quinta-feira, 27 de março de 2025

Pintura III

Sempre compreendo o que faço depois que já fiz.

O que sempre faço nem seja uma aplicação de

estudos. É sempre uma descoberta. Não é nada

procurado. É achado mesmo. Como se andasse num

brejo e desse no sapo. Acho que é defeito de

nascença isso. Igual como a gente nascesse de

quatro olhares ou de quatro orelhas. Um dia tentei

desenhar as formas da Manhã sem lápis. Já pensou?

Por primeiro havia que humanizar a Manhã.

Torná-la biológica. Fazê-la mulher. Antesmente

eu tentara coisificar as pessoas e humanizar as

coisas. Porém humanizar o tempo! Uma parte do

tempo? Era dose. Entretanto eu tentei. Pintei sem

lápis a Manhã de pernas abertas para o Sol. A

manhã era mulher e estava de pernas abertas para

o sol. Na ocasião eu aprendera em Vieira (Padre

Antônio, 1604, Lisboa) eu aprendera que as

imagens pintadas com palavras eram para se ver de

ouvir. Então seria o caso de se ouvir a frase pra

se enxergar a Manhã de pernas abertas? Estava

humanizada essa beleza de tempo. E com os seus

passarinhos, e as águas e o Sol a fecundar o

trecho. Arrisquei fazer isso com a Manhã, na cega.

Depois que meu avô me ensinou que eu pintara a

imagem erótica da Manhã. Isso fora.

Manoel de Barros, em Memórias Inventadas A segunda infância

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