[…]
Aquela noite, meu quinhão dormi; no
amiudar-do-galo o tiroteio já principiava renovado. Mas só os tiros
espaços ― para não esperdiçar, e render ― porque eles estavam
procedendo como nós, o igual imediato. A guerra fina caprichada,
bordada em bastidor. Fui ver o madrugar a manhã: uma brancura. O
senhor sabe: no levante, clareou o céu com o sol das barras. Mas o
curralão já estava pendurado de urubús, os usos como eles viajam
de todas as partes, urubú, passarão dos distúrbios. E, quando dava
que rondava o vento, o curral fedia. Mas ― perdoando Deus ―
tresandava mais era dentro da casa, mesmo sendo enorme: os
companheiros falecidos. Se taramelou o quarto, por tapar a soleira da
porta se forrava com algodão em rama e aniagens. O fedor revinha
surgindo sempre, traspassava. A tanto, depois, a gente ouviu miados.
― Sape! O gato está lá... ― algum gritou. Ah, era o gato, que
sim. Saíu, soltado, surripiadamente, foi tornar a se ocultar debaixo
dum catre, noutro cômodo. Carecia de se oferecer a ele de comer, que
quem bem-trata gato consegue boa-sorte. No menos, na sala-de-fora,
ocupei meu ofício, de mosquetear. A ganho, conforme as vazas, mais
de um homem derrubei, que rolou, em réu, sei que defini. Avistante
que os urubús já destemiam o se combater dos tiros, assaz eles
baixavam, para o chão do curral, rebicavam grosso, depois paravam às
filas, na cerca, acomodados acucados. Quando pulavam de asas,
abanassem aquele fedor. O dia andando, a catinga no ar aumenta. Aí
eu não queria provar de sal, roí farinha seca, com punhado de
rapadura. Na casa toda, como que não se achava um litro de cal, um
caneco de creolina, por vil remédio. Morreu o Quim Pidão, se botou
o corpo por cima dum banco na sala, provisório! ninguém não queria
mais coragem de ir abrir com presteza o quarto dos defuntos. O dia
envelhecia. A roubo, estive perto de Diadorim, quase só para espiar,
quase sem a conversação. De ver Diadorim, com agrado, minha
tenência pegava a se enfraquecer. Outros receios eu concebendo. O
prazo que ali assim íamos ter de tolerar, no carrego da guerra. A
gente até carecesse, no derradeiro durar, de comer somente os couros
assados ― conforme o caso terrível de Dutra Cunha, de um diabo,
que, em sua fazenda do Canindé, resistiu ao cerco de Cosme de
Andrade e Olivino Oliviano. Esse Dutra Cunha era o homem de um olho
só. Zé Bebelo bem sabia a história dele. Agora, de Zé Bebelo eu
risse. Montante de outras coisas ainda podiam suceder, de desde a
madrugadinha até à viração da tarde? Mas ninguém falava em
Joaquim Beijú e no Quipes. A uma hora dessas, ou eles já estavam
arriados pelo inimigo, ou então, traquejando nos caminhos, a rumo de
cidades. Assim ― entardecer, anoitecer ― galopassem em algum
cavalo arranjado nos campos, e o tempo da gente eles estendiam. Será
que haviam de vir os soldados? Aquele outro dia, morreu mais o
Acerêjo. A tudo, o cheiro de morte velha.
― O mau-fétido que vai terminar
mazelando a gente... ― sempre um dizer. A dita morrinha, até a
água que se bebia pegava na boca da gente, e rançava. A Casa dos
Tucanos aguentava as batalhas, aquela casa tão vasta em grande, com
dez janelas por banda, e aprofundada até em pedras de piçarrão a
cava dos alicerces. A Casa acho que falava um falar ― resposta ao
assovioso ― a quando um tiro estrala em dois, dois. De embiricica,
entrantes as balas vinham, puxavam um fio de ar. Eh, lascassem! Mas
os companheiros por conta à-tóa riam, não acrescentavam cangalha
aos pesares. Mesmo, quando se sobrecarregava um rir, os que estavam
mais longe mandavam saber o porquê, ou gritavam por perguntar, em
empenho de combate. A resto, um Zé Vital deu ataque: o qual era um
acesso sacramentado de feioso, principiando depois que ele se
queixava de sentir o nariz quente, ele mesmo já sabia a data ― e
daí proclamava um grito de porco com frio, e caía estatelado no
chão, duro como um cano de arma; mas atanazava batendo com os braços
e pernas, querendo às ânsias coisa ou criatura em que se agarrar, o
onde esbugalhava os olhos, a boca aspumada, escumando. Se disse: ―
Isto é doença velha pertencida, isto não é fato de guerra...
Acesso que passava a estado meio semi-morto, num vago ― pois
deitaram o Zé Vital numa canastra de couro. Ao para a tarde, para a
noite. Aí tudo navegava. A Casa estava se enchendo de moscas, dessas
de enterro, as produzidas. A cada que cada, elas presumiam o sujo, em
penca maior, pretejavam. Para as coisas que há de pior, a gente não
alcança fechar as portas. Desdenhei Diadorim. De ver Diadorim, que,
em febre de acertar e executar, não tomava consigo muita cautela, só
forcejava por vingança ― punições maravilhosas. Diadorim, mesmo,
a cara muito branca, de da alma não se reconhecer, os olhos rajados
de vermelho, o encôvo. Aquilo era o crer da guerra. Por que causa?
Porque Joca Ramiro constava de assassinado morrido? A razão normal
de coisa nenhuma não é verdadeira, não maneja. Arreneguei do que é
a força ― e que a gente não sabe ― assombros da noite. A minha
terra era longe dali, no restante do mundo. O sertão é sem lugar. A
Bigrí, mulher minha mãe, não tinha me rogado praga. Alta manhã ―
em tudo repetido o igual! o cantar do rifleio, afora o feder ruim dos
mortos e cavalos, e a moscaria, que se esparramava. Mesmo com a minha
vontade toda de paz e descanso, eu estava trazido ali, no extrato, no
meio daquela diversidade, despropósitos, com a morte da banda da mão
esquerda e da banda da mão direita, com a morte nova em minha
frente, eu senhor de certeza nenhuma. Sem Otacília, minha nôiva,
que era para ser dona de tantos territórios agrícolas e adadas
pastagens, com tantas vertentes e veredas, formosura dos buritizais.
O que era isso, que a desordem da vida podia sempre mais do que a
gente? Adjaz que me aconformar com aquilo eu não queria, descido na
inferneira. Carecia de que tudo esbarrasse, momental meu, para se ter
um recomeço. E isso era. Pela última vez, pelas últimas. Eu queria
minha vida própria, por meu querer governada. A tristeza, por
Diadorim! que o ódio dele, no fatal, por uma desforra, parecia até
ódio de gente velha ― sem a pele do olho. Diadorim carecia do
sangue do Hermógenes e do Ricardão, por via. Dois rios diferentes ―
era o que nós dois atravessávamos? Do lado de Diadorim restei, um
tanto, no afã de escopetear. O inimigo nunca se via, nem bem o
malmal, na fumacinha expelida, de cada uma pólvora. Arte, artimanha!
que agora eles decerto andavam disfarçados de mbaiá ― o senhor
sabe ― isto é, revestidos com môitas verdes e folhagens. Adequado
que, embaiados assim, sempre escapavam muito de nosso ver e mirar.
Ah, mas, deles, tiros vinham, bala estripitriz, e o trapuz de nossas
têlhas se despencando. A mãe morte. Quem devia mais, esse morria? ―
0 xente! Não é que pegaram em mim, e eu estou passando, estou
ficando cegado?... ― exclamou o Evaristo Caitité, quando descuidou
a meia-banda e levou em si uma carga total. Ele já estava sem jogo
nenhum no corpo, as partes das pernas se esfriavam. Antes quase rindo
se acabou; ficou tão de olhos. ― O que é que ele vê? Vê a
vitória!... ― Zé Bebelo se cresceu no dizer. A vitória e os
urubús, que a farto comiam, e o Manuelzinho-da-Crôa, meu
cavalinho pedrês, que eu nele não ia poder nunca mais amontar.
Assutava era o alopro dos companheiros, que não se sujeitavam mais
de dormir, estavam pertencidos perturbados. A caso de se ter mão na
nervosia deles, que queriam dar saída e lanços, avançar no ar.
Doidagem desses comuns repentes, o desfazer do ajuntado. ― A
firmeza, meus filhos. Fólego e paciência, a gente sempre tem ― é
só requerer e repuxar, mais um dedo e outro dedo dobrado... ― Zé
Bebelo media os modos de valer. Assim sendo, agora, só o remedêio,
com as esperanças, extraordinárias. A um jeito de se escapar dali,
a gente, a salvos? Zé Bebelo era a única possibilidade para isso,
como constante pensava e repensava, obrava. E eu cri. Zé Bebelo, que
gostava sempre de deixar primeiro tudo piorar bem, no complicado. Um
gole de cachaça me deu bom conselho. Sem a vinda dos soldados ― se
viessem ― a gente não estava perdidos? Zé Bebelo não era quem
tinha chamado os soldados? Ah, mas, agora, Zé Bebelo não ia mais
trair, não ia ― e isso só por minha causa. Zé Bebelo carecia de
rédeas de um outro diverso poder e forte sentir, que tomasse conta,
désse rumo a ele. Assim eu estava sendo. Eu sabia. Zé Bebelo, mesmo
nos relances de me olhar, fingia não conhecer minha vigiação,
afetava. Mas ele se estreitava em meus palpos, conscienciado. Agora,
ele tinha de especular, de afinar a cabeça, para o trabalho de
imaginar maior, achar alguma outra invenção ― para resolver o
final com acerto para a vitória de nós todos ― sem traição nem
airagem. A tanto, cri, acreditado. Sabia que Zé Bebelo era muito
capaz. Só não ri. Ao menos outro deles, dos hermógenes, quero ver
se resgato de abater, até vir o sereno do anoitecido... ― eu
meditei. Não deu. Não pude. O que houve, o conseguinte, foi que Zé
Bebelo pegou em meu ombro. Ele mudou de lugar, e pôs a cara no meio
da luz. ― Aí, está ouvindo,Tatarana Riobaldo, está ouvindo? ―
ele disse, com um sorriso de tão grandes brilhos, que não era de
ruindade e nem de bondade. Aquilo foi num dia, devia de estar sendo
por volta de umas três da tarde, pelo rumo do sol. Ouvi!
Mas, então, a soldadesca tinha vindo,
alcançada, estavam chegando? Era. Era! Remexendo um rebuliço, de
nós todos, mesmo porque os mais não conheciam aquele motivo, de
nada não soubessem o tencionado. Os praças? O tiroteio deles,
pegando os hermógenes de supetão, surpresa bruta, de retaguarda. Os
tiros, que eram! ...a bala, bala, bala... bala, bala, bala... a
bala: bá!... ― desfechavam com metralhadora. Aí
arrejàrrajava, feito um capitão de vento. Até destroçavam também
nas custas da Casa? ― Apre, meninos, faz mal não. A vantagem do
valente é o silêncio do rumor... ― Zé Bebelo sentenciava. Zé
Bebelo trepava em altas serras. Duvidava de nada. Que vencia! Quem
vence, é custoso não ficar com a cara de demônio.
[...]
Graciliano Ramos, em Grande Sertão: Veredas

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