Acordar
não é de dentro. Acordar é ter saída.
João
Cabral de Melo Neto
Logo
na primeira noite após a sua morte, depositaram Dito Mariano num
caixão. Sobre aquela mesma mesa o encaixotaram, acreditando ter ele
superado a última fronteira. A Avó Dulcineusa intentou chamar o
padre. Mas a família, razoável, se opôs. O falecido nunca
aceitaria óleos e rezas. Respeitassem esse descrer. Dulcineusa não
respeitou. A coberto da noite, ela se infiltrou na casa acompanhada
pelo padre. E olearam o defunto, tornando-o escorregadio para as
passagens rumo à eternidade.
Na
manhã seguinte, porém, o corpo apareceu fora do caixão, posto
sobre o afamado lençol. Como tinha saído? A suspeita perpassou para
toda a família. Aquela não era uma morte, o comum fim de viagem. O
falecido estava com dificuldade de transitação, encravado na
fronteira entre os mundos. A suspeita de feitiço estava instalada na
família e contaminava a casa inteira.
Por
isso, me aproximo com receio do lugar fúnebre. A sala onde
depositaram o Avô está toda aberta aos céus. A luz e o escuro
aproveitam a ausência de tecto. Aflige-me aquela desprotecção. E
se chover, se a nuvem se despejar sobre o indefeso corpo de Mariano?
Ali se exibe o Avô, todo estrelinhado. Ele que não dormira nunca
senão no chão está agora escarrapousado numa mesa mais magra que
ele. Mariano sempre se defendeu de adormecer no leito. Cama era só
para namorar. Conforme dizia: incorre-se no risco de cair ou, ainda
pior, de nunca mais descer. Preferia ter a terra toda por cama.
– É
como banheira, ninguém me viu entrar numa.
Para
Dito Mariano, a banheira era uma outra espécie de cama. Se havia que
se lavar, ele queria a água bem viva, a correnteza do rio, o
despenho da chuva.
Tudo
isso parece agora distante, um cacimbo denso me separa desse tempo.
Visto de mais perto, o Avô parece apenas descansar. No sono engendra
um outro sono, o fatal fingimento da morte? Ou tivesse no escuro
interior de si uma morte verdadeira mas insuficiente? Certo, sim, ele
dava desacordo de si. E até, salvo seja, um riso lhe transflora nos
lábios. Como se fosse uma vigília às avessas, como se ele,
divertido, nos presenciasse já falecidos.
Olhando-o,
assim, tão de fato e gravata, me recordo de sua afável temperança.
Os diários bons-dias dele. Aquele mesmo riso, agora gravado em sua
última máscara. E nós: – Então como anda, Avô? Suspenso na
ponta dos pés, Mariano desvariava a resposta: – Vou andando-me,
filho. Mais e menos. Olha subindo mais que descendo.
A
conversa era um cantar de sapo. Pois ele, sem pre mais sedento que
sedentário, não tardava:_– Você leve este dinheirito,
desloque-se à tenda e me abasteça de uma derrubadeira.
Estendia-me
a mão mas era gesto vazio. Nos seus dedos não constava nem moeda
nem nota. O dono do bar, o mulato Tuzébio, já sabia da fiança. E
tinha a dose preparada. A derrubadeira – a xidiba ndoda – era a
mais viril aguardente. Na garrafa, Tuzébio metia umas gotas de
ácido, desses mungidos de uma bateria de carro.
– É
para ativar o motor de arranque – ria o Avô.
Aquele
era um tempo sem guerra, sem morte. A terra estava aberta a futuros,
como uma folha branca em mão de criança. Vovô Mariano era apenas
isso: o pai de meu pai. Homem desamarrado, gostoso de rir, falando e
sentindo alto. O preferido de sua conversa: as mulheres. Me fazia
crer que conservava a potência. Se preservava macho, porque, dizia
ele, nunca tinha apanhado injecção. E estendia o dedo sábio: –
Nunca aceite, filho. Aquela agulha lhe entra no corpo e você amolece
mais que bananeira morta.
Me
segredara promessa: não morrer antes de possuir a centésima mulher.
As amantes todas, sem excepção, ele as desfrutara na mesma cama,
sobre o mesmo lençol. Umas tantas vezes me estendeu o infalível
pano: – Cheire! Cheira a quê?
– Não
sei, Avô.
– Cheira
à vida, moço. Cheira à vida.
Esse
mesmo lençol lhe dava agora assento ao corpo, na solidão da sala
fúnebre. Custa-me vê-lo definitivamente deitado, dói-me pensar que
nunca mais o escutarei contando histórias. Ter um avô assim era
para mim mais que um parentesco. Era um de orgulho nas raízes mais
antigas. Ainda que fosse uma romanteação das minhas origens mas eu,
deslocado que estou dos meus, necessitava dessa ligação como quem
carece de um Deus.
Tanto
me embrenho em matutação que nem dou conta de um vulto que se
aproxima, a escondido do escuro.
– Quem
está aí? A voz inquisitiva de Dulcineusa me sobressalta. Afinal, a
ideia dos fantasmas, esses mal-morridos, está ainda bem presente em
mim, citadino que sou.
– Sou
eu, Avó. Sou eu, seu neto Mariano.
– Não
tenho neto vivo, estão todos mortos.
– Avó,
sou eu, Marianinho...
– Não
conheço. E não me chame de Avó!
– Ainda
há pouco estive falando consigo e seus filhos, Fulano, Abstinêncio
e Ultímio.
– Meus
filhos já morreram. Estou sozinha nesse mundo, só eu.
– Não
está sozinha, Avó, aqui consigo estão tantas pessoas.
– Não
há pessoa viva na nossa terra. É tudo um cemitério. Um cemitério
é tudo o que há agora.
E
rodopia sobre si mesma, repetindo, cabisbaixinha: Só há falecidos,
só há falecidos! Acaba por se sentar, suspensa a olhar as paredes.
Depois, pede que lhe traga água. Enquanto procuro um copo, ela me
olha, corujando-me atenta.
– Você
é meu neto Mariano?
– Sou
sim, Avó.
– E
está vivo?
– Estou
sim, Avó. Isto é, creio que sim. Ou, como diria o Avô, mais e
menos, subindo mais que descendo.
– Os
outros não vão gostar de lhe ver aqui.
– Vou
já sair, Avó.
– Não
vá. Sente-se aqui, meu filho. Quero falar-lhe umas lembranças.
Lembra-me
quando eu era mais miúdo, quando ainda residia na Ilha e minha mãe
era viva. Desde que eu nascera o Avô Mariano me havia escolhido para
sua preferência. Herdara seu nome. E ele, vaidoso, até me trazia às
costas, que é coisa interdita para um homem.
Depois
minha mãe morreu, decidiram mandar-me para a cidade. A Avó lembrava
o dia de minha partida para a cidade. Recordava tudo desse adeus: os
ares da tarde, as cores do céu, o precoce despertar da lua. E,
sobretudo, o ter surpreendido o velho Mariano a chorar.
– Seu
Avô nunca chorara antes.
Ela
se aproximara, carinhosa, para enxugar as lágrimas ao marido. E ele,
violento, lhe tinha prendido a mão. Não toque em mim agora, que
estas águas devem tombar no chão, assim ele disse. Vendo a agonia
em Dito Mariano, eu ainda tentara um consolo: – Eu volto, Avô.
Esta é a nossa casa.
– Quando
voltares, a casa já não te reconhecerá – respondeu o Avô.
O
velho Mariano sabia: quem parte de um lugar tão pequeno, mesmo que
volte, nunca retoma. Aquele não seria o lugar de minhas cinzas.
Assim fora com os outros, assim seria comigo. E o vaticínio dele se
foi cumprindo. Na cidade, fiquei um tempo com os Lopes, um casal de
portugueses que trabalhara na Ilha. Depois, a família se quotizou
para me pagar um quarto na residência universitária. Enquanto
estudante liceal eu visitava a Ilha com frequência. Depois, essas
visitas foram escasseando, até que deixei de vir.
A
Avó suspende as lembranças e me afaga o rosto. Mas logo ela se
emenda como se tomasse consciência da repugnância que me podem
causar as suas mãos lazarentas.
– Desculpe,
meu neto. Isto não são dedos... Já não me fazem impressão
aqueles dedos gastados, tão terno é o seu gesto. Lhe seguro a mão
e a trago de volta para o meu rosto. Beijo os seus dedos. Ela
sente-se beijada na alma.
– Agora,
meu neto, lhe quero perguntar a coisa mais séria.
– Pergunte,
Avó.
– Alguma
vez Mariano lhe falou no amor que ele tinha por mim? – Bem, que eu
me lembre...
– Me
fala disso, meu neto, me fala disso.
O
que sabia eu? Meu Avô falava-me, sim. Mas sempre carregado de
mentira. De todas as vezes que eu visitara a Ilha, o Avô se gloriava
das suas muitas conquistas. Nada que eu pudesse agora invocar para
Dulcineusa. O que ele insistia era o mandamento: – Fazer amor, sim
e sempre. Dormir com mulher, isso é que nunca.
E
explicava: dormir com alguém é a intimidade maior. Não é fazer
amor. Dormir, isso é que é íntimo. Um homem dorme nos braços de
mulher e a sua alma se transfere de vez. Nunca mais ele encontra suas
interioridades. Por isso, de noite, puxava a esteira para fora do
quarto e se deitava na sala. Lembro a mão batendo no peito, enquanto
repetia com orgulho: – Nunca dormi com mulher, é verdade. Mas
dormi em mulher. E isso pouco homem fez.
Dito
Mariano amava Dulcineusa? Essa era a minha crença, O particípio sem
passado. Recordava-me das conversas entre eles, já velhos que eram.
A Avó Dulcineusa sentada na berma da cama: – Você já não sonha
comigo, homem? – Sonho, sim.
– Mentira,
não sonha.
– E
como sabe, Dulcineusa? – Porque, ultimamente, não tenho andado
bonita.
No
seguido, logo ele se levantava e a abraçava como se a tivesse visto
pela primeira vez. E os dois se milagravam. No rosto de Dulcineusa se
apagava a ruga. Essa mesma ruga que sublinha agora a sua ansiedade.
– Me
diga, meu neto: ele dizia que me amava?
– Quer
dizer, falava de modo indirecto.
– Eu
preciso que me conte isso, meu neto. Lhe explico: este enviuvar me
parece quase um casamento.
– Um
casamento?
– É
o que eu sinto, sem Mariano. A alegria de só agora casar com ele.
– Isso
não é pecado, Avó. Até é bonito...
– Me
apetece, pela primeira vez, subir a bainha, baixar o decote, usar
pó-de-arroz.
O
modo como os dois se encontraram era história na família. Mariano
repetia vezes sem conta esse episódio. Mas com variações tantas
que nunca se podia empenhar crédito. – Fosse eu assim, velho,
quando lhe encontrei e eu lhe teria amado melhor. Não tanto, mas
melhor, muito melhor.
Dulcineusa
fingia um desdenho: – Há tanta vizinha e logo você foi notar em
mim.
Mariano
já não seria muito moço quando a conheceu. A Avó era operária na
fábrica de caju, descascadora dos ácidos frutos. Nessa altura, as
mãos dela ainda não tinham sido comidas pelas corrosivas seivas do
caju. Dito Mariano possuía um gato, treinado para os indevidos fins.
O bichano era lançado em plenas vielas nocturnas e se infiltrava
pelos quintais até detectar uma moça solteira, disposta e
disponível. Durante consecutivas noites, o gato insistiu em se
imiscuir na casa de Dulcineusa. Não havia dúvida: era ela a
escolhida. Mariano começou a aparecer no pátio de Dulcineusa com
desculpa de comprar castanha de caju. Ela ainda era magrita, bem
cabida nos panos, lenço adornando a cabeça, brinco de missangas na
orelha.
Dulcineusa
sorria, matreiramente, quando o via surgir. Mas ele não se afigurava
em fraqueza. Ombros empinados, pescoço hasteado. A frase lustrada,
tão bem escolhida quanto o sapato. A Avó, mesmo assim, resistia: –
Não sou namorável, Mariano.
– E
se eu lhe pedir um beijo?
– Vou
demorar a vida inteira para lhe dar esse beijo.
– Eu
espero, então.
Vantagem
de pobre é saber esperar. Esperar sem dor. Porque é espera sem
esperança. Mariano sofria sem pressa. Isso, ele me ensinara: o
segredo é demorar o sofrimento, cozinhá-lo em lentíssimo fogo, até
que ele se espalhe, diluto, no infinito do tempo. Todos confirmavam:
Mariano era um homem garganteador mas generoso e de recto princípio.
– Sou
tão bom que até perdi o carácter – admitia ele. – A bondade me
destemperamentou.
Dulcineusa
não se conformava, porém, com essa generosidade que ele dirigia
para todos menos para ela. Por que motivo nunca lhe dedicara flores,
não lhe trouxera panos, nem lhe dirigira carinhos? – Não se dá
nome às estrelas – ripostava Mariano.
O
Avô defendia-se na tradição. Homem que se queira macho não pode
dar nem receber carinhos em público. Namoros são assuntos privados.
Dulcineusa acabou resignando. Pior para ela era Mariano recusar
desfazer-se do tal gato. A mulher bem queria dar despacho ao
mal-afamado bichano. Por que razão ele mantinha precisão no serviço
do detector de moças, até hoje a Avó cismava.
Um
suspiro lhe remata a angústia. As memórias lhe fazem bem. A Avó
afaga uma mão com a outra como se entendesse retificar o seu
destino, desenhado em seus entortados dedos.
– Agora,
meu neto, me chegue aquele álbum. Aponta um velho álbum de
fotografias pousado na poeira do armário. Era ali que, às
escondidas, ela vinha tirar vingança do tempo. Naquele livro a Avó
visitava lembranças, doces revivências.
Mas
quando o álbum se abre em seu colo eu reparo, espantado, que não há
fotografia nenhuma. As páginas de desbotada cartolina estão vazias.
Ainda se notam as marcas onde, antes, estiveram coladas fotos.
– Vá.
Sente aqui que eu lhe mostro.
Finjo
que acompanho, cúmplice da mentira. – Está ver aqui seu pai, tão
novo, tão clarinho até parece mulato? E vai repassando as folhas
vazias, com aqueles seus dedos sem aptidão, a voz num fio como se
não quisesse despertar os fotografados.
– Aqui,
veja bem, aqui está sua mãe. E olhe nesta, você, tão pequeninho!
Vê como está bonita consigo no colo? Me comovo, tal é a convicção
que deitava em suas visões, a ponto de os meus dedos serem chamados
a tocar o velho álbum. Mas Dulcineusa corrige-me.
– Não
passe a mão pelas fotos que se estragam. Elas são o contrário de
nós: apagam-se quando recebem carícias.
Dulcineusa
queixa-se que ela nunca aparece em nenhuma foto. Sem remorso, empurro
mais longe a ilusão. Afinal, a fotografia é sempre uma mentira.
Tudo na vida está acontecendo por repetida vez.
– Engano
seu. Veja esta foto, aqui está a Avó. – Onde? Aqui no meio desta
gente toda? – Sim, Avó. É a senhora aqui de vestido branco. –
Era uma festa? Parece uma festa.
– Era
a festa de aniversário da Avó! Vou ganhando coragem, quase
acreditando na quela falsidade.
– Não
me lembro que me tivessem feito uma festa.. .
– E
aqui, veja aqui, é o Avô lhe entregando uma prenda.
– Mostre!
Que prenda é essa, afinal? – É um anel, Avó. Veja bem, como
brilha esse anel! Dulcineusa fixa a inexistente foto de ângulos
diversos. Depois, contempla longamente as mãos como se as comparasse
com a imagem ou nelas se lembrasse de um outro tempo.
– Pronto,
agora vá. Me deixe aqui, sozinha. Vou saindo, com respeitosos
vagares. Já no limiar da porta, a Avó me chama. Em seu rosto,
adivinho um sorriso: – Obrigada, meu neto. – Obrigada porquê? –
Você mente com tanta bondade que até Deus lhe ajuda a pecar.
Mia Couto, in Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra

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