um
movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco da consciência,
nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Nos
melhores de nós vive a vaidade de qualquer coisa, e há um erro cujo
ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no intervalo
de um espetáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que
talvez não seja senão cenário. Todo o mundo é confuso, como vozes
na noite.
Estas páginas, em que registo com uma
clareza que dura para elas, agora mesmo as reli e me interrogo. Que é
isto, e para que é isto? Quem sou quando sinto? Que coisa morro
quando sou?
Como alguém que, de muito alto, tente
distinguir as vidas do vale, eu assim mesmo me contemplo de um cimo,
e sou, com tudo, uma paisagem indistinta e confusa.
É nestas horas de um abismo na alma
que o mais pequeno pormenor me oprime como uma carta de adeus.
Sinto-me constantemente numa véspera de despertar, sofro-me o
invólucro de mim mesmo, num abafamento de conclusões. De bom grado
gritaria se a minha voz chegasse a qualquer parte. Mas há um grande
sono comigo, e desloca-se de umas sensações para outras como uma
sucessão de nuvens, das que deixam de diversas cores de sol e verde
a relva meio ensombrada dos campos prolongados.
Sou como alguém que procura ao acaso,
não sabendo onde foi oculto o objeto que lhe não disseram o que é.
Jogamos às escondidas com ninguém.
Há, algures, um subterfúgio
transcendente, uma divindade fluida e só ouvida.
Releio, sim, estas páginas que
representam horas pobres, pequenos sossegos ou ilusões, grandes
esperanças desviadas para a paisagem, mágoas como quartos onde se
não entra, certas vozes, um grande cansaço, o evangelho por
escrever.
Cada um tem a sua vaidade, e a vaidade
de cada um é o seu esquecimento de que há outros com alma igual. A
minha vaidade são algumas páginas, uns trechos, certas dúvidas...
Releio? Menti! Não ouso reler. Não
posso reler. De que me serve reler? O que está ali é outro. Já não
compreendo nada...
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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