sábado, 18 de junho de 2022

Declínio e queda

Era uma tarde de segunda-feira no The Hungry Diamond. Só havia duas pessoas, Mel e o garçom do balcão. Tarde de segunda-feira em Los Angeles é o agreste – mesmo noite de sexta é o agreste –, mas sobretudo tarde de segunda-feira. O garçom, que se chamava Carl, bebia com um copo debaixo do balcão, parado junto de Mel, que se curvava à vontade sobre uma cerveja verde azeda.
Preciso te contar uma coisa – disse Mel.
Manda – disse o garçom.
Bem, eu recebi um telefonema uma noite dessas de um cara com quem eu trabalhava em Akron. Ele perdeu o emprego por bebida, se casou com uma enfermeira, e a enfermeira sustenta ele. Eu não gosto muito desses tipos, mas você sabe como são as pessoas, elas como que se grudam na gente.
É – disse o garçom.
Seja como for, eles me ligam... escuta, me dá outra cerveja, esta merda está com um gosto horrível.
Tudo bem, só beba um pouco mais rápido: ela começa a perder substância depois de uma hora.
Tudo bem... Eles me dizem que resolveram a falta de carne... eu penso “Que falta de carne?”... e pra eu aparecer. Como não tenho nada a fazer, vou lá. Tem jogo dos Rams e o cara, Al, liga a TV, e a gente fica olhando. Erica, é o nome dela, está na cozinha, preparando uma salada, e eu levei duas embalagens de seis garrafas. Eu digo oi, Al abre algumas garrafas, é legal e quente ali dentro, o forno ligado. Bem, é confortável. Eles parecem não ter tido uma briga há dias, e a situação está calma. Al diz alguma coisa sobre Reagan e sobre o desemprego, mas eu não posso responder, tudo isso me enche o saco. Sabe, estou cagando se o país está na merda ou não, contanto que eu me vire.
Certo – diz o garçom, tomando um gole por trás do balcão.
Tudo bem. Ela vem, se senta e toma sua cerveja. Erica. A enfermeira. Diz que todos os médicos tratam os pacientes como gado. Que todos os médicos só querem faturar. Acham que a merda deles não fede. Ela prefere Al a qualquer médico que exista. Isso é que é bobagem, não é?
Eu não conheço Al – diz o garçom.
Então, a gente joga baralho e os Rams estão perdendo na TV, e após algumas mãos Al me diz: “Sabe, eu tenho uma esposa estranha. Ela gosta de alguém olhando quando a gente faz aquilo”. “É mesmo”, ela diz, “é isso que me estimula mesmo.” E Al diz: “Mas é muito difícil arranjar alguém pra olhar. A gente pensa que seria fácil arranjar alguém pra olhar, mas é difícil pra burro”. Eu não digo nada. Peço duas cartas e elevo a parada cinco centavos. Ela depõe as cartas e Al também, e os dois se levantam. Ela atravessa a sala e Al vai atrás. “Sua puta!”, ele grita. “Sua puta dos diabos!” Lá estava aquele cara xingando a esposa de puta. “Sua puta!”, ele grita. Acua ela num canto da sala e cobre ela de tapa, rasga a blusa. “Sua puta!”, torna a gritar, e cobre ela de tapa e derruba a dona. Arranca a saia dela, e ela esperneia e grita. Ele pega a dona e beija, depois joga ela no sofá. Se joga em cima dela, beijando ela e rasgando as roupas dela. Depois arranca a calcinha e manda ver. Enquanto ele faz isso, ela olha de baixo para ver se eu estou olhando. Vê que estou olhando e começa a mexer feito uma cobra doida. Os dois vão fundo, até o fim; ela se levanta e vai pro banheiro, e Al vai na cozinha pegar mais cerveja. “Obrigado”, ele me diz quando volta, “você ajudou muito.”
E aí, que aconteceu? – perguntou o garçom.
Bem, aí os Rams finalmente marcam, e tem muito barulho na TV, e ela sai do banheiro e vai pra cozinha. Al começa a falar de Reagan de novo. Diz que é o início do Declínio e Queda do Ocidente, como Spengler dizia. Todo mundo é tão ganancioso e decadente, a decomposição realmente começou. E continua nisso por algum tempo. Aí Erica chama a gente pro canto do café da manhã, onde a mesa está posta, e a gente se senta. O cheiro é bom: um assado. Com fatias de abacaxi em cima. Parece uma perna; eu vejo uma coisa que quase parece um joelho. “Al”, digo, “essa coisa realmente parece uma perna humana do joelho pra cima.” “E é exatamente o que é”, diz Al.
Ele disse isso? – pergunta o garçom, tomando um gole por trás do balcão.
É – respondeu Mel –, e quando a gente ouve uma coisa dessa não sabe o que pensar direito. Que era que você ia pensar?
Eu ia pensar – disse o garçom – que ele estava brincando.
Claro. Por isso eu disse: “Ótimo, me corta uma boa fatia”. E ele cortou. Tinha purê de batata, molho, milho, pão quente e salada. Azeitonas recheadas na salada. Al disse: “Experimente um pouco dessa mostarda apimentada na carne, vai bem”. Eu pus um pouco. A carne não estava ruim. “Escuta, Al”, eu disse, “isto não está nada mal. Que é?” “É o que eu disse a você, Mel”, ele responde, “é uma perna humana, a parte de cima. É um garoto de quatorze anos que a gente encontrou pegando carona no Hollywood Boulevard. A gente pegou ele, deu comida e ele viu Erica e eu fazermos a coisa durante três ou quatro dias, e depois a gente se encheu de fazer isso e matamos ele, limpamos as entranhas, jogamos no triturador de lixo e botamos ele no freezer. É muito melhor que frango, embora na verdade eu não prefira isso a um bife de lombinho.”
Ele disse isso? – perguntou o garçom, estendendo a mão para pegar mais um gole debaixo do balcão.
Disse isso – respondeu Mel. – Me dá outra cerveja.
O garçom deu-lhe outra cerveja. Mel disse:
Bem, eu continuei pensando que ele estava brincando, sabe, por isso disse: “Tudo bem, me mostra seu freezer.” E Al diz: “Claro: ali.” E abre a tampa e lá está o tronco, uma perna e meia, dois braços e a cabeça. Cortado assim. Parece muito higiênico, mas mesmo assim não me parece bem. A cabeça olha pra gente, os olhos abertos e azuis, a língua saltando para fora... congelada até o lábio inferior. “Nossa mãe, Al”, eu digo a ele, “você é um assassino... isso é incrível, é nojento!” “Cresça”, ele diz, “eles matam gente aos milhões nas guerras e dão medalhas por isso. Metade das pessoas deste mundo vai morrer de fome enquanto a gente fica por aí sentado vendo TV.” – Eu digo a você, Carl, as paredes daquela cozinha começaram a rodar, eu não parava de ver aquela cabeça, aqueles braços, aquela perna cortada... Tem uma coisa tão quieta numa coisa assassinada, de certa forma a gente começa a pensar que uma coisa assassinada devia continuar gritando, eu não sei. Seja como for, fui até a pia da cozinha e comecei a vomitar. Vomitei durante um longo tempo. Depois disse a Al que precisava sair dali. Você não ia querer sair dali, Carl?
E rápido – disse Carl. – Muito rápido.
Bem, o Al se colocou diante da porta e disse: “Escuta, não foi assassinato. Nada é assassinato. Você só precisa romper as ideias que impuseram em você, e vira um homem livre: livre, entende?” “Sai da frente dessa porta, Al: eu vou dar o fora daqui!” Ele me agarra pela camisa e começa a rasgar a camisa. Eu dou um soco na cara dele, mas ele continua rasgando minha camisa. Bato de novo, e de novo, mas ele parece não sentir nada. Os Rams ainda estão na TV. Eu recuo da porta, e aí a mulher dele corre, me agarra e começa a me beijar. Eu não sei o que fazer. Ela é uma mulher forte. Sabe todos esses truques de enfermeira. Tento me livrar dela, mas não consigo. A boca dela grudada na minha, é tão louca quanto ele. Começo a ter uma ereção, não posso evitar. Ela não tem um rosto tão sensacional assim, mas tem umas pernas e uma bunda, e o vestido mais justo que já se viu. A boca tem gosto de cebola cozida, a língua gorda e cheia de saliva, mas usava um vestido novo... verde... e quando eu levanto o vestido vejo a anágua, cor de sangue, e isso me excita mesmo e aí eu olho e vejo Al com o pau de fora, olhando. Joguei ela no sofá e mandamos ver, Al parado ao lado respirando pesado. Fizemos todos juntos, um verdadeiro trio, depois eu me levantei e comecei a ajeitar minha roupa. Entrei no banheiro, joguei água no rosto, penteei o cabelo e saí. Quando saí, os dois estavam no sofá vendo o jogo de rúgbi. Al tinha uma garrafa de cerveja aberta para mim e eu me sentei, bebi e fumei um cigarro. E foi só isso. Me levantei e disse que ia embora. Os dois se despediram e Al me disse pra ligar qualquer hora. Aí eu saí do apartamento pra rua, peguei meu carro e fui embora. E foi isso aí.
Não foi à polícia? – perguntou o garçom.
Bem, você sabe, Carl, é difícil... eles meio que me adotaram na família. Não é como se tentassem esconder alguma coisa de mim.
Do jeito que eu vejo, você é cúmplice de um assassinato.
Mas o que eu passei a pensar, Carl, é que aquele pessoal na verdade não parece ser gente má. Já vi pessoas que antipatizo muito mais e que nunca mataram nada. Não sei, é realmente confuso. Até penso no cara no freezer como uma espécie de grande coelho congelado...
O garçom puxou a Luger de trás do balcão e apontou-a para Mel.
Tudo bem – disse –, fique paradinho aí enquanto eu chamo a polícia.
Escuta, Carl... não é você que tem de decidir isso.
O diabo que não sou! Eu sou um cidadão! Vocês babacas não podem simplesmente sair por aí matando e metendo gente em freezers. Eu posso ser o próximo!
Escuta, Carl, olha pra mim! Quero dizer uma coisa a você...
Tudo bem, manda.
Foi tudo cascata.
Quer dizer, o que você me contou?
É, foi pura cascata. Uma brincadeira. Peguei você. Agora guarda essa arma e põe aí um uísque com água.
Essa história não foi cascata.
Acabei de dizer que foi.
Isso não foi cascata: tinha muito detalhe. Ninguém conta uma história assim. Não é brincadeira. Ninguém brinca desse jeito.
Estou dizendo a você que foi cascata, Carl.
Não tem jeito de eu acreditar nisso.
Carl estendeu o braço para a esquerda e puxou o telefone, que estava no balcão. Quando fez isso, Mel pegou a garrafa de cerveja e atingiu-o no meio do rosto com ela. Carl deixou cair a arma e levou as mãos ao rosto. Mel saltou o balcão, tornou a golpeá-lo – desta vez atrás da orelha – e Carl caiu. Mel pegou a Luger, mirou com cuidado, apertou o gatilho uma vez, depois guardou a arma numa sacola de papel pardo, tornou a saltar o balcão, dirigiu-se à porta e ganhou o boulevard. O parquímetro dizia “prazo expirado” diante de seu carro, mas não havia multa. Ele entrou e afastou-se.

Charles Bukowski, in Numa Fria

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