segunda-feira, 20 de junho de 2022

Por que Almocei meu Pai | 4


O fogo proporcionava-nos luz depois do sol desaparecer, e aprendemos o infinito luxo de podermos nos descontrair à sua volta durante o serão, mastigando a nossa comida, chupando tutano e contando histórias. Estas, nesses primeiros tempos, vinham sobretudo do Pai, e a melhor de todas era a história de como nos trouxera o fogo selvagem. Lembro-me dela palavra por palavra.
Todos vocês se lembram — disse o Pai, instalando-se confortavelmente com um pau para afiar, pois quase nunca o víamos inativo. — Todos vocês se lembram como a vida era difícil nesses dias. Estávamos sendo acossados e dizimados até à extinção. Vocês perderam tios, tias, irmãos e irmãs no massacre. Os carnívoros tinham-se voltado para nós como perspectiva de refeição por causa da escassez de caça ungulada nesta região. Não tenho a certeza da causa desta escassez de ungulados. Talvez tenha sido causada por uma série de estações secas que reduziram as pastagens, ou talvez alguma nova doença de gado tenha reduzido o seu número. De qualquer modo, desde que os felinos começaram a nos comer à sua vontade, tomaram o gosto e o hábito e, claro, achavam-nos mais fáceis de abater.
Podereis perguntar porque é que eu não decidi levar-vos para áreas mais seguras. Claro que ponderei esta possibilidade longa e ansiosamente. Mas para onde iríamos? Para o Norte, para o meio das planícies, onde os carnívoros nos acompanhariam cobrando o seu tributo à medida que avançássemos? Para a floresta de novo, onde mesmo agora o Vanya sente cada vez mais dificuldade em sobreviver? Para mim, era impensável sacrificar centenas de milhares de anos de evolução e de cultura da Idade da Pedra recomeçando de novo como macacos nas árvores. O meu velho pai ter-se-ia revolvido na sua sepultura, que fica na barriga de um crocodilo, se eu tivesse traído dessa maneira tudo aquilo por que ele tinha lutado. Tínhamos que ficar, mas tínhamos que usar a cabeça. Tínhamos que encontrar alguma forma de fazer com que os leões parassem, de uma vez por todas, de nos comer. De que maneira? Acabei por perceber que esta era a questão-chave. É esta a beleza do pensamento lógico: podemos eliminar sistematicamente as alternativas até ficarmos apenas com a questão-base que deve ser respondida.
O Pai retirou do fogo um galho carbonizado e examinou pensativamente a sua ponta fumegante.
Eu sabia, como todos nós sabemos, que os animais temem o fogo. Nós próprios temos medo dele, sendo animais como os outros. Volta e meia temo-lo visto borbulhar e ferver escorrendo pelas encostas das montanhas incendiando florestas inteiras. Nessa altura, todas as espécies de animais fogem para longe dele aterrorizadas. Nós corremos quase tão depressa como os veados e o perigo irmana leões e homens-macaco. Já vimos montanhas inteiras explodirem em fumo e chamas e todos os animais em pânico a correrem de um lado para o outro. Não é frequente, mas sabemos quais as consequências quando ocorre. Não há pior dor do que a de uma queimadura nem pior morte do que morrer queimado. Ou pelo menos assim parece. Então, o meu problema era conseguir o efeito de um vulcão sem eu próprio explodir. O que eu queria era um vulcão pequeno e portátil. A ideia genérica ocorreu-me com uma súbita e viva clareza quando, uma noite, estava fortalecendo as barricadas. Mas a ideia geral, a solução teórica, é uma coisa; uma aplicação concreta é muito diferente. Ideias na cabeça não expulsam ursos para fora de cavernas. Sentia-me muito orgulhoso com a elegância da minha teoria, mas apercebi-me de que, se não fizesse alguma coisa além de apreciá-la, seria infalivelmente comido com o resto da minha família.
Como funcionava o fogo? A segunda ideia decisiva, que me ocorreu algum tempo depois, foi a de que devia subir até ao cimo de um vulcão e observar. Era obviamente o que havia a fazer e, depois de ter pensado nisso, garanto-vos que me amaldiçoei por não me ter ocorrido antes. Agora teria que o fazer no meio de uma emergência. Mas era evidente que a minha única esperança de encontrar o tipo de fogo limitado, tamanho-família, que eu pretendia, era subir ao cimo de um vulcão e tentar, de alguma maneira, retirar um pedaço. Não havia mais nenhum lugar onde procurar nem tempo para pensar onde procurar. Decidi arriscar tudo numa última tentativa.
Assim, subi ao Ruwenzori. Guiei-me pelas chamas que emergiam do topo e, contornando os glaciares por um dos lados, subi firmemente. A montanha está rodeada por uma cintura florestal, sobretudo de cânfora e euforbiácea, e atravessei-a o mais depressa que pude, parte do caminho pelo chão e parte dele pelas árvores. A princípio tinha a companhia de animais (javalis africanos, macacos, bastantes felinos e outros animais semelhantes) e de bandos de pássaros. Mas gradualmente, à medida que as árvores iam rareando, vi-me cada vez mais sozinho. Ouvia-se um barulho de roncos subterrâneos que lembravam os de um leão. Finalmente, encontrei-me numa espécie de savana de rochas escurecidas, canteiros de relva e árvores atrofiadas. Estava um frio de morte e havia mesmo manchas de neve. O ar estava a tornar-se rarefeito e eu respirava em arfadas dolorosas. Agora estava completamente só, à exceção de um Tetratomis, voando em círculos bem acima do topo das árvores que eu há muito deixara para trás, e que àquela distância não parecia maior do que uma águia. Um vento gelado soprava lugubremente quando atingi uma região desolada onde os meus ombros tremiam de frio e, no entanto, com as rochas, muitas vezes, dolorosamente quentes sob os meus pés. Comecei a perguntar-me porque é que, de todo, ali tinha ido: à minha frente estendia-se apenas rocha escarpada e lava solidificada e, lá no alto, sob uma nuvem de fumo negro, erguiam-se as bordas gretadas da cratera. A louca presunção da minha procura abateu-se sobre mim: procurar um instrumento que chamuscasse os pelos de um leão num lugar onde as rochas estavam queimadas como se de madeira morta se tratasse. Senti um profundo desânimo e uma desesperada vontade de desistir. Mas apercebi-me que voltar de mãos vazias era o mesmo que não voltar. O puro interesse pela cena que se desenrolava à minha frente fez-me avançar.
A minha persistência foi subitamente recompensada. Descobri que não podia, como era minha intenção, escalar a direito até à beira da cratera porque as rochas erguiam-se diante de mim na vertical por uns seiscentos metros ou mais. Não tinha outro remédio senão mover-me em espiral à volta da cratera mas, quando cheguei à face oposta da montanha, vi uma coisa que reacendeu as minhas esperanças. Vi que não seria necessário ir mesmo até ao cimo, o que poderia, de facto, ter-me levado dias, mesmo que conseguisse sobreviver a uma noite passada ao relento naquele local. Agora, porém, podia ver que, daquele lado da montanha o fumo e o vapor brotavam de um lugar mais baixo, apenas um pouco acima do lugar onde me encontrava. Alguma forma de fogo devia portanto estar acessível mais abaixo e muito mais longe dos perigos da própria cratera, brilhando e borbulhando a milhares de graus Fahrenheit. Consequentemente, atravessei obliquamente a montanha em direção ao fumo. Aí, depois de duro trabalho, contemplei algo providencial. O interior líquido da montanha estava sendo espremido para fora e a escorrer lentamente pela encosta abaixo. Era como se a montanha tivesse sido rasgada por um inimigo e as suas entranhas vermelhas estivessem sendo obrigadas a sair pelo corte, ou então talvez tivesse tido alguma espécie de ataque bilioso e estivesse a vomitar. Acredito que isto me aproximou da verdade acerca do modo como o próprio mundo foi feito. Mas, infelizmente, só tinha tempo para fazer observações muito apressadas. O que me interessava de forma mais imediata era o facto de que, quando o vômito quente tocava uma árvore que estivesse no seu caminho, essa árvore imediatamente irrompia em chamas.
Portanto, ali estava o que eu queria: uma ligação entre o fogo elementar existente na terra e o fogo portátil que eu procurava. Observando o fenómeno, em breve compreendi o seu segredo: sempre que uma árvore se incendiava, qualquer outra árvore que lhe tocasse pegava fogo em seguida. Aqui estava o princípio da transmissão do fogo, demonstrada na Natureza. Se tocares o fogo com alguma coisa que ele goste de comer, essa coisa incendeia-se. Isto é agora mais que óbvio para vocês, mas lembrem-se de que eu estava a vê-lo pela primeira vez.
O pau que o Pai estava a trabalhar tinha deixado de deitar fumo e ele começou a raspar distraidamente a sua ponta escurecida com uma lâmina de sílex.
O vulcão era o fogo-Pai. As árvores eram filhos e filhas, mas também elas podiam tornar-se, por sua vez, paus de fogo se tocadas por outra árvore combustível. A simples aplicação da coisa apresentou-se-me num relâmpago. Eu precisava apenas de apanhar um ramo caído, empurrá-lo contra uma das árvores em fogo e depois levá-lo comigo. Tentei imediatamente: foi um trabalho difícil, porque a muralha de lava exalava um calor tremendo e eu tive que me aproximar dela a uma distância de cerca de trinta metros. Mas resultou! O meu ramo tinha fogo! Eu tinha o fogo na mão. Gritei de pura alegria enquanto levava o ramo para longe das árvores em fogo, segurando-o no ar, e vi que um pequeno vulcão brilhava e fumegava realmente sobre a minha cabeça. Com aquela terrível tocha na mão, sabia que podia apavorar até à loucura qualquer leão. Não me demorei mais e apressei-me a voltar para casa. Só quando já tinha andado mais de um quilómetro e meio é que descobri que o meu ramo tinha parado de fumegar e já não era mais do que um toco negro que me queimou a mão.
Assim, voltei para trás para fazer mais algumas experiências. Vi que um pequeno fogo come muito depressa o seu alimento e torna-se necessário dar-lhe mais senão morre. Apercebi-me de que, para o transportar, teria que arranjar uma espécie de muda. Primeiro peguei fogo a um ramo. Depois transportei-o o mais longe possível até ele estar quase a morrer ou ter ardido até à minha mão. Em seguida, arranquei um ramo da árvore mais próxima, peguei-lhe fogo e transportei-o em substituição do anterior. E assim por diante. Tudo muito simples e lógico depois de o ter feito, mas não antes disso. Este esquema funcionou admiravelmente, embora eu tenha descoberto que algumas árvores não ardem tão bem como outras. Mas, com cuidado, consegui chegar até aqui são e salvo, transportando o seiscentésimo décimo nono ramo da série, com o qual assustei os leões para longe e acendi uma fogueira dentro da paliçada. Foi esse mesmo fogo que trouxemos para aqui e desde então nunca mais se apagou. Mas mesmo que se tivesse apagado, seria muito simples de...
O Pai parou subitamente, de boca aberta, olhando fixamente o pau que segurava.
Deus do céu! — arquejou ele. — Enquanto estive a falar convosco, e sem sequer pensar nisso, inventei uma coisa importantíssima: a lança para caça grossa, com ponta endurecida pelo fogo!

Roy Lewis, in Por que Almocei meu Pai

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