quarta-feira, 23 de julho de 2025

1574 – Cidade do México

O primeiro auto de fé no México

Desde que os pregoneiros difundiram o edital das delações choveram denúncias contra hereges e bígamos e bruxas e blasfemos.
Celebra-se o auto de fé no primeiro domingo da Quaresma. Desde que sai o sol até que apareça a noite, o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição dita as sentenças contra os espantalhos arrancados das celas e das câmaras de tortura. Os verdugos trabalham no alto do tablado suntuoso, rodeados de lanças e ovações da multidão. Não há memória de tanta multidão que tenha acudido a nenhum regozijo público nem a outra coisa de muito grande solenidade que na terra tenha sido oferecida, diz o vice-rei da Nova Espanha, que assiste ao espetáculo sentado em poltrona de veludo e com almofadinha aos seus pés.
Aplica-se o castigo de vela, corda, mordaça, abjuração de levi e entre cem e duzentos açoites a um prateiro, um fazedor de facas, um dourador, um escrivão e um sapateiro por ter dito que a simples fornicação não era pecado mortal. Penas semelhantes sofrem vários bígamos, e entre eles o frade Agostinho Juan Sarmiento, que com as costas em carne viva vai remar galeras durante cinco anos.
Cem açoites recebem o negro Domingo, nascido aqui, porque tem o costume de renegar a Deus, e Miguel Franco, mestiço, porque fazia que sua mulher se confessasse com ele. Outros cem o boticário sevilhano Gaspar de los Reyes, por ter dito que era melhor estar amancebado que casado e que aos pobres e aflitos era lícito cometer perjúrio por dinheiro.
A remar galeras, duro cárcere de travessos, vão vários luteranos e judeus que no leite mamaram sua heresia, uns quantos ingleses da armada do pirata John Hawkins e um francês que chamava de poltrões o Papa e o Rei.
Nas fogueiras acabam seus hereges dias um inglês das minas de Guanajuato e um barbeiro francês de Yucatán.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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