Tom
Jobim foi o meu padrinho no I Festival de Escritores, não me lembro
em que ano, no lançamento de meu romance A maçã no escuro.
E na nossa barraca ele fazia brincadeiras: segurava o livro na mão e
perguntava:
– Quem
compra? Quem quer comprar?
Não
sei, mas o fato é que vendi todos os exemplares.
Um
dia, faz algum tempo, Tom veio me visitar: há anos que não nos
víamos. Era o mesmo Tom: bonito, simpático, com o ar de pureza que
ele tem, com os cabelos meio caídos na testa. Um uísque e conversa
que foi ficando mais séria. Reproduzirei literalmente nossos
diálogos (tomei notas, ele não se incomodou).
– Tom,
como é que você encara o problema da maturidade?
– Tem
um verso do Drummond que diz: “A madureza, esta horrível
prenda...” Não sei, Clarice, a gente fica mais capaz, mas também
mais exigente.
– Não
faz mal, a gente exige bem.
– Com
a maturidade, a gente passa a ter consciência de uma série de
coisas que antes não tinha, mesmo os instintos os mais espontâneos
passam pelo filtro. A polícia do espaço está presente, essa
polícia que é a verdadeira polícia da gente. Tenho notado que a
música vem mudando com os meios de divulgação, com a preguiça de
se ir ao Theatro Municipal. Quero te fazer esta pergunta a respeito
da leitura de livros, pois hoje em dia estão ouvindo televisão e
rádio de pilha, meios inadequados. Tudo o que escrevi de erudito e
mais sério fica na gaveta. Que não haja mal-entendido: a música
popular, considero-a seriíssima. Será que hoje em dia as pessoas
estão lendo como eu lia quando garoto, tendo o hábito de ir para a
cama com um livro antes de dormir? Porque sinto uma espécie de falta
de tempo da humanidade – o que vai entrar mesmo é a leitura
dinâmica. Que é que você acha?
– Sofro
se isso acontecer, que alguém leia meus livros apenas no método do
vira-depressa-a-página dinâmico. Escrevi-os com amor, atenção,
dor e pesquisa, e queria de volta como mínimo uma atenção
completa. Uma atenção e um interesse como o seu, Tom. E no entanto
o cômico é que eu não tenho mais paciência de ler ficção.
– Mas
aí você está se negando, Clarice!
– Não,
meus livros, felizmente para mim, não são superlotados de fatos, e
sim da repercussão dos fatos no indivíduo. Há quem diga que a
música e a literatura vão acabar. Sabe quem disse isso? Henry
Miller. Não sei se ele queria dizer para já ou para daqui a 300 ou
500 anos. Mas eu acho que nunca acabarão.
Riso
feliz de Tom:
– Pois
eu, sabe, também acho!
– Acho
que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso
da palavra falada e escrita é como a música, duas coisas das mais
altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal.
– E
mineral também, e vegetal também! (Ele ri.) Acho que sou um músico
que acredita em palavras. Li ontem o teu “O búfalo e a imitação
da rosa”.
– Sim,
mas é a morte às vezes.
– A
morte não existe, Clarice. Tive uma experiência que me revelou
isso. Assim como também não existe o eu nem o euzinho nem o euzão.
Fora essa experiência que não vou contar, temo a morte 24 horas por
dia. A morte do eu, eu te juro, Clarice, porque eu vi.
– Você
acredita na reencarnação?
– Não
sei. Dizem os hindus que só entende de reencarnação quem tem
consciência das várias vidas que viveu. Evidentemente, não é o
meu ponto de vista: se existe reencarnação, só pode ser por um
despojamento.
Dei-lhe
então a epígrafe de um de meus livros: é uma frase de Bernard
Berenson, crítico de arte: “Uma vida completa talvez seja aquela
que termina em tal identificação com o não eu que não resta um eu
para morrer.”
– Isto
é muito bonito – disse Tom –, é o despojamento. Caí numa
armadilha porque sem o eu, eu me neguei. Se nós negamos qualquer
passagem de um eu para outro, o que significa reencarnação, então
a estamos negando.
– Não
estou entendendo nada do que estamos falando, mas faz sentido. Como
podemos falar do que não entendemos! Vamos ver se na próxima
reencarnação nós dois nos encontraremos.
Clarice Lispector, in Todas as crônicas
Nenhum comentário:
Postar um comentário