5.
Tenho
diante de mim as duas páginas grandes do livro pesado; ergo da sua
inclinação na carteira velha, com os olhos cansados, uma alma mais
cansada do que os olhos. Para além do nada que isto representa, o
armazém, até à Rua dos Douradores, enfileira as prateleiras
regulares, os empregados regulares, a ordem humana e o sossego do
vulgar. Na vidraça há o ruído do diverso, e o ruído diverso é
vulgar, como o sossego que está ao pé das prateleiras.
Baixo
olhos novos sobre as duas páginas brancas, em que os meus números
cuidadosos puseram resultados da sociedade. E, com um sorriso que
guardo para meu, lembro que a vida, que tem estas páginas com nomes
de fazendas e dinheiro, com os seus brancos, e os seus traços a
régua e de letra, inclui também os grandes navegadores, os grandes
santos, os poetas de todas as eras, todos eles sem escrita, a vasta
prole expulsa dos que fazem a valia do mundo.
No
próprio registo de um tecido que não sei o que seja se me abrem as
portas do Indo e de Samarcanda, e a poesia da Pérsia, que não é de
um lugar nem de outro, faz das suas quadras, desrimadas no terceiro
verso, um apoio longínquo para o meu desassossego. Mas não me
engano, escrevo, somo, e a escrita segue, feita normalmente por um
empregado deste escritório.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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