terça-feira, 21 de outubro de 2025

Benfeitor

Quando se ofender com a conduta despudorada de qualquer homem, indague-se: “É possível este homem não existir no mundo?” Não. Então não exija o impossível! Por necessidade, homens impudentes devem existir, e esse é um deles.
Mantenha isso em mente quando se deparar com um trapaceiro, com um desleal e com qualquer homem incorreto. Em vista disso, ao mesmo tempo que se relembrará da impossibilidade da inexistência de tal homem, você se tornará mais gentil com cada um deles.
Ao longo de cada uma dessas ocasiões, é útil também relembrar qual virtude a natureza atribuiu ao homem para combater cada ato ilícito. Contra a estupidez, foi atribuída a brandura. Contra outros vícios, outros antídotos.
É sempre possível retificar o homem desviado — desvia-se quem perde de vista o caminho reto.
Ademais, onde você foi ferido? Descobrirá que nenhum daqueles com quem se irritou fez algo que pudesse danificá-lo. O que é mau e danoso fundamenta-se apenas na sua mente.
O que há de nocivo ou extraordinário nas ações não instruídas realizadas por um homem sem instrução? Antes de culpá-lo, talvez você devesse se culpar por não ter antecipado tais erros de tal homem. Sua razão providenciou meios para antecipar a possibilidade de um homem errado cometer erros, porém você se esqueceu disso e acabou surpreso.
Sobretudo, quando acusar um homem de infidelidade ou ingratidão, volte-se para você próprio, pois a culpa é sua. Você confiou na promessa de um homem com tal disposição. Além disso, ao ser bondoso, não o foi de forma absoluta e não aceitou como recompensa a sua própria ação. O que mais quer quando serve um homem? Você não se contenta com uma ação consoante a sua natureza e, ainda por cima, procura ser pago por servir? Ora, o olho não exige recompensa por enxergar e nem o pé por andar! Os olhos e os pés foram formados para um propósito intrínseco e, quando se empregam de acordo com suas respectivas constituições, obtêm o que é próprio deles. Da mesma maneira, o homem foi concebido pela natureza para ser benfeitor. Quando pratica o bem e converge para o interesse comum, o homem age conforme sua constituição e obtém o que é próprio dele.

Marco Aurélio, em Meditações

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