Possível
representação de Gilgamés como Mestre dos Animais, agarrando um
leão no seu braço esquerdo e uma cobra na mão direita, encontrada
em Dur Sarruquim (Fonte: Wikipédia)
Gilgamesh,
dois terços deus, um terço homem, vivia em Erech.
Invencível
entre os guerreiros, governava com mão de ferro; os jovens o serviam
e ele não deixava incólume uma só donzela. O povo rogou a proteção
divina, e o senhor do firmamento ordenou a Aruru (a deusa que havia
modelado o primeiro homem com argila) que modelasse um ser capaz de
enfrentar Gilgamesh e tranquilizar seu povo.
Aruru
formou uma criatura a quem deu o nome de Enkidu. Era peludo, tinha
longas trancas, cobria-se com peles, vivia com as feras e comia erva.
Dedicou-se, também, a destroçar armadilhas e a salvar animais.
Quando Gilgamesh se inteirou disso, ordenou que se enviasse a ele uma
donzela nua. Enkidu possuiu-a durante sete dias e sete noites, no
final das quais as gazelas e as feras o desconheceram e ele notou que
suas pernas já não eram tão ligeiras. Havia-se transformado em
homem.
A
menina achou que Enkidu se tinha tornado formoso.
Convidou-o
a conhecer o templo resplandecente onde o deus e a deusa se sentavam
juntos, assim como toda a Erech, onde Gilgamesh imperava.
Na
véspera do ano novo Gilgamesh preparava-se para a cerimônia da
hierogamia quando apareceu Enkidu e o desafiou. A multidão, embora
surpreendida, sentiu-se aliviada.
Gilgamesh
havia sonhado que estava de pé sob as estrelas, quando do firmamento
caía sobre ele um dardo que não se podia arrancar. Depois, uma
tocha enorme se incrustava no centro da cidade.
Sua
mãe lhe disse que o sonho previa a chegada de um homem mais forte do
que ele e que se tornaria seu amigo. Lutaram os dois e Gilgamesh foi
atirado ao pó por Enkidu, que compreendeu, todavia, que seu
contendor não era um tirano jatancioso e sim um valente que não se
desviava. Levantou-o, abraçou-o e ambos firmaram amizade.
Espírito
aventureiro, Gilgamesh propôs a Enkidu cortar um dos cedros do
bosque sagrado. “Não é fácil — respondeu-lhe este — pois
está guardado pelo monstro Humbaba, de voz de trovão, e com um olho
único cuja mirada petrifica a quem observa; vomita fogo e seu hálito
é uma praga”.
“Que
dirás aos teus filhos quando eles te perguntarem o que fazias no dia
em que tombou Gilgamesh?”
Isto
convenceu Enkidu.
Gilgamesh
contou seu plano aos anciãos, ao deus do sol, à sua própria mãe,
à rainha celestial Ninsun, e todos o desaprovaram.
Ninsun,
que conhecia a teimosia de seu filho, pediu para ele a proteção do
deus do sol e a obteve. Então, nomeou Enkidu seu guarda de honra.
Gilgamesh
e Enkidu chegaram a floresta dos cedros. O sono venceu-os; O primeiro
sonhou que uma montanha desabava sobre ele, quando um homem bem
apessoado liberou-o da pesada carga e ajudou-o a pôr-se de pé.
Disse
Enkidu: — Está claro que derrotaremos Humbaba.
Enkidu
por sua vez sonhou que o céu retumbava e a terra estremecia, que
imperavam as trevas, que caía um raio e ocorria um incêndio e que a
morte chovia do céu, até que a resplandecência diminuiu, apagou-se
o fogo e as centelhas caídas se transformaram em cinza.
Gilgamesh
interpretou isto como uma mensagem adversa, porém convidou Enkidu a
continuar. Derrubou um dos cedros, e Humbaba se preciptiou sobre
eles. Pela primeira vez Gilgamesh sentiu medo. Os dois amigos, porém,
dominaram o monstro e lhe cortaram a cabeça.
Gilgamesh
limpou-se da poeira e vestiu suas roupas reais. A deusa Istar
apresentou-se a ele e pediu que fosse seu amante, prometendo cobri-lo
de riquezas e rodeá-lo de deleites. Mas Gilgamesh conhecia a
traidora e inflexível Istar, assassina de Tammuz e de inumeráveis
amantes. Despeitada, Istar pediu a seu pai que lançasse à terra o
touro celestial, e ameaçou romper as portas do inferno e deixar que
os mortos sobrepujassem os vivos.
— Quando
o touro desça dos céus, sete anos de miséria e de fome cobrirão a
terra. Previste isto?
Istar
respondeu que sim.
O
touro então foi lançado à terra. Enkidu torceu-o pelos chifres e
lhe cravou a espada no pescoço. Junto com Gilgamesh, arrancou o
coração do animal e ofertou-o ao deus do sol.
Das
muralhas de Erech, Istar presenciava a luta. Saltou por cima dos
baluartes e amaldiçoou Gilgamesh. Enkidu arrancou as nádegas do
touro, atirando-as no rosto da deusa.
— Gostaria
de fazer-te o mesmo!
Istar
foi derrotada e o povo aclamou os matadores do touro celestial. Mas
não é possível zombar dos deuses.
Enkidu
sonhou que os deuses estavam reunidos em assembleia, deliberando
sobre quem seria o maior culpado, se ele ou Gilgamesh, da morte de
Humbaba e do touro celestial. O principal culpado morreria.
Como
não chegavam a um acordo, Anu, o pai dos deuses, disse que
Gilgamesh, não apenas tinha matado o touro, como também tinha
cortado o cedro. A discussão tornou-se violenta e os deuses se
insultaram uns aos outros. Enkidu despertou sem conhecer o veredicto.
Narrou
seu sonho a Gilgamesh e durante a longa insônia que se seguiu
recordou sua despreocupada vida animal. Mas lhe pareceu ouvir vozes
que o consolavam.
Várias
noites depois tornou a sonhar. Um forte grito chegava do céu até a
terra e uma espantosa criatura com cara de leão e asas e garras de
águia o apresava e o levava ao vazio. Saíram-lhe plumas dos braços
e começou a parecer-se com o ser que o levava. Compreendeu que havia
morrido e que uma harpia o arrastava por um caminho sem volta.
Chegaram à mansão das trevas, onde as almas dos grandes da terra o
rodearam. Eram desajeitados demônios com asas emplumadas, que se
alimentavam de restos. A rainha do inferno lia em suas tábuas e
pesava os antecedentes dos mortos.
Quando
despertou, os dois amigos se inteiraram, do veredicto dos deuses. E
Gilgamesh cobriu o rosto de seu amigo com um véu e, com grande dor
pensou: Agora já vi o rosto da morte.
Em
uma ilha nos confins da terra vivia Utnapishtin, um homem muito,
muito velho, o único mortal que havia conseguido escapar da morte.
Gilgamesh decidiu buscá-lo e aprender com ele o segredo da vida
eterna.
Chegou
ao fim do mundo, onde uma altíssima montanha elevava seus picos
gêmeos ao firmamento e enfiava suas raízes nos infernos.
Um
portão era guardado por criaturas terríveis e perigosas, metade
homem, metade escorpião. Avançou decidido e disse aos monstros que
ia em busca de Utnapishtin.
— Ninguém
jamais chegou até ele nem logrou conhecer o segredo da vida eterna.
Guardamos o caminho do sol, que nenhum mortal pode transitar.
— Eu
o farei — disse Gilgamesh. E os monstros, compreendendo que se
tratava de um mortal não comum, deixaram-no passar.
Penetrou
Gilgamesh; o túnel se fazia cada vez mais escuro, até que um ar lhe
chegou ao rosto e entreviu uma luz. Quando saiu a elá, encontrou-se
em um jardim encantado, onde resplandeciam pedras preciosas.
A
voz do deus do sol chegou até ele. Encontrava-se nos jardins das
delícias e desfrutava de uma graça que os deuses não haviam
outorgado a nenhum mortal. “Não esperes alcançar mais”.
Gilgamesh,
porém avançou além do paraíso, até que, cansado, chegou a uma
pousada. A estalajadeira Siduri confundiu-o com um vagabundo, mas o
viajante se deu a conhecer e contou seu propósito.
— Gilgamesh,
nunca encontrarás o que buscas. Os deuses criaram os homens e lhe
deram a morte por destino; para eles mesmos reservaram a vida.
Saberás que Utnapishtin vive em uma ilha longínqua, além do oceano
da morte. Mas eis aqui Urshanabi, seu barqueiro, que se encontra na
pousada.
Tanto
insistiu Gilgamesh, que Urshanabi concordou em transportá-lo, não
sem antes preveni-lo de que por nenhum motivo tocasse as águas do
oceano.
Muniram-se
de cento e vinte varas, mas foi necessário que Gilgamesh utilizasse
sua camisa como vela.
Quando
chegaram, Utnapishtin lhe disse: — Ah, jovem, nada há de eterno na
terra. A mariposa vive somente um dia. Tudo tem seu tempo e época.
Mas eis aqui meu segredo, somente conhecido dos deuses.
E
lhe contou a história do dilúvio. O bondoso Ea o havia prevenido, e
Utnapishtin construiu uma arca na qual embarcou com sua família e
seus animais. Em meio à tempestade navegaram sete dias, e a barca
encalhou no topo de uma montanha. Soltou uma pomba para ver se as
águas haviam baixado, porém a ave voltou por não encontrar onde
pousar. O mesmo ocorreu com uma andorinha. O corvo, porém, não
regressou. Desembarcaram e fizeram oferendas aos deuses, porém o
deus dos ventos os fez reembarcar e os conduzir até onde estavam
agora, para que aí morassem eternamente.
Gilgamesh
compreendeu que o ancião não tinha nenhuma fórmula para lhe dar.
Era imortal, mas somente por um favor único dos deuses. O que
Gilgamesh buscava não poderia ser achado deste lado da sepultura.
Antes
de despedir-se, o velho disse ao herói onde poderia achar uma
estrela do mar com espinhos de rosa. A planta concedia a quem a
saboreasse uma nova juventude! Gilgamesh obteve-a do fundo do oceano,
porém quando descansava de seu esforço, uma serpente a roubou,
comeu-a, desprendeu-se de sua velha pele e recobrou a juventude.
Gilgamesh
compreendeu que seu destino não diferia do destino do resto da
humanidade e regressou a Erech.
Conto babilônico do segundo milênio A.C., em Livro de Sonhos, de Jorge Luís Borges

Nenhum comentário:
Postar um comentário