segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Bárbaros


De volta ao número 18 da rua Archer, as negociações na cozinha tinham chegado a um impasse.
Devagar, o Assassino se encaminhou ao restante da casa. O silêncio ali dentro era sublime — um imenso parquinho para a culpa correr solta até atropelá-lo —, mas também um pouco decepcionante. A geladeira zumbia, a mula fungava e havia vários outros animais lá. Depois de voltar para o corredor, ele conseguia sentir a movimentação. Será que o Assassino estava sendo farejado e caçado?
Improvável.
Não, os animais estavam longe de representar uma ameaça; eram os dois mais velhos de nós que ele temia.
Eu era o responsável:
Quem botava comida na mesa havia mais tempo.
Rory era o invencível:
O rolo compressor humano.

***

Por volta das seis e meia, Rory estava do outro lado da rua, encostado em um poste telefônico, dando um sorriso cínico e amargo, sorrindo só por sorrir; o mundo era nojento, e ele também. Após uma breve busca, conseguiu tirar da boca um longo fio de cabelo. Quem quer que fosse, estava em algum lugar por aí, deitada de pernas abertas na mente de Rory. Uma garota que ele nunca chegaria a conhecer ou ver.
Falando em garotas conhecidas, instantes antes ele havia topado com uma delas, Carey Novac. Foi bem na frente da casa dela.
Ela, que tinha cheiro de cavalo, gritara um oi.
Desceu da bicicleta velha.
Com olhos verdes gentis e cabelo castanho-avermelhado — uma longa cascata pelas costas —, ela mandou um recado para Clay. Tinha a ver com um livro; um dos três que foram importantes para tudo.
Diz pra ele que ainda estou amando o Buonarroti, tá?
Rory ficou surpreso, mas não mexeu nada além da boca.
Bona-quem?
A menina deu uma risada a caminho da garagem de casa.
Só diz isso pra ele, pode ser?
Mas então Carey se apiedou e deu meia-volta, cheia de certeza e de sardas nos braços. Ela tinha um quê de generosidade, de calor e de suor e de vida.
Michelangelo. Sabe?
Hã?
Só serviu para deixá-lo ainda mais confuso. Essa menina é louca, pensou ele. Uma graça, mas completamente biruta. E eu lá quero saber de Michelangelo, porra?
Mas por algum motivo aquilo ficou na cabeça de Rory.
Ele encontrou aquele poste, ficou encostado ali por um tempo. Depois atravessou a rua e foi para casa. Estava com um pouco de fome.

***

Quanto a mim, eu estava por aí, sei lá onde, preso no trânsito.
Ao meu redor, à frente, atrás, havia milhares de carros enfileirados, todos indo na direção de diferentes lares. Uma onda constante de calor atravessava as janelas da minha perua (que, inclusive, é a mesma até hoje), em uma procissão infinita de outdoors, vitrines e fragmentos de pessoas. A cada movimento, a cidade se entranhava no carro, que também tinha o meu odor característico de madeira, lã e verniz.
Coloquei o braço para fora da janela.
Parecia que meu corpo era feito de lenha.
Minhas mãos estavam grudentas de cola e terebintina, e tudo que eu mais queria era chegar em casa. Aí eu poderia tomar um banho, preparar o jantar e talvez ler um pouco ou assistir a um filme antigo.
Era pedir muito?
Apenas chegar em casa e descansar?
Sem chance.

Markus Zusak, in O construtor de pontes

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