[…]
Aquilo
pedia que Deus mesmo viesse, carnal, em seus avessos, os olhos
formados. Nós rogávamos as pragas. Ah, mas a fé nem vê a desordem
ao redor. Acho que Deus não quer consertar nada a não ser pelo
completo contrato! Deus é uma plantação. A gente ― e as areias.
Aturado o que se pegou a ouvir, eram aqueles assombrados rinchos, de
corposo sofrimento, aquele rinchado medonho dos cavalos em
meia-morte, que era a espada de aflição! e carecia de alguém ir,
para, com pontaria caridosa, em um e um, com a dramada deles acabar,
apagar o centro daquela dór. Mas não podíamos! O senhor escutar e
saber ― os cavalos em sangue e espuma vermelha, esbarrando uns nos
outros, para morrer e não morrer, e o rinchar era um choro alargado,
despregado, uma voz deles, que levantava os couros, mesmo uma voz de
coisas da gente: os cavalos estavam sofrendo com urgência, eles não
entendiam a dór também. Antes estavam perguntando por piedade.
― Arre,
eu vou lá, eu vou lá, livrar da vida os pobrezinhos!... ― foi o
que o Fafafa bramou. Mas não deixamos, porque isso consumava
loucura. Não dava dois passos no eirado, e ele morria fuzilamento,
em balas se varava, ah. Agarramos segurado o Fafafa. A gente tinha de
parar presa dentro de casa, combatendo no possível, enquanto a
ruindade enorme acontecia. O senhor não sabe: rincho de cavalo
padecente assim, de repente engrossa e acusa buracões profundos, e
às vezes dão ronco quase de porco, ou que desafina, esfregante,
traz a dana deles no senhor, as dóres, e se pensa que eles viraram
outra qualidade de bichos, excomungadamente. O senhor abre a boca, o
pêlo da gente se arrupêia de total gastura, o sobregêlo. E quando
a gente ouve uma porção de animais, se ser, em grande martírio, a
menção na ideia é a de que o mundo pode se acabar. Ah, que é que
o bicho fez, que é que o bicho paga? Ficamos naquelas solidões.
Alembrar que tão bonitos, tão bons, inda ora há pouco esses eram,
cavalinhos nossos, sertanejos, e que agora estraçalhados daquela
maneira não tinham nosso socórro. Não podíamos! E que era que
queriam esses hermógenes? De certo seria tenção deles deixar
aqueles relinchos infelizes em roda da gente, dia-e-noite,
noite-e-dia, dia-e-noite, para não se aguentar, no fim de alguma
hora, e se entrar no inferno? Senhor então visse Zé Bebelo: ele
terrivelmente todo pensava ― feito o carro e os bois se
desarrancando num atoleiro. Mesmo mestremente ele comandava! ―
Apuremos fogo... Abaixado... ―; fogo, daqui, dali, em ira de
compaixão. Adiantava nada. Com pranchas de munição que a gente
gastasse, não alcançávamos de valer aos animais, com o curral
naquela distância. Atirar de salva, no inimigo amoitado, não
rendia. No que se estava, se estava! o despoder da gente. O duro do
dia. A pois, então, me subi para fora do real; rezei! Sabe o senhor
como rezei? Assim foi! que Deus era fortíssimo exato ― mas só na
segunda parte; e que eu esperava, esperava, esperava, como até as
pedras esperam. A faz mal, não faz mal, não tem cavalo rinchando
nenhum, não são os cavalos todos que estão rinchando ― quem está
rinchando desgraçado é o Hermógenes, nas peles de dentro, no
sombrio do corpo, no arranhar dos órgãos, como um dia vai ser, por
meu conforme... Assim, d’hoje-em-diante doravante, sempre temos de
ser! ele o Hermógenes, meu de morte ― eu militão, ele
guerreiro... Assim o relincho em restos, trescortado. Aqueles cavalos
suavam de derradeira dôr.
Agarrávamos
o Fafafa, segurado, disse ao senhor. Mas, mais de repente, o Marruaz
disse! ― A bom, vigia! olha lá... O que era. Que eles ― quem
havia de não crer? ― que eles mesmos agora estavam atirando por
misericórdia nos cavalos sobreferidos, para a eles dar paz. Ao que
estavam. ― As graças a Deus!... ― exclamou Zé Bebelo, alumiado,
com um alívio de homem bom.
Ah,
é marmo! ― o Alaripe exclamou também. Mas o Fafafa nem nada não
disse, não conseguia! o quanto pôde, se assentou no chão, com as
duas mãos apertando os lados da cara, e cheio chorou, feito criança
― com todo o nosso respeito, com a valentia ele agora se chorava.
Aí,
então, se esperou. Durado de um certo tempo, descansamos os rifles,
nem um tirozinho não se deu. O intervalo para deixar a eles folga de
matarem em definitivo nossos pobres cavalos. Mesmo quando o arraso do
último rincho no ar se desfez de vez, a gente ainda se estarrecia
quietos, um tempo grande, mais prazo ― até que o som e o silêncio,
e a lembrança daquele sofrer, pudessem se enralecer embora, para
algum longe. Daí, depois, tudo recomeçou de novo, em mais bravo. E
nisto, que conto ao senhor, se vê o sertão do mundo. Que Deus
existe, sim, devagarinho, depressa. Ele existe ― mas quase só por
intermédio da ação das pessoas: de bons e maus. Coisas imensas no
mundo. O grande-sertão é a forte arma. Deus é um gatilho?
Mas
conto menos do que foi: a meio, por em dobro não contar. Assim seja
que o senhor uma ideia se faça. Altas misérias nossas. Mesmo eu ―
que, o senhor já viu, reviro retentiva com espelho cem-dobro de
lumes, e tudo, graúdo e miúdo, guardo ― mesmo eu não acerto no
descrever o que se passou assim, passamos, cercados guerreantes
dentro da Casa dosTucanos, pelas balas dos capangas do Hermógenes,
por causa. Vá de retro! ― nanje os dias e as noites não recordo.
Digo os seis, e acho que minto; se der por os cinco ou quatro, não
minto mais? Só foi um tempo. Só que alargou demora de anos ― às
vezes achei; ou às vezes também, por diverso sentir, acho que se
perpassou, no zúo de um minuto mito: briga de beija-flór. Agora,
que mais idoso me vejo, e quanto mais remoto aquilo reside, a
lembrança demuda de valor ― se transforma, se compõe, em uma
espécie de decorrido formoso. Consegui o pensar direito: penso como
um rio tanto anda: que as árvores das beiradas mal nem vejo... Quem
me entende? O que eu queira. Os fatos passados obedecem à gente; os
em vir, também. Só o poder do presente é que é furiável? Não.
Esse obedece igual ― e é o que é. Isto, já aprendi. A bobeia?
Pois, de mim, isto o que é, o senhor saiba ― é lavar ouro. Então,
onde é que está a verdadeira lâmpada de Deus, a lisa e real
verdade?
A
ser que aqueles dias e noites se entupiram emendados, num ataranto,
servindo para a terrível coisa, só. Aí era um tempo no tempo. A
gente povoava um alvo encoberto, confinado. O senhor sabe o que é se
caber estabelecido dessa constante maneira? Se deram não sei os
quantos mil tiros! isso nas minhas orêlhas aumentou ― o que azoava
sempre e zinia, pipocava, proprial, estralejava. Assentes o reboco e
os vedos, as linhas e têlhas da antiga casarona alheia, era o que
para a gente antepunha defesa. Um pudesse narrar ― falo para o
senhor crer ― que a casagrande toda ressentia, rangendo queixumes,
e em seus escuros paços se esquentava. Ao por mim, hora em que
pensei, eles iam acabar arriando tudo, aquela fazenda em quadradão.
Não foi. Não foi, como logo o senhor vai ver. Porque, o que o
senhor vai é ― ouvir toda a estória contada.
Morreu
mais o Berósio. Morreu o Cajueiro. O Moçambicão e Quim Queiroz,
para a gente se sortir, traziam as quantidades de balas. Rente Zé
Bebelo andava em toda a parte, mandando se atirar economizado e
certeiro. ― Ah, oé, meus filhos! não vão desperdiçar. Matem só
gente viva! ― ele trestampava ― ...E coragem, e quépe-te! que o
morto morrido e matado não agride mais... Aí cada um gritava para
os outros valentia de exclamação, para que o medo não houvesse. Aí
os judas xingávamos. Para não se ter medo? Ah, para não se ter
medo é que se vai à raiva. A sêbo! De dôr do calor de inchação,
aquele meu braço sempre piorava. Alaripe me cedeu, de bondoso, uma
vasilha com água fria, carreou para mim; em entremeio de atirar, eu
molhava bem um pano, torcia por cima do braço, o gotejado frescor de
alívio. Um companheiro sempre me ajudando, conforme agradeci. Um
urucuiano, daqueles cinco urucuianos de Zé Bebelo. Isso, no
instante, estranhei. Notei, de repente! aquele homem, fazia tempo que
não se arredava de mim, sempre me seguindo, por perto.
Solevei
uma desconfiança. Sempre o vulto presente daquele homem; seria só
por acasos? O urucuiano, deles, que o Salústio se chamava. O que
tinha os olhos miudinhos em cara redonda, boca mole e sete fios de
barba compridos no queixo. Arreliado falei: ― Quê que é? Tu
amigou comigo?! Tatú ― tua casa... ― para ele. Semi-sério ele
se riu. Comparsa urucuiano dos olhos verdes, homem muito feioso.
Ainda nada não disse, coçou a barriga com as costas dobradas da mão
― gesto de urucuiano. Eu bati com a minha mão direita por cima da
canhota, que pegava o rifle, e deixei deixada ― gesto de jagunço.
Apertei com ele: ― Ao que me quer? Me deu resposta: ― Ao assistir
o senhor, sua bizarrice... O senhor é atirador! E no junto do que
sabe bem, que a gente aprende o melhor... A verdade com que ele me
louvava. Se riu, muito sincero. Não desgostei da companhia dele,
para os bastantes silêncios. Assim é o que digo: que, quando o
tiroteio batia forte, de lá, e daí de repente estiava ― aquilo
servia um pesado, salteção. Surdo pensei: aqueles hermógenes eram
gente em tal como nós, até pouquinho tempo reunidos companheiros,
se diz ― irmãos; e agora se atravavam, naquela vontade de
desigualar. Mas, por que? Então o mundo era muita doideira e pouca
razão? De perto, a doideira não se figurava transcrita. Pois o
urucuiano Salústio João mais olhei. Ali, ajoelhado, ele mirava e
atirava. Atirava e fechava os olhos. Quando abria outra vez, queria
ver alguém vivo?
[...]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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