Drake
– Ao ouro dos galeões! À prata de
Potosí!
Vem o dragão!, gritavam as
mulheres; e tocavam com força os sinos das igrejas. Em três anos,
Francis Drake deu a volta ao mundo. Cruzou o equador duas vezes e
saqueou os mares da Espanha, esvaziando portos e navios do Chile ao
México.
Regressa agora com um barco só e uma
tripulação de dezoito moribundos, mas traz tesouros que multiplicam
por cento e vinte o capital investido na expedição. A rainha
Isabel, principal acionista e autora do plano, converte o pirata em
cavalheiro. Sobre as águas do Tâmisa realiza-se a cerimônia. A
espada que o consagra leva gravada esta frase da rainha: Quem te
golpeia me golpeia, Drake. De joelhos, ele oferece a Sua
Majestade um broche de esmeraldas roubado no Pacífico.
Erguida sobre a névoa e a fuligem,
Isabel está no topo do império que nasce. Ela é filha de Henrique
VIII e Ana Bolena, que por pari-la mulher tinha perdido a cabeça na
torre de Londres. A Rainha Virgem devora seus amantes, trata a murros
suas donzelas de honra e cospe na roupa de seus cortesãos.
Francis Bacon será o filósofo e o
chanceler do novo império e William Shakespeare seu poeta. Francis
Drake, o capitão de seus navios. Desafiador de tempestades, amo das
velas e dos ventos, o pirata Drake sobe na corte como se trepasse
mastros e cordames. Baixinho fornido, de barba de fogo, nasceu na
beira-mar e foi educado no temor a Deus. O mar é sua casa; e nunca
se lança ao assalto sem uma Bíblia apertada contra o peito, debaixo
da casaca.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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