terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Até mais


Adoro ouvir Max dizer alô.
Ligava para ele quando éramos amantes, adúlteros. O telefone tocava, a secretária dele atendia e eu pedia para falar com ele. Alô, ele dizia. Max? Eu ficava tonta, zonza, na cabine telefônica.
Estamos divorciados há muitos anos. Ele é um inválido agora, precisa de oxigênio, cadeira de rodas. Quando eu morava em Oakland, ele me ligava umas cinco ou seis vezes por dia. Max tem insônia: uma vez ele me ligou às três da manhã e perguntou se já tinha amanhecido. Às vezes eu ficava irritada e desligava na mesma hora ou então nem atendia.
Na maior parte do tempo falávamos dos nossos filhos, do nosso neto ou do gato de Max. Eu lixava as unhas, costurava, via o jogo dos Oakland A’s enquanto conversávamos. Ele é engraçado e um grande fofoqueiro.
Estou morando na Cidade do México já faz quase um ano. Minha irmã Sally está muito doente. Eu cuido da casa e dos filhos dela, trago comida para ela, lhe dou injeções e banho. Nós duas ficamos horas conversando, choramos e rimos, nos irritamos com as notícias, nos preocupamos com o filho dela quando ele fica até tarde na rua.
É impressionante como nós duas nos tornamos próximas. Temos passado os dias inteiros juntas há tanto tempo. Vemos e ouvimos coisas da mesma forma, sabemos o que a outra vai dizer…
Eu raramente saio do apartamento. Nenhuma das janelas tem vista aberta para o céu, só para o poço de ventilação do prédio ou para os apartamentos vizinhos. Dá para ver o céu da cama de Sally, mas eu só o vejo quando abro ou fecho as cortinas do quarto dela. Falo espanhol com ela e com os filhos dela, com todo mundo.
Na verdade, Sally e eu não temos mais conversado tanto. Ela sente dor nos pulmões quando fala muito. Eu leio ou canto ou então nós simplesmente ficamos deitadas juntas no escuro, respirando em uníssono.
Tenho a sensação de ter desaparecido. Na semana passada, no mercado de Sonora, eu era tão alta, cercada de índios morenos, muitos deles falando em nauatle. Não só eu tinha desaparecido, como estava invisível. Quer dizer, durante um bom tempo eu achei que nem sequer estava lá.
Claro que eu tenho uma identidade aqui, e uma nova família, novos gatos, novas piadas. Mas fico tentando me lembrar de quem eu era em inglês.
É por isso que fico tão contente quando Max me liga. Ele me telefona bastante, da Califórnia. Alô, ele diz. Conta que tem ouvido Percy Heath, que protestou contra a pena de morte em San Quentin. Nosso filho Keith fez ovos beneditinos para ele no domingo de Páscoa. A mulher de Nathan, Linda, pediu para Max não telefonar tanto para ela. Nosso neto, Nikko, disse que estava pegando no sono sem querer.
Max me fala dos boletins de trânsito e da previsão do tempo, descreve as roupas que aparecem no programa de Elsa Klensch. E me pergunta de Sally.
Em Albuquerque, quando éramos jovens, antes de eu conhecê-lo, eu ouvi Max tocar saxofone, vi Max correr de Porsche no forte Sumter. Todo mundo sabia quem ele era. Era bonito, rico, exótico. Uma vez eu o vi no aeroporto, despedindo-se do pai. Ele deu um beijo de adeus no pai, com lágrimas nos olhos. Eu quero um homem que se despeça do pai com um beijo, pensei.
Quando se está morrendo, é natural fazer um retrospecto da vida, pesar as coisas, sentir arrependimentos. Eu também fiz isso nesses últimos meses, junto com a minha irmã. Nós duas levamos um bom tempo para nos livrarmos da raiva e da ânsia de atribuir culpas. Até as nossas listas de arrependimentos e autorrecriminações estão ficando mais curtas. As listas agora são daquilo que nos resta. Amigos. Lugares. Ela gostaria de poder dançar danzón com o amante dela. Quer ver a parroquia em Veracruz, palmeiras, lanternas ao luar, cachorros e gatos entre os sapatos lustrosos dos dançarinos. Recordamos escolas de uma sala só no Arizona, o céu quando esquiávamos nos Andes.
Ela parou de se preocupar com os filhos, com o que vai ser deles quando ela morrer. Eu provavelmente vou voltar a me preocupar com os meus quando for embora daqui, mas por ora nós simplesmente temos nos deixado ir devagar ao sabor dos ritmos e padrões de cada novo dia. Alguns dias são cheios de dor e vômito, outros são calmos, com uma marimba tocando ao longe, o apito do vendedor de camote à noite…
Não sinto mais remorso por causa do meu alcoolismo. Antes de eu sair da Califórnia, o meu filho mais novo, Joel, veio tomar café da manhã comigo. O mesmo filho de quem eu costumava roubar e que já me disse que eu não era mãe dele. Fiz panquecas de queijo; tomamos café e lemos o jornal, resmungando um com o outro de Rickey Henderson, George Bush. Depois ele foi para o trabalho; me deu um beijo e disse Até mais, mãe. Até mais, eu disse.
No mundo inteiro, mães estão tomando café com os filhos, despedindo-se deles na porta. Será que elas têm noção da gratidão que eu senti, ali parada, acenando? Suspensão da pena.
Eu tinha dezenove anos quando o meu primeiro marido me deixou. Depois me casei com Jude, um homem atencioso, com um senso de humor irônico.
Ele era uma boa pessoa. Queria me ajudar a criar meus dois filhos pequenos.
Max foi nosso padrinho de casamento. Depois da cerimônia, no quintal dos fundos da nossa casa, Jude foi trabalhar — ele tocava piano no bar Al Monte. A outra testemunha, Shirley, minha melhor amiga, foi embora sem dizer quase nada. Ela estava muito contrariada por eu ter me casado com Jude, achava que eu tinha feito isso por desespero.
Max ficou. Depois que as crianças foram dormir, a gente ficou por lá, comendo o bolo do casamento e tomando champanhe. Ele falou sobre a Espanha e eu sobre o Chile. Ele me falou sobre os seus anos em Harvard, com Jude e Creeley. Sobre tocar saxofone quando o bebop estava surgindo. Charlie Parker, Bud Powell, Dizzy Gillespie. Max tinha sido viciado em heroína nesse tempo. Para falar a verdade, eu não sabia o que isso significava. Heroína para mim tinha uma conotação positiva… Jane Eyre, Becky Sharp, Tess.
Jude tocava à noite. Acordava no fim da tarde e praticava, ou ele e Max passavam horas tocando duetos, depois a gente jantava. Então, ele ia para o trabalho. Max me ajudava a lavar a louça e a botar as crianças na cama.
Eu não podia incomodar Jude no trabalho. Quando havia alguém rondando a casa, quando os meninos ficavam doentes, quando um pneu do meu carro furava, era para Max que eu ligava. Alô, ele dizia.
Enfim, um ano depois tivemos um caso. Foi intenso e passional, uma grande confusão. Jude se recusava a falar do assunto. Eu o deixei para ir morar sozinha com as crianças. Jude apareceu e me disse para entrar no carro. Íamos para Nova York, onde Jude ia tocar jazz e nós íamos salvar o nosso casamento.
Nunca falávamos sobre Max. Nós dois trabalhávamos muito em Nova York. Jude praticava e fazia apresentações. Tocou em casamentos no Bronx, em shows de strippers em Nova Jersey até conseguir se sindicalizar. Eu fazia roupas para crianças que eram vendidas até na Bloomingdale’s. Estávamos felizes. Nova York era maravilhosa naquela época. Allen Ginsberg e Ed Dorn lendo na YMCA. A exposição de Mark Rothko no MoMA, durante a grande nevasca. A luz era intensa por causa da neve nas claraboias; as pinturas latejavam. A gente ouvia Bill Evans e Scott LaFaro. John Coltrane no sax soprano. A primeira noite de Ornette no Five Spot.
Durante o dia, enquanto Jude dormia, eu e os meninos passeávamos pela cidade inteira de metrô, saltando em estações diferentes a cada dia. Andamos de barca várias e várias vezes. Uma vez, quando Jude estava tocando no Grossinger’s, acampamos no Central Park. Para você ver como Nova York era agradável na época, ou como eu era idiota… A gente morava na Greenwich Street na altura do Washington Market, perto da Fulton Street.
Jude fez uma caixa de brinquedos vermelha para os meninos, pendurou balanços nos canos do nosso loft. Era paciente e rigoroso com eles. À noite, quando ele chegava em casa, fazíamos amor. Toda raiva, tristeza e afeto que existiam entre nós viravam eletricidade nos nossos corpos. Nunca nada disso era dito em voz alta.
À noite, quando Jude estava no trabalho, eu lia para Ben e Keith, cantava para eles dormirem e depois ia costurar. Ligava para o programa de rádio de Symphony Sid e pedia para ele tocar Charlie Parker e King Pleasure, até que ele me disse para parar de ligar tanto para lá. Os verões eram muito quentes e nós dormíamos no terraço. Os invernos eram frios e não havia aquecimento depois das cinco nem nos fins de semana. Os meninos iam para a cama de luva e protetor de ouvido.
Agora, no México, eu canto músicas de King Pleasure para Sally. “Little Red Top”. “Parker’s Mood”. “Sometimes I’m Happy”.
É horrível quando não há mais nada que se possa fazer.
Em Nova York, quando o telefone tocava à noite, era Max.
Alô, ele dizia.
Ele estava correndo no Havaí. Estava correndo em Wisconsin. Estava vendo televisão e pensou em mim. As íris estavam florescendo no Novo México. Enxurradas repentinas em arroios em agosto. Choupos ficavam amarelos no outono.
Ele ia a Nova York com frequência, para ouvir música, mas eu nunca me encontrei com ele. Ele ligava e me falava de Nova York e eu falava para ele de Nova York. Case comigo, ele dizia, me dê uma razão para viver. Fale comigo, eu dizia, não desligue.

Uma noite, fazia um frio insuportável e Ben e Keith estavam dormindo comigo, vestidos com agasalhos de neve. As persianas chacoalhavam com o vento, persianas do tempo de Herman Melville. Era domingo, então não havia carros. Lá embaixo, nas ruas, o veleiro passava, numa carroça puxada a cavalo. Ploc ploc. Uma chuva fria de granizo assobiava atrás das janelas e Max ligou. Alô, ele disse. Estou logo aqui na esquina, numa cabine telefônica.
Ele veio trazendo rosas, uma garrafa de conhaque e quatro passagens para Acapulco. Acordei os meninos e fomos embora.
Não é verdade, aquilo que eu disse sobre não ter arrependimentos, embora eu não tenha sentido o menor remorso na época. Foi só uma das muitas coisas erradas que eu fiz na vida, ir embora daquele jeito.
O Plaza Hotel estava quentinho. Não, estava quente de verdade. Ben e Keith entraram na banheira fumegante com uma expressão reverente, como se estivessem num batismo texano. Adormeceram envoltos em roupas de cama brancas e limpas. No quarto ao lado, Max e eu fizemos amor e ficamos conversando até de manhã.
Tomamos champanhe sobrevoando Illinois. Trocamos beijos enquanto os meninos dormiam na nossa frente e nuvens passavam diante da janela. Quando pousamos, o céu sobre Acapulco estava listrado de rosa e coral.
Nós quatro nadamos, depois comemos lagosta e depois nadamos mais um pouco. De manhã, o sol brilhava por entre as persianas de madeira, fazendo listras em Max, Ben e Keith. Eu me sentava na cama e ficava olhando para eles, feliz.
Max carregava cada um dos meninos para a cama e o cobria. Beijava-os com carinho, do mesmo jeito como tinha beijado o pai. Max dormia tão profundamente quanto eles. Eu achava que ele devia estar exausto por causa do que nós estávamos fazendo, por ele estar deixando a esposa e assumindo uma família.
Ele ensinou os dois a nadar e a mergulhar com snorkel. Contava coisas para eles. Contava coisas para mim. Coisas sobre a vida, sobre pessoas que ele conhecia. Nós três nos interrompíamos contando coisas para ele também. Ficávamos deitados na areia fina da praia Caleta, quentes ao sol. Keith e Ben me enterravam na areia. Max contornava os meus lábios com o dedo. Explosões de cor do sol contra as minhas pálpebras fechadas e sujas de areia. Desejo.
À noitinha, a gente ia ao parque perto das docas, onde havia triciclos para alugar. Max e eu ficávamos de mãos dadas enquanto os meninos corriam furiosamente ao redor do parque, passando como relâmpagos por bougainvílleas rosa, canáceas vermelhas. Atrás deles, navios eram carregados nas docas.
Uma tarde, minha mãe e meu pai, conversando sem parar, subiram a prancha de embarque do S. S. Stavangerfjord, um navio norueguês. Minha irmã tinha me escrito contando que eles estavam viajando de Tacoma para Valparaíso. Meus pais não estavam falando comigo nessa época, por causa do meu casamento com Jude. Eu não podia chamá-los e dizer: Oi, mamãe! Oi, papai! Que coincidência, não? Esse aqui é o Max.
No entanto, saber que os meus pais estavam logo ali fez com que eu me sentisse bem. E agora eles estavam na balaustrada enquanto o navio zarpava. Meu pai estava queimado de sol e usava um chapéu branco de aba mole. Minha mãe fumava. Ben e Keith corriam cada vez mais rápido pela pista de cimento, gritando um para o outro e para nós… Olha pra mim!
Hoje houve uma grande explosão de gás em Guadalajara, centenas de pessoas morreram e tiveram suas casas destruídas. Max ligou para saber se eu estava bem. Contei a ele que agora no México todo mundo estava achando engraçado sair por aí perguntando: “Escuta… você está sentindo cheiro de gás?”.
Em Acapulco, fizemos amigos no hotel. Don e María, que tinham uma filha de seis anos, Lourdes. À noite, as crianças ficavam colorindo na varanda deles até pegarem no sono.
Ficávamos lá até bem tarde, até a lua ficar alta e pálida. Don e Max jogavam xadrez à luz de uma lamparina a querosene. Afagos de mariposas. María e eu nos deitávamos transversalmente numa enorme rede e ficávamos conversando baixinho sobre coisas bobas como roupas, nossos filhos, amor. Ela e Don só estavam casados havia seis meses. Antes de conhecê-lo, ela estava muito sozinha. Eu contei a ela que, de manhã, eu dizia o nome de Max antes mesmo de abrir os olhos. Ela disse que a vida dela era como um disco triste tocando sem parar o dia todo e agora, num segundo, o disco tinha sido virado e pronto, música. Max ouviu o que ela disse e sorriu para mim. Viu, amor, a gente é o lado B agora.
Tínhamos outros amigos também. Raúl, o mergulhador, e a mulher dele, Soledad. Um fim de semana, nós seis fizemos mariscos no vapor na varanda do nosso hotel. Tínhamos mandado todas as crianças tirarem uma soneca. Mas, uma a uma, elas foram aparecendo por lá, querendo ver o que estava acontecendo. Volta pra cama! Uma queria água, outra simplesmente não estava conseguindo dormir. Volta pra cama. Keith veio e disse que tinha visto uma girafa! Agora volta pra cama, daqui a pouco a gente acorda vocês. Ben veio e disse que tinha visto tigres e elefantes. Ah, pelo amor de Deus. Mas lá estava, na rua abaixo de nós: um desfile de circo. Acordamos todas as crianças, então. Um dos homens do circo achou que Max fosse um astro do cinema e eles nos deram ingressos grátis. Nós todos fomos ao circo naquela noite. Foi mágico, mas as crianças pegaram no sono antes do fim do número do trapézio.
Houve um terremoto na Califórnia hoje. Max ligou para dizer que não tinha sido culpa dele e que não estava conseguindo encontrar seu gato.
Uma lua poente espectral brilhava sobre nós quando fizemos amor naquela noite. Depois ficamos deitados um ao lado do outro debaixo do ventilador de madeira, quentes, grudentos. A mão de Max no meu cabelo. Obrigada, sussurrei, para Deus, acho…
De manhã, quando eu acordava, os braços dele estavam em volta de mim, seus lábios no meu pescoço, sua mão na minha coxa.
Um dia eu acordei antes do sol nascer e ele não estava lá. O quarto estava em silêncio. Ele deve estar nadando, pensei. Fui ao banheiro. Max estava sentado no vaso, esquentando alguma coisa numa colher enegrecida. Havia uma seringa na pia.
Alô”, ele disse.
Max, o que é isso?”
Heroína”, ele disse.

Isso parece o fim de uma história, ou o começo, quando na verdade foi só uma parte dos anos que estavam por vir. Tempos de intensa felicidade tecnicolor e também de momentos sórdidos e assustadores.
Tivemos mais dois filhos, Nathan e Joel. Viajamos por todo o México e pelos Estados Unidos num Beechcraft Bonanza. Moramos em Oaxaca e, por fim, nos instalamos numa aldeia na costa do México. Fomos felizes, todos nós, durante um bom tempo e, então, tudo ficou difícil e solitário porque ele gostava muito mais da heroína.
Detox não… Max diz pelo telefone… Retox, é disso que todo mundo precisa. E “Simplesmente diga não”? O certo seria dizer: Não, obrigado. Ele está brincando, não se droga já faz muitos anos.
Durante meses Sally e eu nos desdobramos tentando analisar nossas vidas, nossos casamentos, nossos filhos. Ela nunca bebeu nem fumou como eu.
O ex-marido de Sally é político. Quase todo dia ele passa por aqui, num carro com dois guarda-costas e uma escolta de dois carros com mais homens dentro. Sally é tão próxima dele quanto eu sou de Max. Então, o que é o casamento afinal? Eu nunca consegui descobrir. E agora é a morte que eu não entendo.
Não só a morte de Sally. O meu país, depois de Rodney King e dos tumultos em Los Angeles. Pelo mundo todo, a fúria e o desespero.
Sally e eu fazemos rébus uma para a outra para que ela não force os pulmões falando. Rébus são mensagens em que você faz desenhos em vez de escrever palavras ou letras. “Violência”, por exemplo, é uma viola e uma lança. “Dá nojo” é uma pessoa com cara de asco olhando para uma barata. A gente ri baixinho no quarto dela, desenhando. Na verdade, o amor não é mais um mistério para mim. Max liga e diz alô. Eu digo a ele que a minha irmã vai morrer não demora muito. Como você está?, ele pergunta.

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

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