De
volta ao número 18 da rua Archer, as negociações na cozinha tinham
chegado a um impasse.
Devagar,
o Assassino se encaminhou ao restante da casa. O silêncio ali dentro
era sublime — um imenso parquinho para a culpa correr solta até
atropelá-lo —, mas também um pouco decepcionante. A geladeira
zumbia, a mula fungava e havia vários outros animais lá. Depois de
voltar para o corredor, ele conseguia sentir a movimentação. Será
que o Assassino estava sendo farejado e caçado?
Improvável.
Não,
os animais estavam longe de representar uma ameaça; eram os dois
mais velhos de nós que ele temia.
Eu
era o responsável:
Quem
botava comida na mesa havia mais tempo.
Rory
era o invencível:
O
rolo compressor humano.
***
Por
volta das seis e meia, Rory estava do outro lado da rua, encostado em
um poste telefônico, dando um sorriso cínico e amargo, sorrindo só
por sorrir; o mundo era nojento, e ele também. Após uma breve
busca, conseguiu tirar da boca um longo fio de cabelo. Quem quer que
fosse, estava em algum lugar por aí, deitada de pernas abertas na
mente de Rory. Uma garota que ele nunca chegaria a conhecer ou ver.
Falando
em garotas conhecidas, instantes antes ele havia topado com uma
delas, Carey Novac. Foi bem na frente da casa dela.
Ela,
que tinha cheiro de cavalo, gritara um oi.
Desceu
da bicicleta velha.
Com
olhos verdes gentis e cabelo castanho-avermelhado — uma longa
cascata pelas costas —, ela mandou um recado para Clay. Tinha a ver
com um livro; um dos três que foram importantes para tudo.
— Diz
pra ele que ainda estou amando o Buonarroti, tá?
Rory
ficou surpreso, mas não mexeu nada além da boca.
— Bona-quem?
A
menina deu uma risada a caminho da garagem de casa.
— Só
diz isso pra ele, pode ser?
Mas
então Carey se apiedou e deu meia-volta, cheia de certeza e de
sardas nos braços. Ela tinha um quê de generosidade, de calor e de
suor e de vida.
— Michelangelo.
Sabe?
— Hã?
Só
serviu para deixá-lo ainda mais confuso. Essa menina é louca,
pensou ele. Uma graça, mas completamente biruta. E eu lá quero
saber de Michelangelo, porra?
Mas
por algum motivo aquilo ficou na cabeça de Rory.
Ele
encontrou aquele poste, ficou encostado ali por um tempo. Depois
atravessou a rua e foi para casa. Estava com um pouco de fome.
***
Quanto
a mim, eu estava por aí, sei lá onde, preso no trânsito.
Ao
meu redor, à frente, atrás, havia milhares de carros enfileirados,
todos indo na direção de diferentes lares. Uma onda constante de
calor atravessava as janelas da minha perua (que, inclusive, é a
mesma até hoje), em uma procissão infinita de outdoors, vitrines e
fragmentos de pessoas. A cada movimento, a cidade se entranhava no
carro, que também tinha o meu odor característico de madeira, lã e
verniz.
Coloquei
o braço para fora da janela.
Parecia
que meu corpo era feito de lenha.
Minhas
mãos estavam grudentas de cola e terebintina, e tudo que eu mais
queria era chegar em casa. Aí eu poderia tomar um banho, preparar o
jantar e talvez ler um pouco ou assistir a um filme antigo.
Era
pedir muito?
Apenas
chegar em casa e descansar?
Sem
chance.
Markus Zusak, in O construtor de pontes

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