08/08/2025

Dewey Dell



O poste indicador reaparece. Assoma na estrada, calmo, porque agora pode esperar. New Hope, cinco quilômetros. New Hope, cinco quilômetros. New Hope, cinco quilômetros. E, em seguida, a estrada começará, serpenteando entre as árvores; vazia de qualquer espera, dizendo New Hope cinco quilômetros.
Ouvi dizer que minha mãe está morta. Quisera dispor de tempo para deixá-la morrer. Quisera dispor de tempo para desejar tê-lo. É que, na terra selvagem e violada, tudo acontece depressa demais depressa demais depressa demais. Não que eu queira, ou viesse a querer, mas porque é depressa demais depressa demais depressa demais.
Agora o poste começa a dizer: New Hope cinco quilômetros. New Hope, cinco quilômetros. Ê o que se pretende significar quando se fala no ventre do tempo: a agonia e o desespero de ossos dilatados, a dura girândola em que jazem as violadas entranhas dos acontecimentos A cabeça de Cash volta-se, vagarosa, quando nos aproximamos, mostrando a cara pálida vazia triste compenetrada e interrogativa que acompanha a curva vermelha e vazia da estrada; ao lado de uma roda traseira, Jewel vai montado no cavalo e olha em frente, com firmeza.
A terra desenrola-se diante dos olhos de Darl; eles erram, tentando fixar detalhes. Eles começam por meus pés e sobem ao longo de meu corpo até minha cara, e então meu vestido desaparece: estou sentada, nua, no banco, sobre as mulas vagarosas, em cima das dores. E se eu lhe pedir para desviar a vista? Ele fará o que eu disser. Você não vê que ele fará o que disser? Uma vez despertei sentindo um grande vazio escuro escorrer por baixo de mim. Eu não podia vê-lo. Vi Vardaman levantar-se e ir à janela e meter a faca no peixe; o sangue corria, silvava como se fosse vapor, mas eu não podia ver. Ele fará o que eu disser. Sempre fez. Posso persuadi-lo a fazer tudo. Você bem 'sabe que eu posso. E se eu lhe pedir para desviar a vista? Isso aconteceu aquela vez em que morri.
E se eu lhe pedir? Chegaremos a New Hope. Não teremos de ir à cidade.
Eu me ergui e arranquei a faca do peixe que ainda silvava, emitindo vapor, e matei Darl.
Quando eu costumava dormir com Vardaman tive uma vez um pesadelo pensei que estava acordada mas não podia ver e não podia sentir eu não podia sentir a cama embaixo de mim e eu não podia pensar o que eu era eu não podia pensar em meu nome eu nem mesmo podia pensar que sou uma moça eu nem mesmo pensava se tinha vontade de acordar nem lembrava o contrário de estar acordada e tudo o que eu sabia era que eu sabia que alguma coisa estava acontecendo mas eu não podia sequer pensar no tempo então de repente eu vi que alguma coisa havia ali o vento soprando sobre mim era como se o vento soprasse em minhas costas chegando de onde ele estava e eu não soprava no quarto e Vardaman dormia e todos os outros atrás debaixo de mim avançando qual pedaço de seda fria por entre minhas pernas nuas Sai um vento frio dos pinheiros, um som triste e continuo. New Hope. Faltam cinco quilômetros. Faltam cinco quilômetros. Eu acredito em Deus eu acredito em Deus.
Por que não vamos a New Hope, Pai?”, pergunta Vardaman “Mr. Samson disse que íamos, mas já passamos pela estrada.”
Darl diz: “Olhe, Jewel.” Mas sem olhar para mim. Está olhando o céu. O bútio está tão quieto que parece cravado no céu.
Viramos para o caminho de Tull. Passamos o celeiro e continuamos, as rodas murmurando na lama, deixando atrás os renques verdes de algodão na terra selvagem, e Vernon que diminui no meio do campo atrás do arado. Ele levanta a mão quando passamos e fica a olhar muito tempo para nós.
Olhe, Jewel”, diz Darl. Jewel está sentado no cavalo como se os dois fossem feitos de madeira, e olha firme, em frente.
Eu creio em Deus. Deus. Deus. Eu creio em Deus.

William Faulkner, em Enquanto Agonizo

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