domingo, 2 de março de 2025

1558 – Yuste

Quem sou, quem terei sido?

Respirar é uma façanha e a cabeça arde. Já não caminham os pés, inchados pela gota. Deitado no terraço, o que foi monarca da metade do mundo espanta os bufões e contempla o crepúsculo neste vale da Extremadura. O sol já se vai, além da serra roxa, e os últimos reflexos pintam de vermelho as sombras sobre o convento dos jerônimos.
Com passo de vencedor entrou em muitas cidades. Foi aclamado e odiado. Muitos deram a vida por ele; e a muitos mais arrancaram a vida em seu nome. Depois de quarenta anos de viajar e lutar, o mais alto prisioneiro de seu próprio império quer descanso e esquecimento. Hoje fez que celebrassem uma missa de requiém por si próprio. Quem sou, quem terei sido? Pelo espelho, viu entrar a morte. O que mente ou o mentido?
Entre batalha e batalha, à luz das fogueiras, assinou mais de quatrocentos empréstimos com banqueiros alemães, genoveses e flamengos, e nunca trouxeram bastante ouro e prata os galeões da América. Ele que tanto amava a música escutou mais estrondos de canhões e cavalos que melodias de alaúdes; e no fim de tanta guerra seu filho, Felipe, herda um império em bancarrota.
Através da névoa, pelo norte, Carlos tinha chegado à Espanha aos dezessete anos, seguido por seu séquito de mercadores flamengos e banqueiros alemães, em uma infinita caravana de carretas e cavalos. Naquele então ele não sabia nem cumprimentar na língua de Castilha. Mas amanhã escolherá esta língua para despedir-se:
Ai, Jesus! – serão suas últimas palavras.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Nenhum comentário:

Postar um comentário