47.
No desalinho triste das minhas emoções
confusas...
Uma tristeza de crepúsculo, feita de
cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa,
uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida.
Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações —
áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer
bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos
vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se
emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas
sensações confusas.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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