O
campanário isolado da Catedral de Pisa pendia perigosamente para o
sul. Era uma aparência peculiar, mas o fenômeno não atraía
atenção fora da própria cidade. Os toscanos estavam acostumados a
torres ostentosas tanto em edifícios privados como públicos, e era
fato aceito que, de vez em quando, uma ou outra dessas torres podia
se espatifar no chão.
A
torre incorporava dois dos traços característicos dos toscanos:
primeiro, sua intensa necessidade de chamar a atenção para si
mesmos – colocar-se acima dos outros literalmente. Em segundo
lugar, a quase miraculosa combinação de perícia, conhecimento
técnico e talento artístico, que fizeram da Toscana, e em
particular de sua capital, Florença, o centro indiscutível de
arquitetura, escultura e pintura do mundo ocidental durante uma época
que um futuro admirador viria a batizar de Renascença.
Essa
época de ouro estava definitivamente em declínio no ano de 1564.
Cosme
I de Médici era duque da Toscana. Os Médici haviam sido
originalmente médicos, mas depois voltaram-se para os negócios e a
atividade bancária. Por mais de um século a família dominara
Florença com seu poder e riqueza. Mas novos tempos tinham chegado à
Europa, uma era de monarquia absoluta, e o poder precisava ser
legitimado com base na linhagem de nobreza e no direito divino do
governante. Cosme adquirira um título de duque e se estabelecera
como governante absoluto. Mudara-se do Palazzo Vecchio, no antigo e
vibrante centro da cidade, do outro lado do rio Arno, para o enorme e
isolado Palazzo Pitti. Ali, a régia distância da vida banal da
cidade, o duque e sua corte viviam com uma pompa de causar inveja a
vários reis da Europa.
O
músico Vincenzo Galilei tinha a mesma idade de Cosme de Médici.
Também provinha de uma velha família florentina com um ancestral
médico. Aí cessava abruptamente qualquer semelhança com os Médici.
Riqueza e poder haviam escapado por completo da família Galilei.
Para
Vincenzo, a corte do duque era um local de trabalho, uma arena na
qual podia tocar alaúde e viola de gamba. Mas ele não conseguia ter
serviço suficiente, nem ali nem em Florença como um todo. As coisas
ficaram ainda mais difíceis quando ele se casou com Giulia, uma
mulher vinte anos mais nova. Sua família era de Pisa, e Vincenzo
sentiu-se obrigado a se mudar para lá. Não foi uma decisão fácil
para um florentino patriota. Mas o custo de vida em Pisa era mais
baixo, um músico tinha menos concorrência e, acima de tudo, sua
esposa tinha família na cidade – uma gente prática, trabalhadora,
que vivia do comércio de lã e podia, vez por outra, dar algum
trabalho a um parente pobre.
A
relação entre Florença e Pisa nunca fora muito cordial. Em sua
Divina comédia, o maior filho de Florença, Dante Alighieri,
retrata Pisa como um berço de traição e coloca alguns eminentes
nativos de Pisa nas profundezas mais profundas do Inferno. Mas as
duas cidades não eram mais rivais de igual categoria. Da sua posição
de uma das mais ricas e poderosas cidades da Europa, Pisa degenerara
numa sonolenta cidade provinciana toscana, firmemente regida a partir
de Florença.
Vincenzo
casara-se para manter a continuidade da família Galilei: sua Giulia
estava grávida. Em 15 de fevereiro de 1564, o filho primogênito do
casal nasceu numa casa alugada perto da igreja de Sant’Andrea, a
meio caminho entre a universidade e o palácio local dos Médici.
Seguindo uma tradição toscana relativamente comum, o menino recebeu
como nome de batismo a forma singular do nome de família: Galileo
[Galileu]. Ele ganhou o nome do fundador original da linhagem no
século XV, o médico que estava agora enterrado num lugar que não
era nada menos que a igreja de Santa Croce.
Vincenzo
Galilei não era somente um músico habilidoso e reconhecido
compositor. Era um homem culto. O que mais o interessava era a teoria
da música. Ele estudara com conhecidos humanistas em Veneza e Roma e
estava envolvido com a escrita de uma grande tese na qual tentava
ambiciosamente reviver a música contemporânea retornando aos
princípios da antiguidade.
O
jovem Galileu não foi filho único. Sua mãe Giulia deu à luz mais
seis filhos em rápida sucessão, mas apenas um irmão e duas irmãs
sobreviveram até a idade adulta. Vincenzo logo percebeu que o filho
mais velho era extraordinariamente talentoso e merecedor de atenção
especial. Ele ensinou Galileu a tocar alaúde, e o menino logo se
tornou um músico de qualidade.
O
garoto também aprendeu duas outras coisas da dedicação especial do
pai em educá-lo. A primeira foi que ninguém jamais deveria se
contentar com a sabedoria aceita, mesmo que viesse das fontes de
maior autoridade, e sim combinar reflexões teóricas com
experimentos práticos e chegar a suas próprias conclusões.
A
segunda coisa aprendida foi que tal trabalho pioneiro era, com
frequência, literalmente desvalorizado. Vincenzo vivia lutando para
prover a si mesmo e sua família. Em 1572, mudou-se de volta para
Florença sozinho. Cosme acabara de ser elevado a grão-duque, e as
comemorações ofereceram oportunidade para um bom músico brilhar na
corte. Mas Giulia e as crianças tiveram de permanecer com sua
família em Pisa, e é tentador imaginar o jovem Galileu ouvindo os
parentes de sua mãe fazendo comentários sobre quem precisava
sustentá-lo, junto com seu irmão e suas irmãs.
Em
1574, o grão-duque Cosme morreu. Era um tirano temperamental que
certa vez matara um servo porque este havia dito ao filho de Cosme
que o pai estava considerando se casar novamente; mas era também um
patrono generoso e um governante empreendedor, que trouxera
prosperidade para o seu grão-ducado na Itália central. A maioria
dos toscanos não alimentava grandes expectativas em relação ao
filho do soberano, Francisco, e seus piores temores se concretizaram.
A esposa de Francisco morreu em circunstâncias misteriosas, e após
sua morte ele celebrou um extravagante matrimônio com sua infame
amante, Bianca. Pior ainda foi o fato de o novo grão-duque ter
protegido o irmão mais novo, Pietro, que estrangulara a esposa num
ataque de ciúmes.
Era
nessa corte que Vincenzo deveria ganhar a vida, em sua maior parte. A
mudança de grão-duque não o assustou, pois trouxe Giulia e seus
filhos para morar com ele em Florença. A família se estabeleceu
perto de uma das pontes sobre o rio Arno, a Ponte delle Grazie. Era
um lugar prático para se morar. O Palazzo Pitti do grão-duque
ficava nas proximidades.
O
menino Galileu, de dez anos, viera para casa. Sua família pertencia
a Florença. Ele sempre se considerou florentino. Mas seu pai não
estava satisfeito com a educação que o menino podia receber na
cidade de seus antepassados. No ano seguinte mandou Galileu para um
remoto mosteiro em Vallombrosa – o vale das sombras –, ao norte
de Regello, em Valdarno, cerca de trinta quilômetros a sudeste de
Florença.
O
contraste com uma cidade como Florença dificilmente poderia ter sido
maior. O mosteiro tinha uma localização belíssima, mas era
completamente isolado e a uma altitude de mais de mil metros, cercado
por uma floresta de árvores frondosas, bem como abetos pesados e
escuros com troncos esbranquiçados.
Vincenzo
sabia o que estava fazendo. Os monges desse mosteiro pertenciam à
tradição intelectual florentina. Era um ambiente inspirador, muito
além do padrão geral dos mosteiros. Aqui, o talentoso garoto
poderia aprender grego, latim e lógica.
Galileu
foi um aluno aplicado, que apreciou minuciosamente a vida nessas
redondezas isoladas, espartanas. Mas gostou muito mais do lugar do
que o pai esperava. Após dois anos quis entrar para a ordem, e
apresentou-se como noviço.
Talvez
uma paixão religiosa juvenil tivesse motivado essa decisão, mas
Galileu também percebeu que a vida estrita de um monge lhe
proporcionava oportunidades de trabalho e estudo, livre dos cuidados
materiais que a vida de cidadão trazia. Vincenzo, porém, não teve
simpatia pela decisão do primogênito. Em 1579, pegou a estrada
montanhosa cheia de curvas até o mosteiro e trouxe de volta para
casa o rapaz de quinze anos.
Os
motivos do pai podem ter sido evitar que Galileu ficasse preso num
local e ambiente que, no longo prazo, jamais poderiam lhe oferecer
desafios suficientes. Porém o mais provável era que frios cálculos
financeiros estivessem por trás dessa “expedição de resgate”.
Vincenzo teria de fazer contribuições para os custos correntes do
mosteiro se o filho se tornasse monge. Filhas podiam ser
candidatas plausíveis para a vida monástica. Também precisavam ser
subsidiadas, é claro, mas se em vez disso se casassem, o pai tinha
de achar um dote, então de qualquer modo as filhas custavam
dinheiro. Contudo, um filho como Galileu deveria encontrar um
trabalho pago, para que pudesse ajudar nas despesas da família.
Mas
que carreira o filho escolheria?
Atle Naess, in Galileu Galilei

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