16/08/2025

"Vi a morte com muitas caras"


[…]

Dele de perto não saí, a atenção e ordem ele recomendava. O cano de meu rifle era tutor dele? Antes de minha hora, no que ele mandasse opor e falasse eu não podia basear dúvidas. Mas, desde vez, aquilo a vir gastava as minhas forças. Ali ― sem a vontade, mas por mais do que todos saber ― eu estava sendo o segundo. Andando que Zé Bebelo falecesse ou trastejasse, eu tinha de tomar assumida a chefia, e mandar e comandar? Outro fosse ― eu não; Jesus e guia! E baixo, os homens não iam me obedecer; nem de me entender eles não eram capazes. Capaz de me entender e de me obedecer, nos casos, só mesmo Zé Bebelo. A jus ― pensei ― Zé Bebelo, somente, era que podia ser o meu segundo. Estúrdio, isso, nem eu não sabendo bem por quê, mas era preciso. Era; eu o motivo não sabendo. Se fiz de saber, foi pior. O que é que uma pessoa é, assim por detrás dos buracos dos ouvidos e dos olhos? Mas as pernas não estavam. Ah, fiquei de angústias. O medo resiste por si, em muitas formas. Só o que restava para mim, para me espiritar ― era eu ser tudo o que fosse para eu ser, no tempo daquelas horas. Minha mão, meu rifle. As coisas que eu tinha de ensinar à minha inteligência.
Agora, o que era que se esperava? Só Zé Bebelo decerto podia responder, mas ele não dava senha de mudança. Onde o normal. Aí já se via o dia quase em fim, com as cores do sol. Voavam uns guaxes. Dos soldados e dos judas, quase que não se ouvia empipóco de arma, só os tiros salteados, a cá e lá, como se escasso quisessem briga. A gente sobrossosa, nesse ensino de onça, traiçoeiros todos. Astúcias que manobrando em esconso deviam de estar, para trás e para os lados, pelo jeito melhor de pegarem o encoberto dos lugares, querendo enrolar os outros, para o remate de dar bote. ― Soldado pede é cautela, e o dobro-soldo... ― acho que um disse. Aquela era a ocasião mais arriscada. Ao que jagunço é isto ― o senhor ponha letreiro. Ao encosto no rifle e apreparo nas patronas ― isso era o que bastava. Nenhum dos companheiros estava desinquieto, nem ralava apreensão. Nenhum conversava precisando de saber a maneira de se escapulir vivos dali, da Fazenda dosTucanos. Com a chegada da soldadesca, o que parecia moagem era para eles era festa. Assim uns gritaram feito araras machas. Gente! Feito meninos. Disso eu fiz um pensamento: que eu era muito diverso deles todos, que sim.
Então, eu não era jagunço completo, estava ali no meio executando um erro. Tudo receei. Eles não pensavam. Zé Bebelo, esse raciocinava o tempo inteiro, mas na regra do prático. E eu? Vi a morte com muitas caras. Sozinho estive ― o senhor saiba. Mas, nisso, conforme o acontecido exato, uma coisa muito inesperada se deu. Da banda do mato, de repente, por cima das môitas de lobolobo, alguém levantou um pano branco, na ponta de uma vara.
A gente não tinha licença de abrir fogo no alvo daquele trapo. Apraz que a gente ia consentir em negócio com os judas? Aqueles, para mim, guardavam a definitiva marca, e só o que podiam trazer era a maldição. Mas Zé Bebelo, maneiro em presteza, já tinha amarrado um grande lenço branco na ponta de um rifle, e mandou que o Mão-de-Lixa aquilo erguesse e sacudisse no ar. ― A regra que é regra! ― Zé Bebelo disse ― A solenidade de embaixador sempre se tem de consentir; até para herege, até para bugre... Aprovavam, os outros, deram razão. Achei que estavam com a vontade de saber que notícias eram, o que vir vinha. Com o que mais admirei! a mensagem daqueles panos brancos, de lá e de cá, durou um certo tempo. Como tudo nesta vida carece de direito se acertar.
Depois, um sujeito apareceu, do capim, e veio, devia de ter passado por um rombo feito na cerca. A certa distância estava, no eirado, e um dos nossos disse, reconhecendo! ― Ah, é o Rodrigues Peludo, homem devoto do Ricardão... Que era, que era ― os outros companheiros concordaram. Atrás desse, meio engatinhando também, surgiu mais um! ― E o Lacrau! E o Rodrigues Peludo virava para trás, falava qualquer coisa, parecia que estava mandando o Lacrau ir s embora. Mas o Lacrau teimava, seguia acompanhando o outro. ― Xente, dond é que está se comparecendo esse Lacrau? Faz tempo que não se tinha ciência nenhuma dele... O qual era dos Gerais do Bolór, terra jequitinhonha, e homem de certa valia. Caboclo claro. E que, ele sendo réu, tinha esfaqueado na sala de júri um promotor, em outroras. De ver os dois, perto, assim pessoas, escada acima, e presentes em pé, diante da gente, nas decididas condições, achei muita esquisitice. Rodrigues Peludo levantou os olhos, feito se a gente estivesse no céu, e saudou normal. Daí disse:
Seó Chefe...
Homem, te vira de costa! ― Zé Bebelo regrou.
No assim simples eles obedeceram, tanto um, tanto o outro. Mas estavam muito armados. Momentos que foram, eu louvei a coragem calma daqueles dois, que de qualquer longe recanto um soldado talvez estivesse em poder de derrubar por belprazer. Porque os soldados não pertenciam nessa cerimónia. Afiguro o que pensei.
E Zé Bebelo perguntou, impondo ordem de resposta:
que mandatela eles traziam? Do lado meu, o Diodólfo chiava boca num dente, conforme sestro dele, e o José Gervásio sussurrou: ― Tramóia... Mas Zé Bebelo regia tudo, mão em revólver. Um homem falar seu recado, de costas, no meio dos contrários, na boca de tantas armas ― o senhor já presenciou essas circunstâncias? Assim o Rodrigues Peludo deu conta, sem rasgo de tremor na voz:
Com sua licença dada, e nos usos, estou trazendo estas palavras, Seó Chefe, que para repetir ao senhor fui mandado: ― Que, em vistas desses soldados, e do mais, que é contra todos, se não era mais aproveitável, para uma parte e outra, de se fazer trato de paz, por uns tempos... E por essa oferta é que venho, por ordens. Que ― se serve, ou valor tem, o dito ― pergunta faço; e se o senhor há de estar ou não de acordo, me dando a resposta que queira dar, para eu levar para os meus chefes...
Que chefes? ― Zé Bebelo indagou, sem tom de nenhuma malícia.
Rodrigues Peludo demorou um ponto, fazendo menção de virar o rosto, mas o que deixou em tempo de fazer. E contestou!
Nhô Ricardão. E seô Hermógenes...
E eles então estão querendo paz?
Estão propondo um acordo correto...
Em boa distância, do mato do grotal, estralejou um tiro, que era de fuzil. E uns outros, muito estampidos. O que aquilo me constou era que era falta de respeito. Tiros que não beiravam por aqui. Mas, mesmo assim, Zé Bebelo disse!
Homem, vocês podem abaixar o corpo.
Rodrigues Peludo, sempre de costas, se agachou, depositou o rifle no chão; o Lacrau meio ajoelhado ficou. Agora eles estavam entre trincheiras.
Agora a roda nossa, ajuntados os muitos companheiros brabos, com a bafagem da boa cachaça! o Marruaz que representou a dedo o sino-salomão no peito, no rumo do coração; o Preto Mangaba, que, mudando de estar, esbarrou em mim ― do que me lembro e sei, porque doeu em meu braço; e Diodôlfo cuspiu forte ― soluçou dos estômagos. E o Fafafa, repontante! ― Em paz, quem é que devolve vida em nossos cavalos?! Aí o Moçambicão, atrás de mim, me ressoprou, como um boi reconhecendo minhas costas. Mas minha mão, por si, pegou a mão de Diadorim, eu nem virei a cara, aquela mão é que merecia todo entendimento. Mão assim apartada de tudo, nela um suave de ser era que me pertencia, um calor, a coisa macia somente. São as palavras? Mas aí espiei para Diadorim, e ele despertou do que tinha se esquecido, deixado, de sua mão, que ele retirou da minha outra vez, quase num repelão de repugno. E ele estava sombrio, os olhos riscados, sombrio em sarro de velhas raivas, descabelado de vento. Demediu minha ideia: o ódio ― é a gente se lembrar do que não deve-de; amor é a gente querendo achar o que é da gente. ― O palavreado, destes! ― Diadorim chiou, por detrás dos dentes. Diadorim queria sangues fora de veias. E eu não concordava com nenhuma tristeza. Só remontei um pasmo e um consolo expedito; porque a guerra era o constante mexer do sertão, e como com o vento da seca é que as árvores se entortam mais. Mas, pensar na pessoa que se ama, é como querer ficar à beira d água, esperando que o riacho, alguma hora, pousoso esbarre de correr. E Alaripe buliu no bissaco, estava recheando de novo as suas cartucheiras. Mas isto tudo, que conto ao senhor, se compartiu de caber em pouquinhos minutos instantes. E do modo de um prosseguir sem partes. Porque Zé Bebelo, as mãos na cinta, se encurtava frio em siso, feito uma a cobra. O que disse, o quanto:
Homem, e o que mais?
Era tudo o que eu já falei, Chefe, seó. Ao que peço vossa resposta, para conduzir. E em caso de algum acordo, que é de bom respeito, as ordens tenho, para com meu juramento fechar trato... ― foi a resposta de Rodrigues Peludo, com a clara voz de quem está mais cumprindo do que querendo. Até inveja eu tive dele: porque, para viver um punhado completo, só mesmo em instâncias assim.
Antes bem ― Zé Bebelo glosou, ― quem é que está rodeando e vexando os outros, e atacando?
O em usos... ― é a gente... Isto é... ― o Rodrigues Peludo compós o confessar.
Ah. Isto era. Ah, e então?!
Ao que vim ajustar é propostas. Ao para salvo e lucro das nulas partes. As ambas. Caso se Ossa Seoria se concorde...
Somenos aprumo, nem o tom. Mas, de tudo seja, também, o que gravei, aí, desse Rodrigues Peludo, foi um ter-tem de existidas lealdades. Assim que, inimigo, persistia só inimigo, surunganga; mas enxuto e comparado, contra-homem sem o desleixo de si. E que podia conceber sua outra razão, também. Assim que, então, os de lá ― os judas ― não deviam de ser somente os cachorros endoidecidos; mas, em tanto, pessoas, feito nós, jagunços em situação. Revés ― que, por resgate da morte de Joca Ramiro, a terrível que fosse, agora se ia gastar o tempo inteiro em guerras e guerras, morrendo se matando, aos cinco, aos seis, aos dez, os homens todos mais valentes do sertão? Uma poeira dessa dúvida empoou minha ideia ― como a areia que a mais fininha há! que é a que o rio Urucúia rola dentro de suas largas águas, quando as chuvaradas do inverno. Ali, dos meus companheiros, tantos mortos. Acaso, que companheiros eram; e agora o que se depositava deles era o assunto de lembranças, e aquele amassado e envelhecido feder, que às horas repontava. Constado que produziam isso, mesmo estando amontoados no cômodo soturno, entrapadas as frestas da porta, e cá fora se torrando couros com folhas polvreadas. Mediante os estoques desse mau-cheiro, por certo Rodrigues Peludo e o Lacrau iam orçar a boa conta de nossos mortos, afora os feridos, leves e graves. Mas Zé Bebelo anteteve de mandar chamar Marcelino Pampa, João Concliz e muitos diversos outros, e o apinho e apessoar, nosso, ombros em ombros, aprazava efeito de bando significado, numeroso. Com os vivos é que a gente esconde os mortos. Aqueles mortos ― o Jósio, entortado prestes, com pedaços de sangue pendurados do nariz e dos ouvidos; o Acrísio, repousado numa agência quieta, que ele não havia de em vida; o Quim Pidão, no pormiúdo de honesto, que nunca nem tinha enxergado trem-de-ferro, volta-e-outra a perguntar como seria; e Evaristo Caitité, com os altos olhos afirmados, esse sempre sido prazenteiro no meio de todos. Tudo por culpa de quem? Dos malguardos do sertão. Ali ninguém não tinha mãe? Redigo ao senhor: quando o raio, quando arraso, o Gerais responde com esses urros. A culpa daquele Rodrigues Peludo, por um exemplo? Desmenti. O ódio de Diadorim forjava as formas do falso. Odio a se mexer, em certo e justo, para ser, era o meu; mas, na dita ocasião, eu daquilo sabia só a ignorância. A-tóa, até, que estava relembrando o Hermógenes. Assim, pensando no Hermógenes ― só por precisão de com alguém me comparar. E, com Zé Bebelo, eu me comparar, mais eu não podia. Agora, Zé Bebelo, eu ― eu, mesmo eu ― era quem estava botando debaixo de julgamento. Isso ele soubesse? Ah, naquela cabeça grande, o que Zé Bebelo pensava era o útil, o seco, e a pressa. De curto ponto, ele disse, concedendo um final:
Resolvo. Sendo em séria fiança, eu aceito o intervalo de armas, com o prazo demarcado de três dias. De três dias: digo! Agora, homem, tu vai ― remete isto ao que estiver o seu chefe, seja lá quem.
A vou... ― o Rodrigues Peludo se prometeu.
Se sendo em séria fiança, então de lá um dê três tiros, pra o trato fechado. Assim assente para esta noite: no instinto em que a primeirinha estrela se frisar!
A vou.
O Rodrigues Peludo repuxava bandoleira do rifle e salvava saudação. As vozes do ruído, reponho que nenhum de nós não sabendo se a decisão de Zé Bebelo era justa e convinhável, ninguém disse mote de dúvida nem de aprovo. Nisso, no olho do silêncio, ainda era só o que me prevalecia. Rodrigues Peludo botou o rifle no sovaco, já no jeito de que ia engatinhar descendo a escada. Mandava a vontade de um, sabente de si. Zé Bebelo mandava, ele tinha os feios olhos de todo pensar. A gente preenchia. Menos eu; isto é ― eu resguardava meu talvez.
Mas, aí, de abalo, o Lacrau, que tinha persistido quieto feito ouvindo santa-missa perto do altar, ele surge se vira-virou, pelo repente, a traque disse!
Aqui, eu, eu fico no meio de vós, meu Chefe! ― a que vim para isto. Sou homem que sempre fui! do estado de Joca Ramiro ― ele é o das próprias cores... Agora, meu braço ofereço, Chefe. A por tudo quanto, se sepreponha o senhor de me aceitar...
A acarra daquilo, tão exclamante, a forte palavra. Assomo assim de frechar surpresa, a gente capistrou, grossamente, e sem fala. Tudo o que ele disse, o Lacrau se empinou em-pé. Onde mais, deixou o silêncio se perfazer da questão anterior ― a suplicação, o concitado. O que era fato imponente, digo ao senhor; mire veja, mire veja. Animo nos ânimos! A quanto, semelhavelmente, esse Lacrau não se comportava sem consciência sisuda, no amor mais à-mão, para se segurar com trincheiras; mas, assim mesmo, a gente em aperto de cerco, ele tinha querido vir, para sócio. Alguém ficou como pasmado? Zé Bebelo, não.
Aqui me praz, que te aceito, rapaz! ― Zé Bebelo deferiu.
[...]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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