3.
Amo,
pelas tardes demoradas de verão, o sossego da cidade baixa, e
sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia
mergulha em mais bulício. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o
prolongamento das ruas tristes que se alastram para leste desde que a
da Alfândega cessa, toda a linha separada dos cais quedos — tudo
isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na
solidão do seu conjunto. Vivo uma era anterior àquela em que vivo;
gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não
outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que
foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida
parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício
que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de
bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou
eu. Não há diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega,
salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha,
ante o que e a essência das coisas. Há um destino igual, porque é
abstrato, para os homens e para as coisas — uma designação
igualmente indiferente na álgebra do mistério.
Mas
há mais alguma coisa... Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da
alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao
mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está
no meu poder alterar. Ah, quantas vezes os meus próprios sonhos se
me erguem em coisas, não para me substituírem a realidade, mas para
se me confessarem seus pares em eu os não querer, em me surgirem de
fora, como o elétrico que dá a volta na curva extrema da rua, ou a
voz do apregoador noturno, de não sei que coisa, que se destaca,
toada árabe, como um repuxo súbito, da monotonia do entardecer!
Passam
casais futuros, passam os pares das costureiras, passam rapazes com
pressa de prazer, fumam no seu passeio de sempre os reformados de
tudo, a uma ou outra porta reparam em pouco os vadios parados que são
donos das lojas. Lentos, fortes e fracos, os recrutas sonambulizam em
molhos ora muito ruidosos ora mais que ruidosos. Gente normal surge
de vez em quando. Os automóveis ali a esta hora não são muito
frequentes; esses são musicais. No meu coração há uma paz de
angústia, e o meu sossego é feito de resignação.
Passa
tudo isso, e nada de tudo isso me diz nada, tudo é alheio ao meu
destino, alheio, até, ao destino próprio — inconsciência,
carambas ao despropósito quando o acaso deita pedras, ecos de vozes
incógnitas — salada coletiva da vida.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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