A
princípio, o território neutro do edifício Jandaia era ocupado por
mamães e babás, capitaneando inocentes que iam tomar a fresca da
tarde; à noite, vinham empregadas em geral, providas de namorados
civis e militares.
Mas
impõe-se a descrição sumária do território: simples área
pavimentada em frente ao edifício, separando-se da calçada por uma
pequena amurada de menos de dois palmos de altura, tão lisa que
convidava a pousar e repousar. Os adultos cediam ao convite, e ali
ficavam praticando sobre o tempo, a diarreia infantil, a exploração
nas feiras, os casamentos e descasamentos da semana. (Na parte da
tarde.) Ou não conversavam, pois outros meios de comunicação se
estabeleciam naturalmente na sombra, mormente se o poste da Light,
que ali se alteia, falhava a seu destino iluminatório, o que era
frequente. (Na parte da noite.)
Na
área propriamente dita, a garotada brincava, e era esse o título de
glória do Jandaia. Sem playground, oferecia entretanto a todos, de
casa ou de fora, aquele salão a céu aberto, onde qualquer guri
pulava, caía, chorava, tornava a pular, até que a estrela Vésper
tocava gentilmente a recolher, numa sineta de cristal que só as mães
escutam — as mães sentadas no “murinho”, nome dado à mureta
concebida em escala de anão.
E
assim corria a Idade de Ouro, quando começaram a surgir, no
expediente da tarde, uns rapazinhos e brotinhos de uniforme colegial,
que foram tomando posse do terreno. Esse bando tinha o dinamismo
próprio da idade — e, pouco a pouco, crianças, babás e mãezinhas
se eclipsaram. Os invasores falavam essa língua alta e híbrida que
se forja no mundo inteiro, com raízes no cinema, no esporte, na
Coca-Cola e nos gritos guturais que se desprendem — quem não os
distingue? — dos quadros “mudos” de Brucutu e Steve Roper.
Divertido, mas um pouco assustador. E à noite, por sua vez,
fuzileiros e copeiras tiveram de ir cedendo campo à horda que se
renovava.
Os
moradores do Jandaia começaram a queixar-se. O porteiro saiu a
parlamentar, e desacataram-no. A rua era pública. Sentavam no
murinho com os pés para fora. Não faziam nada de mau, só cantar e
assobiar. Os chatos que pirassem.
Ouvindo-se
tratar de chatos, por trás da cortina, os moradores indignaram-se. O
telefone chamou a radiopatrulha, que foi rápida, mas a turminha
ainda mais: ao chegar o carro, o porteiro estava falando sozinho.
No
dia seguinte, não houve concentração juvenil, mas já na outra
tarde, meio cautelosos, eles reapareceram. A esse tempo a rua se
dividira. Havia elementos solidários com a gente do Jandaia, e
outros que defendiam a nova geração; estes argumentavam que a
rapaziada era pura: em vez de bebericar nos bares, batia papo
inocente à luz das estrelas. Preferível à grudação dos casais
suspeitos, que antes envergonhava a rua.
Mas
o Jandaia tinha moradores idosos e enfermos, aos quais aquela bulha
torturava; tinha também rapazes e meninas, que preferiam estudar e
não podiam. Por que os engraçadinhos não iam fazer isso diante de
suas casas?
Como
não houvesse condomínio, e os moradores dos fundos, livres da
algazarra, se mostrassem omissos, uma senhora do segundo andar
assumiu a ofensiva e txááá! um balde de água suja conspurcou a
camisa esporte dos rapazes e o blue jeans das garotas. Consternação,
raiva, debandada — mas no dia seguinte voltaram. E voltaram e
tornaram a voltar.
Ontem
pela manhã, um pedreiro começou a furar o cimento do murinho, e a
colocar nele uma grade de ferro, de pontas agudas. Vaquinha dos
mártires do Jandaia? Não: outra iniciativa pessoal de um deles,
coronel reformado e solteirão. “Logo vi que ele não tem filho!”
— comentou uma das garotas, com desprezo. Mas a turma está
desoladíssima, e nunca mais ninguém ousará sentar no murinho —
nem mesmo as mansuetas babás e mamães, nem mesmo os casais
noturnos.
Carlos Drummond de Andrade, in Fala, Amendoeira
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