domingo, 6 de agosto de 2023

Cartas na Rua — Dois | 2

A próxima coisa de que me lembro era estar com uma garota do Texas em meu colo. Não vou entrar em detalhes sobre como a conheci. Seja o que for, lá estávamos nós. Ela com uns 23. Eu, 36.
Seu cabelo era longo e loiro e sua carne muito sólida e gostosa. Eu não sabia, naquela época, que ela também era cheia da grana. Ela não bebia, mas eu sim. No começo, ríamos muito. E íamos às corridas juntos. Ela era atraente, e toda vez que eu voltava para o meu lugar, havia algum filho da puta se jogando em cima dela. Havia dezenas deles. Simplesmente davam um jeito de chegar cada vez mais perto. Joyce apenas ficava sentada. Restavam-me duas opções no trato geral com eles. Eu podia levar Joyce embora dali ou dizer ao sujeito:
Veja, parceiro, essa aqui tem dono! Agora, suma da minha vista!
Mas lutar contra lobos e cavalos ao mesmo tempo era demais para mim. Eu não parava de perder. Um profissional vai às pistas sozinho. Eu sabia disso. Mas pensei que, de alguma maneira, eu fosse uma exceção. Descobri que não havia nada de excepcional a meu respeito. Era capaz de perder meu dinheiro tão depressa quanto qualquer outro.
Então Joyce exigiu que nos casássemos.
Caralho!, pensei, de qualquer modo acabo na panela.
Fui com ela de carro até Vegas para uma cerimônia de casamento barata, depois voltei com ela logo em seguida.
Vendi o carro por dez dólares, e a próxima coisa de que me lembro é que estávamos num ônibus em direção ao Texas e que ao desembarcarmos eu tinha 75 centavos no meu bolso. Era uma cidade muito pequena, a população, acho, não chegava a dois mil habitantes. A cidade havia sido escolhida por especialistas, em um artigo nacional, como a última cidade dos Estados Unidos que algum inimigo atacaria com uma bomba atômica. Eu podia ver bem por quê.
Durante todo esse tempo, sem que soubesse, eu preparava meu caminho de volta aos Correios. Aquela mãezona.
Joyce tinha uma pequena casa na cidade e nós vagabundeávamos por ali, trepávamos e comíamos. Ela me alimentava bem, engordou-me e me enfraqueceu ao mesmo tempo. Nunca era o bastante para ela. Joyce, minha esposa, era uma ninfomaníaca.
Eu dava pequenas voltas pela cidade, sozinho, para ficar longe dela, marcas de dente espalhadas por todo meu peito, pescoço e ombros, e também em outro lugar que me preocupava bem mais e doía de verdade. Ela estava me comendo vivo.
Eu vagava pela cidade e todos me olhavam, sabendo sobre Joyce, sobre sua tara sexual, e também que seu pai e seu avô tinham mais dinheiro, terra, lagos, reservas de caça do que todos eles juntos. A uma só vez, tinham pena e ódio de mim.
Certa manhã, mandaram um anão para me tirar da cama e me levar de carro por todos os lados, apontando-me isso e aquilo, apontando, sr. Fulano de tal, o pai de Joyce, tem isso, e sr. Fulano de tal, o avô de Joyce, tem aquilo...
Andamos de carro a manhã inteira. Alguém estava tentando me assustar. Eu estava de saco cheio. Estava sentado no banco de trás, e o anão devia pensar que eu era um aproveitador, que eu dera um golpe para entrar naqueles milhões. Ele não sabia que tinha sido um acidente, e que eu era um ex-empregado dos Correios com 75 centavos no bolso.
O anão, pobre coitado, sofria de uma doença nervosa e dirigia muito rápido, e frequentemente se sacudia por inteiro, perdendo o controle do carro, que cruzava de um lado para o outro da estrada e uma vez o carro foi raspando uma cerca por uns cem metros antes que o anão retomasse o controle.
EI! PISA LEVE AÍ, DEMOLIDOR! — gritei-lhe do banco de trás.
Era isso. Estavam tentando me tirar da jogada. Era óbvio. O anão era casado com uma garota muito bonita. Quando ela era adolescente, enfiou uma garrafa de coca na boceta, que acabou entalando, obrigando-a a ir até um médico para retirá-la, e, como ocorre em todas as cidades pequenas, o papo da coca-cola logo se espalhou, e a garota foi malvista por todos, restando apenas o anão como pretendente. Ele acabou ficando com o melhor rabo da cidade.
Acendi um charuto que Joyce tinha me dado e disse ao anão:
Já vi o bastante, demolidor. Agora é hora de me levar de volta. E dirija devagar. Não quero sair do jogo logo agora.
Fiz o papel de aproveitador só para agradá-lo.
Sim, senhor, sr. Chinaski! Sim, senhor!
Ele me admirava. Pensou que eu era um filho da puta dos bons.
Assim que entrei, Joyce me perguntou:
Bem, você viu tudo?
Vi o bastante — respondi. Aquilo queria dizer que estavam tentando se livrar de mim. Não sabia se Joyce estava envolvida ou não naquilo.
Então ela começou a tirar as minhas roupas e me empurrar em direção à cama.
Espere um minuto, baby! Já demos duas e ainda não são nem duas da tarde!
Ela deu uma risadinha e continuou me empurrando.

Charles Bukowski, in Cartas na Rua

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