terça-feira, 4 de março de 2025

"Cuadernos" de Torrente

Quando li os Cuadernos de Torrente, imaginei La Romana como uma espécie de Subiaco galego, um ermitério meio enterrado numa cova húmida, entre musgos milenários e nevoeiros de Elsinor, onde o escritor, como outro agrilhoado Prometeu, estaria lutando contra o abutre da solidão e do reumatismo. A culpa tinha-a Torrente, que, página sim, página não, irritadamente se queixava do seu destino e da má ideia que havia tido de recolher-se à Ramalhosa, que esse é o nome da aldeia. Afinal, La Romana é, em casa, o que de mais normal se pode encontrar, burguesmente geminada, discreta, rodeada de buganvílias e, pelo menos nestes dias de Verão, um aprazível lugar para viver, sem mais brumas do que aquelas, vaporosas, graças às quais se pode, ainda hoje, ver dançar as fadas. Encontrámos Gonzalo emagrecido, pálido, torcido o corpo mais que de costume, menos forte a voz, mas com a tranquila e íntima certeza de que tudo não passa de um mau bocado, como outros que viveu antes, e de que não tardará a deitar mãos ao trabalho. À tarde, no auditório, amparado por dois dos filhos, aplaudem-no em lágrimas. Eu li a minha breve conferência e comovi-me como toda a gente.

José Saramago, em Cadernos de Lanzarote

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