Depois
falamos sobre o fato de que a sociedade industrial organiza e
despersonaliza demais a vida. E se não cabia aos artistas o papel de
preservar não só a alegria do mundo como a consciência do mundo.
– Sou
contra a arte de consumo. Claro, Clarice, que eu amo o consumo... Mas
do momento em que a estandardização de tudo tira a alegria de
viver, sou contra a industrialização. Sou a favor do maquinismo que
facilita a vida humana, jamais a máquina que domina a espécie
humana. Claro, os artistas devem preservar a alegria do mundo. Embora
a arte ande tão alienada e só dê tristeza ao mundo. Mas não é
culpa da arte porque ela tem o papel de refletir o mundo. Ela reflete
e é honesta. Viva Oscar Niemeyer e viva Villa-Lobos! Viva Clarice
Lispector! Viva Antônio Carlos Jobim! A nossa é uma arte que
denuncia. Tenho sinfonias e músicas de câmara que não vêm à
tona.
– Você
não acha que é seu dever o de fazer a música que sua alma pede?
Pelas coisas que você disse, suponho que significa que o nosso
melhor está dito para as elites?
– Evidentemente
que nós, para nos expressarmos, temos que recorrer à linguagem das
elites, elites estas que não existem no Brasil... Eis o grande drama
de Carlos Drummond de Andrade e Villa-Lobos.
– Para
quem você faz música e para quem eu escrevo, Tom?
– Acho
que não nos foi perguntado nada a respeito e, desprevenidos, ouvimos
no entanto a música e a palavra, sem tê-las realmente aprendido de
ninguém. Não nos coube a escolha: você e eu trabalhamos sob uma
inspiração. De nossa ingrata argila de que é feito o gesso.
Ingrata mesmo para conosco. A crítica que eu faria, Clarice, nesse
confortável apartamento no Leme, é de sermos seres rarefeitos que
só se dão em determinadas alturas. A gente devia se dar mais, a
toda hora, indiscriminadamente. Hoje quando leio uma partitura de
Stravinsky ainda mais sinto uma vontade irreprimível de estar com o
povo, embora a cultura jogada fora volte pelas janelas – estou
roubando C. D. A.
– Talvez
porque nós todos sejamos parte de uma geração quem sabe se
fracassada?
– Não
concordo absolutamente.
– É
que eu sinto que nós chegamos ao limiar de portas que estavam
abertas – e por medo ou pelo que não sei, não atravessamos
plenamente essas portas. Que no entanto têm nelas já gravado o
nosso nome. Cada pessoa tem uma porta com seu nome gravado, Tom, e é
só através dela que essa pessoa perdida pode entrar e se achar.
– Batei
e abrir-se-vos-á.
– Vou
confessar a você, Tom, sem o menor vestígio de mentira: sinto que
se eu tivesse tido coragem mesmo, eu já teria atravessado a minha
porta, e sem medo de que me chamassem de louca. Porque existe uma
nova linguagem, tanto a musical quanto a escrita, e nós dois
seríamos os legítimos representantes das portas estreitas que nos
pertencem. Em resumo e sem vaidade: estou simplesmente dizendo que
nós dois temos uma vocação a cumprir. Como se processa em você a
elaboração musical que termina em criação? Estou simplesmente
misturando tudo, mas não é culpa minha, Tom, nem sua: é que nossa
conversa está meio psicodélica.
– A
criação musical em mim é compulsória. Os anseios de liberdade
nela se manifestam.
– Liberdade
interna ou externa?
– A
liberdade total. Se como homem fui um pequeno-burguês adaptado, como
artista me vinguei nas amplidões do amor. Você desculpe, eu não
quero mais uísque por causa de minha voracidade, tenho é que beber
cerveja porque ela locupleta os grandes vazios da alma. Ou pelo menos
impede a embriaguez súbita. Gosto de beber só de vez em quando.
Gosto de tomar uma cerveja mas de estar bêbado não gosto.
Foi
devidamente providenciada a ida da empregada para comprar cerveja.
Clarice Lispector, in Todas as crônicas

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