quarta-feira, 9 de agosto de 2023

As rãs | 10


Na primavera de 1961, minha tia foi liberada do caso Wang Xiaoti e voltou a trabalhar na seção de ginecologia e obstetrícia do posto de saúde. Nos dois anos seguintes não nasceu um único bebê nas mais de quarenta aldeias da comuna. A razão? A fome, naturalmente. Por causa da fome, as mulheres pararam de menstruar, por causa da fome, os homens viraram eunucos. Naquela seção do posto de saúde, só trabalhavam minha tia e uma médica de meia-idade de sobrenome Huang. A dra. Huang se formara em medicina numa escola prestigiada, mas, por causa do mau histórico familiar, e também por ser direitista, foi mandada para o campo. Toda vez que falava dela, minha tia se exaltava. Dizia que ela era esquisita, que às vezes ficava o dia todo sem dizer uma palavra, outras vezes desandava a falar com sarcasmo e era capaz de ministrar uma palestra diante da escarradeira.
Depois que minha tia-avó faleceu, a tia raramente nos visitava. Cada vez que tinha alguma comida boa em casa, mamãe mandava minha irmã levar para ela. Um dia, meu pai encontrou metade de uma lebre no campo, quem sabe deixada por alguma águia. Minha mãe colheu meio cesto de verduras silvestres e cozinhou com a carne da lebre. Encheu uma tigela, embrulhou com um pano e mandou minha irmã levar para minha tia, mas ela se recusou. Eu me ofereci como voluntário. Minha mãe disse: “Pode ir, só não pode comer escondido pelo caminho, e olhe onde pisa, não vá me quebrar essa tigela”.
Eram cinco quilômetros da nossa aldeia até o posto de saúde. De início, fui correndo, queria chegar antes que a comida esfriasse. Porém, depois de correr um pequeno trecho, senti que as pernas pesavam, o estômago roncava, um suor frio me cobria o corpo, a cabeça rodava e a vista embaralhava. Era fome, eu já havia digerido as duas tigelas de sopa de folhas que tinha tomado pela manhã. Naquele momento, o cheiro da comida atravessava o pano e espalhava-se pelo ar. Havia dois eus discutindo, brigando, um desses eus dizia: “Coma um pouco, só um pouco”; o outro dizia: “De jeito nenhum, você precisa ser um menino honesto e obediente”. Muitas vezes minha mão estava prestes a desatar o nó do pano, mas o olhar da minha mãe logo me aparecia na mente. A estrada que ligava nossa aldeia ao posto de saúde era ladeada por amoreiras. Como todas as folhas já tinham sido arrancadas por aldeões famintos, quebrei um galhinho e mastiguei, era amargo e travoso, difícil de engolir. Foi então que vi, no tronco da árvore, uma cigarra recém-saída da casca, amarelinha e tenra, de asas ainda úmidas. Muito contente, joguei fora o galhinho, peguei o inseto com a mão e, sem pensar em mais nada, enfiei-o na boca. A cigarra é para nós uma iguaria fina, um excelente fortificante, mas deve-se cozinhar antes de consumir. Comi viva mesmo, economizei fogo e tempo. Crua, tinha um sabor delicioso e, além disso, devia ser ainda mais nutritiva do que cozida. Continuei o caminho passando em revista as amoreiras na beira da estrada, não encontrei mais cigarras, mas catei um panfleto impresso em cores vistosas: tinha ali a foto de um rapaz de expressão radiante abraçado a uma mulher tão bonita como uma fada. A legenda explicava: “Wang Xiaoti, o piloto dos bandidos comunistas, abandonou a escuridão em busca da luz e passou para o nosso lado. Foi agraciado com o posto de major do Exército Nacional, recebeu uma recompensa de cinco mil taéis de ouro e agora forma um casal invejável com a famosa cantora Tao Lili”. Esqueci a fome e um impulso indescritível me fez querer gritar. Quando estava na escola, ouvi falar que o Partido Nacionalista usava balões para mandar sua propaganda reacionária para o nosso lado, mas não imaginava que esse material um dia chegaria às minhas mãos, nem que fossem panfletos tão bonitos e bem-feitos. Além do mais, devo admitir que aquela mulher da foto era muito mais encantadora que minha tia.
Quando entrei correndo na seção de ginecologia e obstetrícia do posto de saúde, minha tia estava no meio de uma discussão com a tal da dra. Huang. Aquela mulher usava uns óculos de armação preta, tinha o nariz adunco, lábios finos e, assim que abria a boca, mostrava as gengivas roxas. (Futuramente, minha tia faria questão de nos prevenir: melhor ficar solteiro do que se casar com uma mulher que deixa ver as gengivas enquanto fala.) Aquela mulher tinha um olhar soturno que me dava frio na espinha. Eu a ouvi dizer: “Quem você pensa que é para me dar ordens? Quando eu estava na faculdade de medicina, você ainda usava fraldas”.
Minha tia retrucou, ríspida: “Pois sim, eu sei que você, Huang Qiuya, era uma moça de família capitalista, também sei que era a princesinha da faculdade de medicina, você não estava lá agitando bandeirinhas para saudar a entrada dos malditos japoneses na cidade? Será que você não dançou de rosto colado com algum oficial deles? Pois enquanto você dançava com o militar japonês, eu estava em Pingdu enfrentando o comandante do exército inimigo!”.
A dra. Huang desdenhou: “E quem foi que viu isso? Quem viu você enfrentar o tal comandante japonês?”.
São fatos históricos, este chão que pisamos é testemunha”, disse minha tia.
Eu nunca, mas nunca mesmo, deveria ter dado a minha tia, justo nesse momento, o panfleto colorido que trazia na mão.
O que veio fazer aqui? O que é isto?”, ela me perguntou de mau humor.
Um panfleto reacionário, um panfleto reacionário do Partido Nacionalista!”, respondi, agitado. Minha voz tremia.
Primeiro minha tia deu uma olhada sem fazer muito caso, mas de repente foi tomada por um sobressalto, parecia ter levado um choque elétrico. Seus olhos se arregalaram, o rosto ficou lívido. Ela jogou longe o panfleto como se fosse uma cobra, ou melhor, como se fosse uma rã.
Quando se acalmou, quis pegar o papel de volta, mas era tarde demais.
O panfleto já estava em poder de Huang Qiuya. Ela deu uma olhada rápida, levantou a cabeça para encarar minha tia e tornou a olhar a foto. Aquele par de olhos escondidos atrás de lentes grossas de repente lançou um lampejo de fogo-fátuo. Logo em seguida, deixou escapar um riso sarcástico. Minha tia pulou em direção a ela para tomar o panfleto, mas Huang Qiuya esquivou-se, virando o corpo. Minha tia estendeu a mão e agarrou a roupa da doutora pelas costas. “Me dê isso aqui de volta!”, gritava.
Huang Qiuya forçou um movimento para a frente, crac, a roupa se rasgou e expôs a pele de suas costas, branca como uma barriga de rã.
Me dê isso aqui!”
Huang virou-se, mantendo atrás de si a mão que segurava o panfleto. Tremia dos pés à cabeça enquanto seguia, pé ante pé, em direção à porta. Ao mesmo tempo dizia, ameaçadora e satisfeita: “Devolver? Hum! Espiãzinha ordinária! Mulher de traidor!
Nem o traidor te quis mais, trapo inútil! Está com medo agora? Ainda quer posar de ‘órfã de mártir’ é?”. Minha tia se atirou como louca sobre Huang Qiuya.
Huang Qiuya disparou pelo corredor, estrilava: “Peguem a espiã! Peguem a espiã!”.
Minha tia foi atrás dela, estendeu a mão e agarrou-a pelos cabelos. O pescoço de Huang Qiuya inclinou-se para trás, mas a mão que segurava o panfleto manteve-se para a frente a todo o custo. Sobreveio um grito ainda mais agudo. O posto de saúde, naquele tempo, tinha apenas duas fileiras de salas, na frente ficavam os consultórios, atrás a administração. Todo mundo ouviu a gritaria e saiu para ver o que estava acontecendo. Minha tia já tinha derrubado Huang Qiuya no corredor e sentara sobre ela na tentativa de arrancar o panfleto de sua mão.
O diretor do posto veio às pressas. Era um homem de meia-idade, calvo, de olhos finos e empapuçados, que usava uma dentadura exageradamente branca. “Parem com isso!”, gritou. “O que estão fazendo?”
Minha tia pareceu não ouvir a bronca do diretor. Com redobrada ferocidade, tentava abrir à força a mão de Huang Qiuya. O ruído que vinha da boca de Huang Qiuya já não era um grito estridente, mas choro.
Pare já com isso, Wan!” Enfurecido, o diretor gritou aos curiosos que assistiam à cena: “Vocês ficaram cegos? Façam logo alguma coisa para separar essas duas!”.
Os médicos foram tirar minha tia de cima de Huang Qiuya. E precisaram de muita força para isso.
As médicas foram ajudar Huang Qiuya a se levantar do chão.
Os óculos dela caíram, corria sangue no vão entre seus dentes, lágrimas turvas rolavam dos seus olhos encovados. Mas o panfleto continuava firme na sua mão. Ela chorava: “Diretor, agora o senhor terá de tomar uma decisão…”.
Minha tia tinha a camisa amarfanhada, o rosto lívido, dois arranhões ensanguentados nas bochechas, aparentemente deixados pelas unhas de Huang Qiuya.
Wan Coração, o que está acontecendo afinal?”, perguntou o diretor.
Minha tia sorriu acabrunhada, dois fios de lágrimas brotaram dos seus olhos. Jogou no chão os pedaços do panfleto que tinha na mão. Sem dizer nada, voltou atordoada para a sua seção.
Nesse momento, Huang Qiuya, como quem presta um grande serviço, tal qual um herói martirizado, pôs na mão do diretor o panfleto que amassara até virar uma bola, ajoelhou-se no chão e começou a tatear em busca dos seus óculos.
Apoiou sobre o nariz os óculos, que tinham perdido uma haste, e ficou segurando-os com uma mão. Assim que viu os pedaços do panfleto que minha tia jogara no chão, ajoelhou-se mais do que depressa para catar tudo, como quem encontra um tesouro. Levantou-se novamente.
Que negócio é este?”, perguntou o diretor enquanto desamassava o papel.
Propaganda reacionária!”, disse Huang Qiuya dando os pedaços do panfleto ao diretor como se lhe entregasse o seu tesouro. “E tem mais aqui, é propaganda que Wang Xiaoti, aquele que desertou para Taiwan, mandou para Wan Coração!”
Os médicos e as enfermeiras ao redor soltaram exclamações de surpresa.
O diretor, que tinha presbiopia, afastou bem o papel e fez um grande esforço para focar a visão. Os médicos e as enfermeiras se juntaram em torno dele como um enxame de abelhas.
Estão olhando o quê? O que é que tem para ver aqui? Voltem ao trabalho!” O diretor guardou o panfleto, concluiu sua bronca nos funcionários e disse: “Dra. Huang, me acompanhe”.
Huang Qiuya acompanhou o diretor até seu escritório. Em grupinhos de dois ou três, médicos e enfermeiras comentavam o assunto, cautelosos.
Nisso, ouviu-se o choro incontido da minha tia vindo da seção de ginecologia e obstetrícia. Eu me dei conta do desastre que causei e, encolhido, entrei devagarinho pela porta. Vi minha tia sentada na cadeira, chorando debruçada na mesa enquanto golpeava o móvel com o punho cerrado.
Tia, eu trouxe este cozido de lebre que minha mãe mandou…”
Minha tia não me deu a menor bola, só fazia chorar.
Tia”, eu disse aos soluços, “não chore, prove um pouco da comida…”
Coloquei sobre a mesa a trouxinha que carregava, desatei o nó e deixei a vasilha bem ao lado dela.
Com um movimento do braço, a tia mandou a tigela para o chão. A vasilha caiu e se espatifou.
Fora! Fora! Fora!” Levantou a cabeça aos berros: “Suma da minha frente, seu imbecil! Fora daqui!”.

Mo Yan, in As rãs

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