[…]
Dele de perto não saí, a atenção e
ordem ele recomendava. O cano de meu rifle era tutor dele? Antes de
minha hora, no que ele mandasse opor e falasse eu não podia basear
dúvidas. Mas, desde vez, aquilo a vir gastava as minhas forças. Ali
― sem a vontade, mas por mais do que todos saber ― eu estava
sendo o segundo. Andando que Zé Bebelo falecesse ou trastejasse, eu
tinha de tomar assumida a chefia, e mandar e comandar? Outro fosse ―
eu não; Jesus e guia! E baixo, os homens não iam me obedecer; nem
de me entender eles não eram capazes. Capaz de me entender e de me
obedecer, nos casos, só mesmo Zé Bebelo. A jus ― pensei ― Zé
Bebelo, somente, era que podia ser o meu segundo. Estúrdio, isso,
nem eu não sabendo bem por quê, mas era preciso. Era; eu o motivo
não sabendo. Se fiz de saber, foi pior. O que é que uma pessoa é,
assim por detrás dos buracos dos ouvidos e dos olhos? Mas as pernas
não estavam. Ah, fiquei de angústias. O medo resiste por si, em
muitas formas. Só o que restava para mim, para me espiritar ― era
eu ser tudo o que fosse para eu ser, no tempo daquelas horas. Minha
mão, meu rifle. As coisas que eu tinha de ensinar à minha
inteligência.
Agora, o que era que se esperava? Só
Zé Bebelo decerto podia responder, mas ele não dava senha de
mudança. Onde o normal. Aí já se via o dia quase em fim, com as
cores do sol. Voavam uns guaxes. Dos soldados e dos judas, quase que
não se ouvia empipóco de arma, só os tiros salteados, a cá e lá,
como se escasso quisessem briga. A gente sobrossosa, nesse ensino de
onça, traiçoeiros todos. Astúcias que manobrando em esconso deviam
de estar, para trás e para os lados, pelo jeito melhor de pegarem o
encoberto dos lugares, querendo enrolar os outros, para o remate de
dar bote. ― Soldado pede é cautela, e o dobro-soldo... ― acho
que um disse. Aquela era a ocasião mais arriscada. Ao que jagunço é
isto ― o senhor ponha letreiro. Ao encosto no rifle e apreparo nas
patronas ― isso era o que bastava. Nenhum dos companheiros estava
desinquieto, nem ralava apreensão. Nenhum conversava precisando de
saber a maneira de se escapulir vivos dali, da Fazenda dosTucanos.
Com a chegada da soldadesca, o que parecia moagem era para eles era
festa. Assim uns gritaram feito araras machas. Gente! Feito meninos.
Disso eu fiz um pensamento: que eu era muito diverso deles todos, que
sim.
Então, eu não era jagunço completo,
estava ali no meio executando um erro. Tudo receei. Eles não
pensavam. Zé Bebelo, esse raciocinava o tempo inteiro, mas na regra
do prático. E eu? Vi a morte com muitas caras. Sozinho estive ― o
senhor saiba. Mas, nisso, conforme o acontecido exato, uma coisa
muito inesperada se deu. Da banda do mato, de repente, por cima das
môitas de lobolobo, alguém levantou um pano branco, na ponta de uma
vara.
A gente não tinha licença de abrir
fogo no alvo daquele trapo. Apraz que a gente ia consentir em negócio
com os judas? Aqueles, para mim, guardavam a definitiva marca, e só
o que podiam trazer era a maldição. Mas Zé Bebelo, maneiro em
presteza, já tinha amarrado um grande lenço branco na ponta de um
rifle, e mandou que o Mão-de-Lixa aquilo erguesse e sacudisse no ar.
― A regra que é regra! ― Zé Bebelo disse ― A solenidade de
embaixador sempre se tem de consentir; até para herege, até para
bugre... Aprovavam, os outros, deram razão. Achei que estavam com a
vontade de saber que notícias eram, o que vir vinha. Com o que mais
admirei! a mensagem daqueles panos brancos, de lá e de cá, durou um
certo tempo. Como tudo nesta vida carece de direito se acertar.
Depois, um sujeito apareceu, do capim,
e veio, devia de ter passado por um rombo feito na cerca. A certa
distância estava, no eirado, e um dos nossos disse, reconhecendo! ―
Ah, é o Rodrigues Peludo, homem devoto do Ricardão... Que era, que
era ― os outros companheiros concordaram. Atrás desse, meio
engatinhando também, surgiu mais um! ― E o Lacrau! E o Rodrigues
Peludo virava para trás, falava qualquer coisa, parecia que estava
mandando o Lacrau ir s embora. Mas o Lacrau teimava, seguia
acompanhando o outro. ― Xente, dond é que está se comparecendo
esse Lacrau? Faz tempo que não se tinha ciência nenhuma dele... O
qual era dos Gerais do Bolór, terra jequitinhonha, e homem de certa
valia. Caboclo claro. E que, ele sendo réu, tinha esfaqueado na sala
de júri um promotor, em outroras. De ver os dois, perto, assim
pessoas, escada acima, e presentes em pé, diante da gente, nas
decididas condições, achei muita esquisitice. Rodrigues Peludo
levantou os olhos, feito se a gente estivesse no céu, e saudou
normal. Daí disse:
― Seó Chefe...
― Homem, te vira de costa! ― Zé
Bebelo regrou.
No assim simples eles obedeceram,
tanto um, tanto o outro. Mas estavam muito armados. Momentos que
foram, eu louvei a coragem calma daqueles dois, que de qualquer longe
recanto um soldado talvez estivesse em poder de derrubar por
belprazer. Porque os soldados não pertenciam nessa cerimónia.
Afiguro o que pensei.
E Zé Bebelo perguntou, impondo ordem
de resposta:
que mandatela eles traziam? Do lado
meu, o Diodólfo chiava boca num dente, conforme sestro dele, e o
José Gervásio sussurrou: ― Tramóia... Mas Zé Bebelo regia tudo,
mão em revólver. Um homem falar seu recado, de costas, no meio dos
contrários, na boca de tantas armas ― o senhor já presenciou
essas circunstâncias? Assim o Rodrigues Peludo deu conta, sem rasgo
de tremor na voz:
― Com sua licença dada, e nos usos,
estou trazendo estas palavras, Seó Chefe, que para repetir ao senhor
fui mandado: ― Que, em vistas desses soldados, e do mais, que é
contra todos, se não era mais aproveitável, para uma parte e outra,
de se fazer trato de paz, por uns tempos... E por essa oferta é que
venho, por ordens. Que ― se serve, ou valor tem, o dito ―
pergunta faço; e se o senhor há de estar ou não de acordo, me
dando a resposta que queira dar, para eu levar para os meus chefes...
― Que chefes? ― Zé Bebelo
indagou, sem tom de nenhuma malícia.
Rodrigues Peludo demorou um ponto,
fazendo menção de virar o rosto, mas o que deixou em tempo de
fazer. E contestou!
― Nhô Ricardão. E seô
Hermógenes...
― E eles então estão querendo paz?
― Estão propondo um acordo
correto...
Em boa distância, do mato do grotal,
estralejou um tiro, que era de fuzil. E uns outros, muito estampidos.
O que aquilo me constou era que era falta de respeito. Tiros que não
beiravam por aqui. Mas, mesmo assim, Zé Bebelo disse!
― Homem, vocês podem abaixar o
corpo.
Rodrigues Peludo, sempre de costas, se
agachou, depositou o rifle no chão; o Lacrau meio ajoelhado ficou.
Agora eles estavam entre trincheiras.
Agora a roda nossa, ajuntados os
muitos companheiros brabos, com a bafagem da boa cachaça! o Marruaz
que representou a dedo o sino-salomão no peito, no rumo do coração;
o Preto Mangaba, que, mudando de estar, esbarrou em mim ― do que me
lembro e sei, porque doeu em meu braço; e Diodôlfo cuspiu forte ―
soluçou dos estômagos. E o Fafafa, repontante! ― Em paz, quem é
que devolve vida em nossos cavalos?! Aí o Moçambicão, atrás de
mim, me ressoprou, como um boi reconhecendo minhas costas. Mas minha
mão, por si, pegou a mão de Diadorim, eu nem virei a cara, aquela
mão é que merecia todo entendimento. Mão assim apartada de tudo,
nela um suave de ser era que me pertencia, um calor, a coisa macia
somente. São as palavras? Mas aí espiei para Diadorim, e ele
despertou do que tinha se esquecido, deixado, de sua mão, que ele
retirou da minha outra vez, quase num repelão de repugno. E ele
estava sombrio, os olhos riscados, sombrio em sarro de velhas raivas,
descabelado de vento. Demediu minha ideia: o ódio ― é a gente se
lembrar do que não deve-de; amor é a gente querendo achar o que é
da gente. ― O palavreado, destes! ― Diadorim chiou, por detrás
dos dentes. Diadorim queria sangues fora de veias. E eu não
concordava com nenhuma tristeza. Só remontei um pasmo e um consolo
expedito; porque a guerra era o constante mexer do sertão, e como
com o vento da seca é que as árvores se entortam mais. Mas, pensar
na pessoa que se ama, é como querer ficar à beira d água,
esperando que o riacho, alguma hora, pousoso esbarre de correr. E
Alaripe buliu no bissaco, estava recheando de novo as suas
cartucheiras. Mas isto tudo, que conto ao senhor, se compartiu de
caber em pouquinhos minutos instantes. E do modo de um prosseguir sem
partes. Porque Zé Bebelo, as mãos na cinta, se encurtava frio em
siso, feito uma a cobra. O que disse, o quanto:
― Homem, e o que mais?
― Era tudo o que eu já falei,
Chefe, seó. Ao que peço vossa resposta, para conduzir. E em caso de
algum acordo, que é de bom respeito, as ordens tenho, para com meu
juramento fechar trato... ― foi a resposta de Rodrigues Peludo, com
a clara voz de quem está mais cumprindo do que querendo. Até inveja
eu tive dele: porque, para viver um punhado completo, só mesmo em
instâncias assim.
― Antes bem ― Zé Bebelo glosou, ―
quem é que está rodeando e vexando os outros, e atacando?
― O em usos... ― é a gente...
Isto é... ― o Rodrigues Peludo compós o confessar.
― Ah. Isto era. Ah, e então?!
― Ao que vim ajustar é propostas.
Ao para salvo e lucro das nulas partes. As ambas. Caso se Ossa Seoria
se concorde...
Somenos aprumo, nem o tom. Mas, de
tudo seja, também, o que gravei, aí, desse Rodrigues Peludo, foi um
ter-tem de existidas lealdades. Assim que, inimigo, persistia só
inimigo, surunganga; mas enxuto e comparado, contra-homem sem o
desleixo de si. E que podia conceber sua outra razão, também. Assim
que, então, os de lá ― os judas ― não deviam de ser somente os
cachorros endoidecidos; mas, em tanto, pessoas, feito nós, jagunços
em situação. Revés ― que, por resgate da morte de Joca Ramiro, a
terrível que fosse, agora se ia gastar o tempo inteiro em guerras e
guerras, morrendo se matando, aos cinco, aos seis, aos dez, os homens
todos mais valentes do sertão? Uma poeira dessa dúvida empoou minha
ideia ― como a areia que a mais fininha há! que é a que o rio
Urucúia rola dentro de suas largas águas, quando as chuvaradas do
inverno. Ali, dos meus companheiros, tantos mortos. Acaso, que
companheiros eram; e agora o que se depositava deles era o assunto de
lembranças, e aquele amassado e envelhecido feder, que às horas
repontava. Constado que produziam isso, mesmo estando amontoados no
cômodo soturno, entrapadas as frestas da porta, e cá fora se
torrando couros com folhas polvreadas. Mediante os estoques desse
mau-cheiro, por certo Rodrigues Peludo e o Lacrau iam orçar a boa
conta de nossos mortos, afora os feridos, leves e graves. Mas Zé
Bebelo anteteve de mandar chamar Marcelino Pampa, João Concliz e
muitos diversos outros, e o apinho e apessoar, nosso, ombros em
ombros, aprazava efeito de bando significado, numeroso. Com os vivos
é que a gente esconde os mortos. Aqueles mortos ― o Jósio,
entortado prestes, com pedaços de sangue pendurados do nariz e dos
ouvidos; o Acrísio, repousado numa agência quieta, que ele não
havia de em vida; o Quim Pidão, no pormiúdo de honesto, que nunca
nem tinha enxergado trem-de-ferro, volta-e-outra a perguntar como
seria; e Evaristo Caitité, com os altos olhos afirmados, esse sempre
sido prazenteiro no meio de todos. Tudo por culpa de quem? Dos
malguardos do sertão. Ali ninguém não tinha mãe? Redigo ao
senhor: quando o raio, quando arraso, o Gerais responde com esses
urros. A culpa daquele Rodrigues Peludo, por um exemplo? Desmenti. O
ódio de Diadorim forjava as formas do falso. Odio a se mexer, em
certo e justo, para ser, era o meu; mas, na dita ocasião, eu daquilo
sabia só a ignorância. A-tóa, até, que estava relembrando o
Hermógenes. Assim, pensando no Hermógenes ― só por precisão de
com alguém me comparar. E, com Zé Bebelo, eu me comparar, mais eu
não podia. Agora, Zé Bebelo, eu ― eu, mesmo eu ― era quem
estava botando debaixo de julgamento. Isso ele soubesse? Ah, naquela
cabeça grande, o que Zé Bebelo pensava era o útil, o seco, e a
pressa. De curto ponto, ele disse, concedendo um final:
― Resolvo. Sendo em séria fiança,
eu aceito o intervalo de armas, com o prazo demarcado de três dias.
De três dias: digo! Agora, homem, tu vai ― remete isto ao que
estiver o seu chefe, seja lá quem.
― A vou... ― o Rodrigues Peludo se
prometeu.
― Se sendo em séria fiança, então
de lá um dê três tiros, pra o trato fechado. Assim assente para
esta noite: no instinto em que a primeirinha estrela se frisar!
― A vou.
O Rodrigues Peludo repuxava bandoleira
do rifle e salvava saudação. As vozes do ruído, reponho que nenhum
de nós não sabendo se a decisão de Zé Bebelo era justa e
convinhável, ninguém disse mote de dúvida nem de aprovo. Nisso, no
olho do silêncio, ainda era só o que me prevalecia. Rodrigues
Peludo botou o rifle no sovaco, já no jeito de que ia engatinhar
descendo a escada. Mandava a vontade de um, sabente de si. Zé Bebelo
mandava, ele tinha os feios olhos de todo pensar. A gente preenchia.
Menos eu; isto é ― eu resguardava meu talvez.
Mas, aí, de abalo, o Lacrau, que
tinha persistido quieto feito ouvindo santa-missa perto do altar, ele
surge se vira-virou, pelo repente, a traque disse!
― Aqui, eu, eu fico no meio de vós,
meu Chefe! ― a que vim para isto. Sou homem que sempre fui! do
estado de Joca Ramiro ― ele é o das próprias cores... Agora, meu
braço ofereço, Chefe. A por tudo quanto, se sepreponha o senhor de
me aceitar...
A acarra daquilo, tão exclamante, a
forte palavra. Assomo assim de frechar surpresa, a gente capistrou,
grossamente, e sem fala. Tudo o que ele disse, o Lacrau se empinou
em-pé. Onde mais, deixou o silêncio se perfazer da questão
anterior ― a suplicação, o concitado. O que era fato imponente,
digo ao senhor; mire veja, mire veja. Animo nos ânimos! A quanto,
semelhavelmente, esse Lacrau não se comportava sem consciência
sisuda, no amor mais à-mão, para se segurar com trincheiras; mas,
assim mesmo, a gente em aperto de cerco, ele tinha querido vir, para
sócio. Alguém ficou como pasmado? Zé Bebelo, não.
― Aqui me praz, que te aceito,
rapaz! ― Zé Bebelo deferiu.
[...]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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