Iguais
também as montadas, os cavalos conclins: rabilongos cavalos de
campo, miúdos mas educados — “fábricas”, “campeões”,
cow-horses, chevaux de taureau, chevaux de bouvine — bem
repartidos, animais de alma nobre e corpo robusto, como os que
cavalgam os cossacos e os que escolhia Xenofonte.
Tudo
couro.
Em
arnês e jaez, arreio e aprestos, bailada a peiteira amplial, no fixo
os tapa-joelhos, cara abaixo o tira-testa, sobrantes as gualdrapas e
o traseiro xaréu de sobreanca, resto de caparazão — os
cavalos anacrônicos se emplacam, remedando rinocerontes.
E,
nos cavaleiros, o imbricado, impressionante repetir-se dos “couros”,
laudel completo: guarda-pés, como escarpes; grevas estrictas,
encanando coxa e perna; joelheiras de enforço; coletes assentados;
guarda-peitos; peitos-de-armas; os gibões; os chapelões; e manoplas
que são menos luvas que toscos escudos para as mãos. Tudo
encardido, concolor, monocrômico, em curtido de mateiro, guatapará,
suassuapara, bode, sola ou vaqueta, cabedais silvestres.
De
um só couro são as rédeas, os homens, as bardas, as roupas e os
animais — como num epigrama.
Que
os tapuios, dito por Fernão Cardim, eram “senhores dos matos
selvagens, muito encorpados, e pela continuação e costume de
andarem pelos matos bravos têm os couros muito rijos, e para este
efeito açoutam os meninos em pequenos com uns cardos para se
acostumarem a andar pelos matos bravos”.
Do
mesmo jeito estes vieram da caatinga tórrida, hórrida, que é pedra
e cacto e agressivo garrancho, e o retombado escorrer do espinhal, o
desgrém de um espinheiro só, tranço de cabelos da terra morta ou
reptar de monstro hirsuto, feito em pique, farpa, flecha, unha e
faca.
E
são de couro.
Surgiram
da “idade do couro”.
Os
“encourados”.
Homo
coriaceus: uma variedade humana.
Guimarães Rosa, em Pé-duro, chapéu-de-couro

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