Quando se ofender com a conduta
despudorada de qualquer homem, indague-se: “É possível este homem
não existir no mundo?” Não. Então não exija o impossível! Por
necessidade, homens impudentes devem existir, e esse é um deles.
Mantenha isso em mente quando se
deparar com um trapaceiro, com um desleal e com qualquer homem
incorreto. Em vista disso, ao mesmo tempo que se relembrará da
impossibilidade da inexistência de tal homem, você se tornará mais
gentil com cada um deles.
Ao longo de cada uma dessas ocasiões,
é útil também relembrar qual virtude a natureza atribuiu ao homem
para combater cada ato ilícito. Contra a estupidez, foi atribuída a
brandura. Contra outros vícios, outros antídotos.
É sempre possível retificar o homem
desviado — desvia-se quem perde de vista o caminho reto.
Ademais, onde você foi ferido?
Descobrirá que nenhum daqueles com quem se irritou fez algo que
pudesse danificá-lo. O que é mau e danoso fundamenta-se apenas na
sua mente.
O que há de nocivo ou extraordinário
nas ações não instruídas realizadas por um homem sem instrução?
Antes de culpá-lo, talvez você devesse se culpar por não ter
antecipado tais erros de tal homem. Sua razão providenciou meios
para antecipar a possibilidade de um homem errado cometer erros,
porém você se esqueceu disso e acabou surpreso.
Sobretudo, quando acusar um homem de
infidelidade ou ingratidão, volte-se para você próprio, pois a
culpa é sua. Você confiou na promessa de um homem com tal
disposição. Além disso, ao ser bondoso, não o foi de forma
absoluta e não aceitou como recompensa a sua própria ação. O que
mais quer quando serve um homem? Você não se contenta com uma ação
consoante a sua natureza e, ainda por cima, procura ser pago por
servir? Ora, o olho não exige recompensa por enxergar e nem o pé
por andar! Os olhos e os pés foram formados para um propósito
intrínseco e, quando se empregam de acordo com suas respectivas
constituições, obtêm o que é próprio deles. Da mesma maneira, o
homem foi concebido pela natureza para ser benfeitor. Quando pratica
o bem e converge para o interesse comum, o homem age conforme sua
constituição e obtém o que é próprio dele.
Marco Aurélio, em Meditações
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