11/08/2025

O sertão é sem lugar



[…]

Aquela noite, meu quinhão dormi; no amiudar-do-galo o tiroteio já principiava renovado. Mas só os tiros espaços ― para não esperdiçar, e render ― porque eles estavam procedendo como nós, o igual imediato. A guerra fina caprichada, bordada em bastidor. Fui ver o madrugar a manhã: uma brancura. O senhor sabe: no levante, clareou o céu com o sol das barras. Mas o curralão já estava pendurado de urubús, os usos como eles viajam de todas as partes, urubú, passarão dos distúrbios. E, quando dava que rondava o vento, o curral fedia. Mas ― perdoando Deus ― tresandava mais era dentro da casa, mesmo sendo enorme: os companheiros falecidos. Se taramelou o quarto, por tapar a soleira da porta se forrava com algodão em rama e aniagens. O fedor revinha surgindo sempre, traspassava. A tanto, depois, a gente ouviu miados. ― Sape! O gato está lá... ― algum gritou. Ah, era o gato, que sim. Saíu, soltado, surripiadamente, foi tornar a se ocultar debaixo dum catre, noutro cômodo. Carecia de se oferecer a ele de comer, que quem bem-trata gato consegue boa-sorte. No menos, na sala-de-fora, ocupei meu ofício, de mosquetear. A ganho, conforme as vazas, mais de um homem derrubei, que rolou, em réu, sei que defini. Avistante que os urubús já destemiam o se combater dos tiros, assaz eles baixavam, para o chão do curral, rebicavam grosso, depois paravam às filas, na cerca, acomodados acucados. Quando pulavam de asas, abanassem aquele fedor. O dia andando, a catinga no ar aumenta. Aí eu não queria provar de sal, roí farinha seca, com punhado de rapadura. Na casa toda, como que não se achava um litro de cal, um caneco de creolina, por vil remédio. Morreu o Quim Pidão, se botou o corpo por cima dum banco na sala, provisório! ninguém não queria mais coragem de ir abrir com presteza o quarto dos defuntos. O dia envelhecia. A roubo, estive perto de Diadorim, quase só para espiar, quase sem a conversação. De ver Diadorim, com agrado, minha tenência pegava a se enfraquecer. Outros receios eu concebendo. O prazo que ali assim íamos ter de tolerar, no carrego da guerra. A gente até carecesse, no derradeiro durar, de comer somente os couros assados ― conforme o caso terrível de Dutra Cunha, de um diabo, que, em sua fazenda do Canindé, resistiu ao cerco de Cosme de Andrade e Olivino Oliviano. Esse Dutra Cunha era o homem de um olho só. Zé Bebelo bem sabia a história dele. Agora, de Zé Bebelo eu risse. Montante de outras coisas ainda podiam suceder, de desde a madrugadinha até à viração da tarde? Mas ninguém falava em Joaquim Beijú e no Quipes. A uma hora dessas, ou eles já estavam arriados pelo inimigo, ou então, traquejando nos caminhos, a rumo de cidades. Assim ― entardecer, anoitecer ― galopassem em algum cavalo arranjado nos campos, e o tempo da gente eles estendiam. Será que haviam de vir os soldados? Aquele outro dia, morreu mais o Acerêjo. A tudo, o cheiro de morte velha.
O mau-fétido que vai terminar mazelando a gente... ― sempre um dizer. A dita morrinha, até a água que se bebia pegava na boca da gente, e rançava. A Casa dos Tucanos aguentava as batalhas, aquela casa tão vasta em grande, com dez janelas por banda, e aprofundada até em pedras de piçarrão a cava dos alicerces. A Casa acho que falava um falar ― resposta ao assovioso ― a quando um tiro estrala em dois, dois. De embiricica, entrantes as balas vinham, puxavam um fio de ar. Eh, lascassem! Mas os companheiros por conta à-tóa riam, não acrescentavam cangalha aos pesares. Mesmo, quando se sobrecarregava um rir, os que estavam mais longe mandavam saber o porquê, ou gritavam por perguntar, em empenho de combate. A resto, um Zé Vital deu ataque: o qual era um acesso sacramentado de feioso, principiando depois que ele se queixava de sentir o nariz quente, ele mesmo já sabia a data ― e daí proclamava um grito de porco com frio, e caía estatelado no chão, duro como um cano de arma; mas atanazava batendo com os braços e pernas, querendo às ânsias coisa ou criatura em que se agarrar, o onde esbugalhava os olhos, a boca aspumada, escumando. Se disse: ― Isto é doença velha pertencida, isto não é fato de guerra... Acesso que passava a estado meio semi-morto, num vago ― pois deitaram o Zé Vital numa canastra de couro. Ao para a tarde, para a noite. Aí tudo navegava. A Casa estava se enchendo de moscas, dessas de enterro, as produzidas. A cada que cada, elas presumiam o sujo, em penca maior, pretejavam. Para as coisas que há de pior, a gente não alcança fechar as portas. Desdenhei Diadorim. De ver Diadorim, que, em febre de acertar e executar, não tomava consigo muita cautela, só forcejava por vingança ― punições maravilhosas. Diadorim, mesmo, a cara muito branca, de da alma não se reconhecer, os olhos rajados de vermelho, o encôvo. Aquilo era o crer da guerra. Por que causa? Porque Joca Ramiro constava de assassinado morrido? A razão normal de coisa nenhuma não é verdadeira, não maneja. Arreneguei do que é a força ― e que a gente não sabe ― assombros da noite. A minha terra era longe dali, no restante do mundo. O sertão é sem lugar. A Bigrí, mulher minha mãe, não tinha me rogado praga. Alta manhã ― em tudo repetido o igual! o cantar do rifleio, afora o feder ruim dos mortos e cavalos, e a moscaria, que se esparramava. Mesmo com a minha vontade toda de paz e descanso, eu estava trazido ali, no extrato, no meio daquela diversidade, despropósitos, com a morte da banda da mão esquerda e da banda da mão direita, com a morte nova em minha frente, eu senhor de certeza nenhuma. Sem Otacília, minha nôiva, que era para ser dona de tantos territórios agrícolas e adadas pastagens, com tantas vertentes e veredas, formosura dos buritizais. O que era isso, que a desordem da vida podia sempre mais do que a gente? Adjaz que me aconformar com aquilo eu não queria, descido na inferneira. Carecia de que tudo esbarrasse, momental meu, para se ter um recomeço. E isso era. Pela última vez, pelas últimas. Eu queria minha vida própria, por meu querer governada. A tristeza, por Diadorim! que o ódio dele, no fatal, por uma desforra, parecia até ódio de gente velha ― sem a pele do olho. Diadorim carecia do sangue do Hermógenes e do Ricardão, por via. Dois rios diferentes ― era o que nós dois atravessávamos? Do lado de Diadorim restei, um tanto, no afã de escopetear. O inimigo nunca se via, nem bem o malmal, na fumacinha expelida, de cada uma pólvora. Arte, artimanha! que agora eles decerto andavam disfarçados de mbaiá ― o senhor sabe ― isto é, revestidos com môitas verdes e folhagens. Adequado que, embaiados assim, sempre escapavam muito de nosso ver e mirar. Ah, mas, deles, tiros vinham, bala estripitriz, e o trapuz de nossas têlhas se despencando. A mãe morte. Quem devia mais, esse morria? ― 0 xente! Não é que pegaram em mim, e eu estou passando, estou ficando cegado?... ― exclamou o Evaristo Caitité, quando descuidou a meia-banda e levou em si uma carga total. Ele já estava sem jogo nenhum no corpo, as partes das pernas se esfriavam. Antes quase rindo se acabou; ficou tão de olhos. ― O que é que ele vê? Vê a vitória!... ― Zé Bebelo se cresceu no dizer. A vitória e os urubús, que a farto comiam, e o Manuelzinho-da-Crôa, meu cavalinho pedrês, que eu nele não ia poder nunca mais amontar. Assutava era o alopro dos companheiros, que não se sujeitavam mais de dormir, estavam pertencidos perturbados. A caso de se ter mão na nervosia deles, que queriam dar saída e lanços, avançar no ar. Doidagem desses comuns repentes, o desfazer do ajuntado. ― A firmeza, meus filhos. Fólego e paciência, a gente sempre tem ― é só requerer e repuxar, mais um dedo e outro dedo dobrado... ― Zé Bebelo media os modos de valer. Assim sendo, agora, só o remedêio, com as esperanças, extraordinárias. A um jeito de se escapar dali, a gente, a salvos? Zé Bebelo era a única possibilidade para isso, como constante pensava e repensava, obrava. E eu cri. Zé Bebelo, que gostava sempre de deixar primeiro tudo piorar bem, no complicado. Um gole de cachaça me deu bom conselho. Sem a vinda dos soldados ― se viessem ― a gente não estava perdidos? Zé Bebelo não era quem tinha chamado os soldados? Ah, mas, agora, Zé Bebelo não ia mais trair, não ia ― e isso só por minha causa. Zé Bebelo carecia de rédeas de um outro diverso poder e forte sentir, que tomasse conta, désse rumo a ele. Assim eu estava sendo. Eu sabia. Zé Bebelo, mesmo nos relances de me olhar, fingia não conhecer minha vigiação, afetava. Mas ele se estreitava em meus palpos, conscienciado. Agora, ele tinha de especular, de afinar a cabeça, para o trabalho de imaginar maior, achar alguma outra invenção ― para resolver o final com acerto para a vitória de nós todos ― sem traição nem airagem. A tanto, cri, acreditado. Sabia que Zé Bebelo era muito capaz. Só não ri. Ao menos outro deles, dos hermógenes, quero ver se resgato de abater, até vir o sereno do anoitecido... ― eu meditei. Não deu. Não pude. O que houve, o conseguinte, foi que Zé Bebelo pegou em meu ombro. Ele mudou de lugar, e pôs a cara no meio da luz. ― Aí, está ouvindo,Tatarana Riobaldo, está ouvindo? ― ele disse, com um sorriso de tão grandes brilhos, que não era de ruindade e nem de bondade. Aquilo foi num dia, devia de estar sendo por volta de umas três da tarde, pelo rumo do sol. Ouvi!
Mas, então, a soldadesca tinha vindo, alcançada, estavam chegando? Era. Era! Remexendo um rebuliço, de nós todos, mesmo porque os mais não conheciam aquele motivo, de nada não soubessem o tencionado. Os praças? O tiroteio deles, pegando os hermógenes de supetão, surpresa bruta, de retaguarda. Os tiros, que eram! ...a bala, bala, bala... bala, bala, bala... a bala: bá!... ― desfechavam com metralhadora. Aí arrejàrrajava, feito um capitão de vento. Até destroçavam também nas custas da Casa? ― Apre, meninos, faz mal não. A vantagem do valente é o silêncio do rumor... ― Zé Bebelo sentenciava. Zé Bebelo trepava em altas serras. Duvidava de nada. Que vencia! Quem vence, é custoso não ficar com a cara de demônio.
[...]

Graciliano Ramos, em Grande Sertão: Veredas

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