sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Piloto de Guerra | XVII


Há uma lei fundamental: não se transformam, de pronto, vencidos em vencedores. Quando se fala de um exército que primeiro recua, depois resiste, trata-se apenas de um atalho de linguagem, pois as tropas que recuaram e as que agora travam batalha não são as mesmas. O exército que recuava não era mais um exército. Não que aqueles homens fossem indignos de vencer, mas porque um recuo destrói todos os laços e materiais espirituais que uniam os homens entre si. Essa massa de soldados que se deixa filtrar para trás é substituída por novos reservas que tenham caráter de organismo. São eles que bloqueiam o inimigo. Quanto aos desertores, são recolhidos para serem novamente moldados em forma de exército. Se não houver reservas a pôr em ação, o primeiro recuo será irreparável.
Somente a vitória une. A derrota não apenas separa o homem dos homens, mas também o separa de si mesmo. Se os desertores não choram pela França que desmorona, é porque foram vencidos. É porque a França está derrotada, não à volta deles, mas neles mesmos. Chorar pela França já faria ser vencedor.

A quase todos, aos que resistem ainda como aos que não resistem mais, a face da França vencida só se mostrará mais tarde, nas horas de silêncio. Cada um desgasta-se hoje contra um detalhe vulgar que se revolta ou arruína, contra um caminhão quebrado, contra uma estrada engarrafada, contra um manete de gás que emperra, contra o absurdo de uma missão. O sinal de desmoronamento é que a missão se mostre absurda. É que se mostre absurdo o próprio ato que se opõe a esse desmoronamento. Pois tudo se divide de si mesmo. Não choramos pelo desastre universal, mas pelo objeto por que somos responsáveis — único tangível — e que se deteriora. A França que desmorona não passa de um dilúvio de pedaços dentre os quais nenhum mostra a face, nem essa missão, nem esse caminhão, nem essa estrada, nem essa porcaria de manete de gás.
Decerto, uma derrocada é um triste espetáculo. Os saqueadores se revelam saqueadores. Os homens baixos se mostram baixos. As instituições se despedaçam. As tropas, mortificadas de desgosto e de cansaço, decompõem-se no absurdo. Uma derrota implica todos esses efeitos, como a peste implica o bulbo. Mas aquela que você amava, se um caminhão esmagá-la, você criticará sua fealdade?
Essa aparência de culpados é a injustiça da derrota que empresta às vítimas. Como a derrota mostraria os sacrifícios, as austeridades no dever, os rigores para consigo, as vigilâncias que o deus que decide a sorte dos combates não levou em consideração? Como mostraria o amor? A derrota mostra o chefe sem poder, os homens no vácuo, as multidões passivas. Houve verdadeira carência, mas, essa própria carência, o que significa? Bastava que corresse a notícia de uma reviravolta russa ou de uma intervenção americana para transfigurar os homens. Para uni-los numa esperança comum. Tal boato sempre purificava tudo, como um pé de vento no mar. Não se deve julgar a França pelos efeitos do esmagamento.
É preciso julgar a França pelo seu consentimento ao sacrifício. A França aceitou a guerra contra a verdade dos lógicos. Eles nos diziam: “Há oitenta milhões de alemães… Nós não conseguimos fazer, num ano, os quarenta milhões de franceses que nos faltam. Não podemos mudar nossa terra de trigo em terra de carvão. Não podemos esperar assistência dos Estados Unidos. Por que os alemães, reclamando Dantzig, nos imporiam o dever, não de salvar Dantzig, o que é impossível, mas de nos suicidarmos para evitar a vergonha? Que vergonha há em possuir uma terra que dá mais trigo do que máquinas, e em ser um contra dois? Por que a vergonha pesaria sobre nós, e não sobre o mundo?”. Eles tinham razão. Guerra, para nós, significava desastre. Mas seria preciso que a França, para safar-se de uma derrota, recusasse a guerra? Não creio. A França, por instinto, assim pensava, pois tais avisos não a demoveram dessa guerra. O Espírito, em nosso país, dominou a inteligência.
A vida sempre derruba as fórmulas. A derrota pode se revelar o único caminho para a ressurreição, apesar de suas fealdades. Eu bem sei que para criar a árvore se condena um grão a apodrecer. Se o primeiro ato de resistência sobrevier tarde demais, sempre será perdedor. Mas é o despertar da resistência. Uma árvore talvez saia deles como de uma semente.
A França desempenhou seu papel. Este consistia em propor-se ao esmagamento, já que o mundo arbitrava sem colaborar nem combater; e a ver-se sepultar por um tempo no silêncio. Quando se toma de assalto, há necessariamente homens à frente. Estes quase sempre morrem. Mas é preciso, para que aconteça o assalto, que os primeiros morram.
O papel é o daquele que prevaleceu, visto que aceitamos, sem ilusão, opor um soldado a três soldados, e nossos agricultores a operários. Recuso-me ser julgado pelas fealdades da derrocada. Quem aceita ser queimado em voo será julgado por suas excrescências? Ele também se tornará feio.

Antoine de Saint-Exupéry, in Piloto de Guerra

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