O
primeiro auto de fé no México
Desde
que os pregoneiros difundiram o edital das delações choveram
denúncias contra hereges e bígamos e bruxas e blasfemos.
Celebra-se
o auto de fé no primeiro domingo da Quaresma. Desde que sai o sol
até que apareça a noite, o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição
dita as sentenças contra os espantalhos arrancados das celas e das
câmaras de tortura. Os verdugos trabalham no alto do tablado
suntuoso, rodeados de lanças e ovações da multidão. Não há
memória de tanta multidão que tenha acudido a nenhum regozijo
público nem a outra coisa de muito grande solenidade que na terra
tenha sido oferecida, diz o vice-rei da Nova Espanha, que assiste
ao espetáculo sentado em poltrona de veludo e com almofadinha aos
seus pés.
Aplica-se
o castigo de vela, corda, mordaça, abjuração de levi e
entre cem e duzentos açoites a um prateiro, um fazedor de facas, um
dourador, um escrivão e um sapateiro por ter dito que a simples
fornicação não era pecado mortal. Penas semelhantes sofrem
vários bígamos, e entre eles o frade Agostinho Juan Sarmiento, que
com as costas em carne viva vai remar galeras durante cinco anos.
Cem
açoites recebem o negro Domingo, nascido aqui, porque tem o
costume de renegar a Deus, e Miguel Franco, mestiço, porque
fazia que sua mulher se confessasse com ele. Outros cem o
boticário sevilhano Gaspar de los Reyes, por ter dito que era
melhor estar amancebado que casado e que aos pobres e aflitos era
lícito cometer perjúrio por dinheiro.
A
remar galeras, duro cárcere de travessos, vão vários
luteranos e judeus que no leite mamaram sua heresia, uns quantos
ingleses da armada do pirata John Hawkins e um francês que
chamava de poltrões o Papa e o Rei.
Nas
fogueiras acabam seus hereges dias um inglês das minas de Guanajuato
e um barbeiro francês de Yucatán.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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