46.
Releio passivamente, recebendo o que
sinto como uma inspiração e um livramento, aquelas frases simples
de Caeiro, na referência natural do que resulta do pequeno tamanho
da sua aldeia. Dali, diz ele, porque é pequena, pode ver-se mais do
mundo do que da cidade; e por isso a aldeia é maior que a cidade...
“Porque eu sou do tamanho do que
vejo e não do tamanho da minha altura.”
Frases como estas, que parecem crescer
sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda a metafísica que
espontaneamente acrescento à vida.
Depois de as ler, chego à minha
janela sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e
sou livre com um esplendor alado cuja vibração me estremece no
corpo todo.
“Sou do tamanho do que vejo!” Cada
vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me
parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. “Sou
do tamanho do que vejo!” Que grande posse mental! Vai desde o poço
das emoções profundas até às altas estrelas que se refletem nele,
e, assim, em certo modo, ali estão.
E já agora, consciente de saber ver,
olho a vasta metafísica objetiva dos céus todos com uma segurança
que me dá vontade de morrer cantando.
“Sou do tamanho do que vejo!” E o
vago luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul
meio-negro do horizonte.
Tenho vontade de erguer os braços e
gritar coisas de uma selvajaria ignorada, de dizer palavras aos
mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade largal aos
grandes espaços da matéria vazia.
Mas recolho-me e abrando. “Sou do
tamanho do que vejo!” E a frase fica-me sendo a alma inteira,
encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro,
como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro
que começa largo com o anoitecer.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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