sábado, 1 de fevereiro de 2025

Os de couro


Iguais também as montadas, os cavalos conclins: rabilongos cavalos de campo, miúdos mas educados — “fábricas”, “campeões”, cow-horses, chevaux de taureau, chevaux de bouvine — bem repartidos, animais de alma nobre e corpo robusto, como os que cavalgam os cossacos e os que escolhia Xenofonte.
Tudo couro.
Em arnês e jaez, arreio e aprestos, bailada a peiteira amplial, no fixo os tapa-joelhos, cara abaixo o tira-testa, sobrantes as gualdrapas e o traseiro xaréu de sobreanca, resto de caparazão — os cavalos anacrônicos se emplacam, remedando rinocerontes.
E, nos cavaleiros, o imbricado, impressionante repetir-se dos “couros”, laudel completo: guarda-pés, como escarpes; grevas estrictas, encanando coxa e perna; joelheiras de enforço; coletes assentados; guarda-peitos; peitos-de-armas; os gibões; os chapelões; e manoplas que são menos luvas que toscos escudos para as mãos. Tudo encardido, concolor, monocrômico, em curtido de mateiro, guatapará, suassuapara, bode, sola ou vaqueta, cabedais silvestres.
De um só couro são as rédeas, os homens, as bardas, as roupas e os animais — como num epigrama.
Que os tapuios, dito por Fernão Cardim, eram “senhores dos matos selvagens, muito encorpados, e pela continuação e costume de andarem pelos matos bravos têm os couros muito rijos, e para este efeito açoutam os meninos em pequenos com uns cardos para se acostumarem a andar pelos matos bravos”.
Do mesmo jeito estes vieram da caatinga tórrida, hórrida, que é pedra e cacto e agressivo garrancho, e o retombado escorrer do espinhal, o desgrém de um espinheiro só, tranço de cabelos da terra morta ou reptar de monstro hirsuto, feito em pique, farpa, flecha, unha e faca.
E são de couro.
Surgiram da “idade do couro”.
Os “encourados”.
Homo coriaceus: uma variedade humana.

Guimarães Rosa, em Pé-duro, chapéu-de-couro

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