15/08/2025

1580 – Londres

Drake

Ao ouro dos galeões! À prata de Potosí!
Vem o dragão!, gritavam as mulheres; e tocavam com força os sinos das igrejas. Em três anos, Francis Drake deu a volta ao mundo. Cruzou o equador duas vezes e saqueou os mares da Espanha, esvaziando portos e navios do Chile ao México.
Regressa agora com um barco só e uma tripulação de dezoito moribundos, mas traz tesouros que multiplicam por cento e vinte o capital investido na expedição. A rainha Isabel, principal acionista e autora do plano, converte o pirata em cavalheiro. Sobre as águas do Tâmisa realiza-se a cerimônia. A espada que o consagra leva gravada esta frase da rainha: Quem te golpeia me golpeia, Drake. De joelhos, ele oferece a Sua Majestade um broche de esmeraldas roubado no Pacífico.
Erguida sobre a névoa e a fuligem, Isabel está no topo do império que nasce. Ela é filha de Henrique VIII e Ana Bolena, que por pari-la mulher tinha perdido a cabeça na torre de Londres. A Rainha Virgem devora seus amantes, trata a murros suas donzelas de honra e cospe na roupa de seus cortesãos.
Francis Bacon será o filósofo e o chanceler do novo império e William Shakespeare seu poeta. Francis Drake, o capitão de seus navios. Desafiador de tempestades, amo das velas e dos ventos, o pirata Drake sobe na corte como se trepasse mastros e cordames. Baixinho fornido, de barba de fogo, nasceu na beira-mar e foi educado no temor a Deus. O mar é sua casa; e nunca se lança ao assalto sem uma Bíblia apertada contra o peito, debaixo da casaca.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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