– Amanhã
vou passar o dia em casa do Viegas, disse-me ela uma vez. Coitado!
não tem ninguém...
Viegas
cafra na cama, definitivamente; a filha, casada, adoecera justamente
agora, e não podia fazer-lhe companhia. Virgília ia lá de quando
em quando. Eu aproveitei a circunstância para passar todo aquele dia
ao pé dela. Eram duas horas da tarde quando cheguei. O Viegas tossia
com tal força que me fazia arder o peito; no intervalo dos acessos
debatia o preço de uma casa, com um sujeito magro. O sujeito
oferecia trinta contos, o Viegas exigia quarenta. O comprador instava
como quem receia perder o trem da estrada de ferro, mas Viegas não
cedia; recusou primeiramente os trinta contos, depois mais dois,
depois mais três; enfim teve um forte acesso, que lhe tolheu a fala
durante quinze minutos. O comprador acarinhou-o muito, arranjou-lhe
os travesseiros, ofereceu-lhe trinta e seis contos.
– Nunca!
gemeu o enfermo.
Mandou
buscar um maço de papéis à escrivaninha; não tendo forças para
tirar a fita de borracha que prendia os papéis, pediu-me que os
deslaçasse: fi-lo. Eram as contas das despesas com a construção da
casa: contas de pedreiro, de carpinteiro, de pintor; contas do papel
da sala de visitas, da sala de jantar, das alcovas, dos gabinetes;
contas das ferragens; custo do terreno. Ele abria-as, uma por uma,
com a mão trê mula, e pedia-me que as lesse, e eu lia-as.
– Veja;
mil e duzentos, papel de mil e duzentos a peça.
Dobradiças
francesas... Veja, é de graça, concluiu ele depois de lida a última
conta.
– Pois
bem... mas...
– Quarenta
contos; não lhe dou por menos. Só os juros... faça a conta dos
juros...
Vinham
tossidas estas palavras, às golfadas, às sílabas, como se fossem
migalhas de um pulmão desfeito. Nas órbitas fundas rolavam os olhos
lampejantes, que me faziam lembrar a lamparina da madrugada. Sob o
lençol desenhava-se a estrutura óssea do corpo, pontudo em dois
lugares, nos joelhos e nos pés; a pele amarelada, bamba, rugosa,
revestia apenas a caveira de um rosto sem expressão; uma carapuça
de algodão branco cobria-lhe o crânio rapado pelo tempo.
– Então?
disse o sujeito magro.
Fiz-lhe
sinal para que não insistisse, e ele calou-se por alguns instantes.
O doente ficou a olhar para o teto, calado, a arfar muito: Virgília
empalideceu, levantou-se, foi até à janela. Suspeitara a morte e
tinha medo. Eu procurei falar de outras coisas. O sujeito magro
contou uma anedota, e tomou a tratar da casa, alteando a proposta.
– Trinta
e oito contos, disse ele.
– An?...
gemeu o enfermo.
O
sujeito magro aproximou-se da cama, pegou-lhe na mão, e sentiu-a
fria. Eu acheguei-me ao doente, perguntei-lhe se sentia alguma coisa,
se queria tomar um cálice de vinho.
– Não...
não... quar... quaren... quar... quar...
Teve
um acesso de tosse, e foi o último; daí a pouco expirava ele, com
grande consternação do sujeito magro, que me confessou depois a
disposição em que estava de oferecer os quarenta contos; mas era
tarde.
Machado de Assis, in Memórias Póstumas de Brás Cubas
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