sábado, 18 de junho de 2022

Um lençol de amores (Capítulo três)


Acordar não é de dentro. Acordar é ter saída.
João Cabral de Melo Neto

Logo na primeira noite após a sua morte, depositaram Dito Mariano num caixão. Sobre aquela mesma mesa o encaixotaram, acreditando ter ele superado a última fronteira. A Avó Dulcineusa intentou chamar o padre. Mas a família, razoável, se opôs. O falecido nunca aceitaria óleos e rezas. Respeitassem esse descrer. Dulcineusa não respeitou. A coberto da noite, ela se infiltrou na casa acompanhada pelo padre. E olearam o defunto, tornando-o escorregadio para as passagens rumo à eternidade.
Na manhã seguinte, porém, o corpo apareceu fora do caixão, posto sobre o afamado lençol. Como tinha saído? A suspeita perpassou para toda a família. Aquela não era uma morte, o comum fim de viagem. O falecido estava com dificuldade de transitação, encravado na fronteira entre os mundos. A suspeita de feitiço estava instalada na família e contaminava a casa inteira.
Por isso, me aproximo com receio do lugar fúnebre. A sala onde depositaram o Avô está toda aberta aos céus. A luz e o escuro aproveitam a ausência de tecto. Aflige-me aquela desprotecção. E se chover, se a nuvem se despejar sobre o indefeso corpo de Mariano? Ali se exibe o Avô, todo estrelinhado. Ele que não dormira nunca senão no chão está agora escarrapousado numa mesa mais magra que ele. Mariano sempre se defendeu de adormecer no leito. Cama era só para namorar. Conforme dizia: incorre-se no risco de cair ou, ainda pior, de nunca mais descer. Preferia ter a terra toda por cama.
É como banheira, ninguém me viu entrar numa.
Para Dito Mariano, a banheira era uma outra espécie de cama. Se havia que se lavar, ele queria a água bem viva, a correnteza do rio, o despenho da chuva.
Tudo isso parece agora distante, um cacimbo denso me separa desse tempo. Visto de mais perto, o Avô parece apenas descansar. No sono engendra um outro sono, o fatal fingimento da morte? Ou tivesse no escuro interior de si uma morte verdadeira mas insuficiente? Certo, sim, ele dava desacordo de si. E até, salvo seja, um riso lhe transflora nos lábios. Como se fosse uma vigília às avessas, como se ele, divertido, nos presenciasse já falecidos.
Olhando-o, assim, tão de fato e gravata, me recordo de sua afável temperança. Os diários bons-dias dele. Aquele mesmo riso, agora gravado em sua última máscara. E nós: – Então como anda, Avô? Suspenso na ponta dos pés, Mariano desvariava a resposta: – Vou andando-me, filho. Mais e menos. Olha subindo mais que descendo.
A conversa era um cantar de sapo. Pois ele, sem pre mais sedento que sedentário, não tardava:_– Você leve este dinheirito, desloque-se à tenda e me abasteça de uma derrubadeira.
Estendia-me a mão mas era gesto vazio. Nos seus dedos não constava nem moeda nem nota. O dono do bar, o mulato Tuzébio, já sabia da fiança. E tinha a dose preparada. A derrubadeira – a xidiba ndoda – era a mais viril aguardente. Na garrafa, Tuzébio metia umas gotas de ácido, desses mungidos de uma bateria de carro.
É para ativar o motor de arranque – ria o Avô.
Aquele era um tempo sem guerra, sem morte. A terra estava aberta a futuros, como uma folha branca em mão de criança. Vovô Mariano era apenas isso: o pai de meu pai. Homem desamarrado, gostoso de rir, falando e sentindo alto. O preferido de sua conversa: as mulheres. Me fazia crer que conservava a potência. Se preservava macho, porque, dizia ele, nunca tinha apanhado injecção. E estendia o dedo sábio: – Nunca aceite, filho. Aquela agulha lhe entra no corpo e você amolece mais que bananeira morta.
Me segredara promessa: não morrer antes de possuir a centésima mulher. As amantes todas, sem excepção, ele as desfrutara na mesma cama, sobre o mesmo lençol. Umas tantas vezes me estendeu o infalível pano: – Cheire! Cheira a quê?
Não sei, Avô.
Cheira à vida, moço. Cheira à vida.
Esse mesmo lençol lhe dava agora assento ao corpo, na solidão da sala fúnebre. Custa-me vê-lo definitivamente deitado, dói-me pensar que nunca mais o escutarei contando histórias. Ter um avô assim era para mim mais que um parentesco. Era um de orgulho nas raízes mais antigas. Ainda que fosse uma romanteação das minhas origens mas eu, deslocado que estou dos meus, necessitava dessa ligação como quem carece de um Deus.
Tanto me embrenho em matutação que nem dou conta de um vulto que se aproxima, a escondido do escuro.
Quem está aí? A voz inquisitiva de Dulcineusa me sobressalta. Afinal, a ideia dos fantasmas, esses mal-morridos, está ainda bem presente em mim, citadino que sou.
Sou eu, Avó. Sou eu, seu neto Mariano.
Não tenho neto vivo, estão todos mortos.
Avó, sou eu, Marianinho...
Não conheço. E não me chame de Avó!
Ainda há pouco estive falando consigo e seus filhos, Fulano, Abstinêncio e Ultímio.
Meus filhos já morreram. Estou sozinha nesse mundo, só eu.
Não está sozinha, Avó, aqui consigo estão tantas pessoas.
Não há pessoa viva na nossa terra. É tudo um cemitério. Um cemitério é tudo o que há agora.
E rodopia sobre si mesma, repetindo, cabisbaixinha: Só há falecidos, só há falecidos! Acaba por se sentar, suspensa a olhar as paredes. Depois, pede que lhe traga água. Enquanto procuro um copo, ela me olha, corujando-me atenta.
Você é meu neto Mariano?
Sou sim, Avó.
E está vivo?
Estou sim, Avó. Isto é, creio que sim. Ou, como diria o Avô, mais e menos, subindo mais que descendo.
Os outros não vão gostar de lhe ver aqui.
Vou já sair, Avó.
Não vá. Sente-se aqui, meu filho. Quero falar-lhe umas lembranças.
Lembra-me quando eu era mais miúdo, quando ainda residia na Ilha e minha mãe era viva. Desde que eu nascera o Avô Mariano me havia escolhido para sua preferência. Herdara seu nome. E ele, vaidoso, até me trazia às costas, que é coisa interdita para um homem.
Depois minha mãe morreu, decidiram mandar-me para a cidade. A Avó lembrava o dia de minha partida para a cidade. Recordava tudo desse adeus: os ares da tarde, as cores do céu, o precoce despertar da lua. E, sobretudo, o ter surpreendido o velho Mariano a chorar.
Seu Avô nunca chorara antes.
Ela se aproximara, carinhosa, para enxugar as lágrimas ao marido. E ele, violento, lhe tinha prendido a mão. Não toque em mim agora, que estas águas devem tombar no chão, assim ele disse. Vendo a agonia em Dito Mariano, eu ainda tentara um consolo: – Eu volto, Avô. Esta é a nossa casa.
Quando voltares, a casa já não te reconhecerá – respondeu o Avô.
O velho Mariano sabia: quem parte de um lugar tão pequeno, mesmo que volte, nunca retoma. Aquele não seria o lugar de minhas cinzas. Assim fora com os outros, assim seria comigo. E o vaticínio dele se foi cumprindo. Na cidade, fiquei um tempo com os Lopes, um casal de portugueses que trabalhara na Ilha. Depois, a família se quotizou para me pagar um quarto na residência universitária. Enquanto estudante liceal eu visitava a Ilha com frequência. Depois, essas visitas foram escasseando, até que deixei de vir.
A Avó suspende as lembranças e me afaga o rosto. Mas logo ela se emenda como se tomasse consciência da repugnância que me podem causar as suas mãos lazarentas.
Desculpe, meu neto. Isto não são dedos... Já não me fazem impressão aqueles dedos gastados, tão terno é o seu gesto. Lhe seguro a mão e a trago de volta para o meu rosto. Beijo os seus dedos. Ela sente-se beijada na alma.
Agora, meu neto, lhe quero perguntar a coisa mais séria.
Pergunte, Avó.
Alguma vez Mariano lhe falou no amor que ele tinha por mim? – Bem, que eu me lembre...
Me fala disso, meu neto, me fala disso.
O que sabia eu? Meu Avô falava-me, sim. Mas sempre carregado de mentira. De todas as vezes que eu visitara a Ilha, o Avô se gloriava das suas muitas conquistas. Nada que eu pudesse agora invocar para Dulcineusa. O que ele insistia era o mandamento: – Fazer amor, sim e sempre. Dormir com mulher, isso é que nunca.
E explicava: dormir com alguém é a intimidade maior. Não é fazer amor. Dormir, isso é que é íntimo. Um homem dorme nos braços de mulher e a sua alma se transfere de vez. Nunca mais ele encontra suas interioridades. Por isso, de noite, puxava a esteira para fora do quarto e se deitava na sala. Lembro a mão batendo no peito, enquanto repetia com orgulho: – Nunca dormi com mulher, é verdade. Mas dormi em mulher. E isso pouco homem fez.
Dito Mariano amava Dulcineusa? Essa era a minha crença, O particípio sem passado. Recordava-me das conversas entre eles, já velhos que eram. A Avó Dulcineusa sentada na berma da cama: – Você já não sonha comigo, homem? – Sonho, sim.
Mentira, não sonha.
E como sabe, Dulcineusa? – Porque, ultimamente, não tenho andado bonita.
No seguido, logo ele se levantava e a abraçava como se a tivesse visto pela primeira vez. E os dois se milagravam. No rosto de Dulcineusa se apagava a ruga. Essa mesma ruga que sublinha agora a sua ansiedade.
Me diga, meu neto: ele dizia que me amava?
Quer dizer, falava de modo indirecto.
Eu preciso que me conte isso, meu neto. Lhe explico: este enviuvar me parece quase um casamento.
Um casamento?
É o que eu sinto, sem Mariano. A alegria de só agora casar com ele.
Isso não é pecado, Avó. Até é bonito...
Me apetece, pela primeira vez, subir a bainha, baixar o decote, usar pó-de-arroz.
O modo como os dois se encontraram era história na família. Mariano repetia vezes sem conta esse episódio. Mas com variações tantas que nunca se podia empenhar crédito. – Fosse eu assim, velho, quando lhe encontrei e eu lhe teria amado melhor. Não tanto, mas melhor, muito melhor.
Dulcineusa fingia um desdenho: – Há tanta vizinha e logo você foi notar em mim.
Mariano já não seria muito moço quando a conheceu. A Avó era operária na fábrica de caju, descascadora dos ácidos frutos. Nessa altura, as mãos dela ainda não tinham sido comidas pelas corrosivas seivas do caju. Dito Mariano possuía um gato, treinado para os indevidos fins. O bichano era lançado em plenas vielas nocturnas e se infiltrava pelos quintais até detectar uma moça solteira, disposta e disponível. Durante consecutivas noites, o gato insistiu em se imiscuir na casa de Dulcineusa. Não havia dúvida: era ela a escolhida. Mariano começou a aparecer no pátio de Dulcineusa com desculpa de comprar castanha de caju. Ela ainda era magrita, bem cabida nos panos, lenço adornando a cabeça, brinco de missangas na orelha.
Dulcineusa sorria, matreiramente, quando o via surgir. Mas ele não se afigurava em fraqueza. Ombros empinados, pescoço hasteado. A frase lustrada, tão bem escolhida quanto o sapato. A Avó, mesmo assim, resistia: – Não sou namorável, Mariano.
E se eu lhe pedir um beijo?
Vou demorar a vida inteira para lhe dar esse beijo.
Eu espero, então.
Vantagem de pobre é saber esperar. Esperar sem dor. Porque é espera sem esperança. Mariano sofria sem pressa. Isso, ele me ensinara: o segredo é demorar o sofrimento, cozinhá-lo em lentíssimo fogo, até que ele se espalhe, diluto, no infinito do tempo. Todos confirmavam: Mariano era um homem garganteador mas generoso e de recto princípio.
Sou tão bom que até perdi o carácter – admitia ele. – A bondade me destemperamentou.
Dulcineusa não se conformava, porém, com essa generosidade que ele dirigia para todos menos para ela. Por que motivo nunca lhe dedicara flores, não lhe trouxera panos, nem lhe dirigira carinhos? – Não se dá nome às estrelas – ripostava Mariano.
O Avô defendia-se na tradição. Homem que se queira macho não pode dar nem receber carinhos em público. Namoros são assuntos privados. Dulcineusa acabou resignando. Pior para ela era Mariano recusar desfazer-se do tal gato. A mulher bem queria dar despacho ao mal-afamado bichano. Por que razão ele mantinha precisão no serviço do detector de moças, até hoje a Avó cismava.
Um suspiro lhe remata a angústia. As memórias lhe fazem bem. A Avó afaga uma mão com a outra como se entendesse retificar o seu destino, desenhado em seus entortados dedos.
Agora, meu neto, me chegue aquele álbum. Aponta um velho álbum de fotografias pousado na poeira do armário. Era ali que, às escondidas, ela vinha tirar vingança do tempo. Naquele livro a Avó visitava lembranças, doces revivências.
Mas quando o álbum se abre em seu colo eu reparo, espantado, que não há fotografia nenhuma. As páginas de desbotada cartolina estão vazias. Ainda se notam as marcas onde, antes, estiveram coladas fotos.
Vá. Sente aqui que eu lhe mostro.
Finjo que acompanho, cúmplice da mentira. – Está ver aqui seu pai, tão novo, tão clarinho até parece mulato? E vai repassando as folhas vazias, com aqueles seus dedos sem aptidão, a voz num fio como se não quisesse despertar os fotografados.
Aqui, veja bem, aqui está sua mãe. E olhe nesta, você, tão pequeninho! Vê como está bonita consigo no colo? Me comovo, tal é a convicção que deitava em suas visões, a ponto de os meus dedos serem chamados a tocar o velho álbum. Mas Dulcineusa corrige-me.
Não passe a mão pelas fotos que se estragam. Elas são o contrário de nós: apagam-se quando recebem carícias.
Dulcineusa queixa-se que ela nunca aparece em nenhuma foto. Sem remorso, empurro mais longe a ilusão. Afinal, a fotografia é sempre uma mentira. Tudo na vida está acontecendo por repetida vez.
Engano seu. Veja esta foto, aqui está a Avó. – Onde? Aqui no meio desta gente toda? – Sim, Avó. É a senhora aqui de vestido branco. – Era uma festa? Parece uma festa.
Era a festa de aniversário da Avó! Vou ganhando coragem, quase acreditando na quela falsidade.
Não me lembro que me tivessem feito uma festa.. .
E aqui, veja aqui, é o Avô lhe entregando uma prenda.
Mostre! Que prenda é essa, afinal? – É um anel, Avó. Veja bem, como brilha esse anel! Dulcineusa fixa a inexistente foto de ângulos diversos. Depois, contempla longamente as mãos como se as comparasse com a imagem ou nelas se lembrasse de um outro tempo.
Pronto, agora vá. Me deixe aqui, sozinha. Vou saindo, com respeitosos vagares. Já no limiar da porta, a Avó me chama. Em seu rosto, adivinho um sorriso: – Obrigada, meu neto. – Obrigada porquê? – Você mente com tanta bondade que até Deus lhe ajuda a pecar.

Mia Couto, in Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra

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