No
começo da tarde de 30 de abril de 1946, o magnata Joaquim Rolla —
proprietário dos cassinos da Urca (Rio), de Icaraí (Niterói), de
Quitandinha (Petrópolis), da Pampulha (Belo Horizonte) e outros —
preparava-se para almoçar em sua casa, na avenida Rainha Elizabeth,
em Copacabana, quando ouviu pelo rádio a notícia que já esperava e
temia. O presidente da República, Eurico Gaspar Dutra, acabara de
assinar um decreto-lei que fazia seu império desabar.
“Considerando
que a tradição moral, jurídica e religiosa do povo brasileiro é
contrária à exploração dos jogos de azar”, disse o locutor,
lendo o texto oficial, “fica decretado o fechamento dos cassinos em
todo o território nacional.”
Dutra
fora empossado três meses antes, em 31 de janeiro, e desde então
circulavam rumores de que ele poderia fechar os cassinos. Isso
contrariava as expectativas criadas durante a campanha eleitoral
ocorrida após a queda do ditador Getulio Vargas, em outubro do ano
anterior. Quem prometera fechar o jogo se eleito fora o brigadeiro
Eduardo Gomes, candidato da ranzinza UDN (União Democrática
Nacional) e renitente praticante do sincericídio. Seu adversário, o
general Gaspar Dutra, do mais flexível PSD (Partido
Social-Democrata), parecia neutro em relação ao assunto: nunca
disse que sim nem que não. Assim, Joaquim Rolla esqueceu sua
simpatia inicial pelo brigadeiro e engajou seu carro-chefe, o Cassino
da Urca, na campanha do general. Pendurou faixas de “Vote Dutra”
por toda a Urca, dentro e fora do cassino. Octavio Guinle, dono do
Copacabana Palace, onde funcionava o cassino mais luxuoso do Brasil,
e Alberto Quatrini Bianchi, do Cassino Atlântico, também apoiaram o
homem. Dutra venceu. E, agora, os quebrava.
Em
termos. Rolla perdia os cassinos, mas conservava os imóveis em que
eles funcionavam — um deles, o Quitandinha, um palácio de cristal
e porcelana — e, como tinha participação em dezenas de
empreendimentos, era difícil que fosse rebaixado à classe média.
Octavio Guinle, menos ainda, porque não explorava diretamente o
cassino — sublocava-o aos empresários Ernesto Fontes e Antenor
Mayrink Veiga pelo alucinante aluguel de 10 mil dólares mensais, e
ainda tinha exclusividade no fornecimento de comida e bebida nas suas
dependências; além dos grandes chamarizes: o Golden Room, um salão
de shows, e o Meia-Noite, um piano-bar, ambos dentro do hotel. Donde,
se Octavio Guinle perdesse o cassino, sempre lhe restaria o…
Copacabana Palace. E o próprio Bianchi, do Cassino Atlântico, não
se apertou — como era envolvido com mineração, o ouro e os outros
metais que extraía perto de Ouro Preto seriam suficientes para
mantê-lo à tona por algumas encarnações.
Quem
não tinha para onde correr eram os empregados do pano verde. Com uma
penada, Dutra pôs na rua uma quantidade de superintendentes,
gerentes, crupiês, fiscais, cilindreiros (encarregados da manutenção
das roletas), chefes dos ficheiros (responsáveis pelas fichas),
chefes de sala e de setor, tesoureiros, caixas e toda sorte de
pessoal especializado. Além deles, receberam também o bilhete azul
os chefes de portaria, toalete, adega, cozinha, segurança e
manutenção; recepcionistas, maîtres, valetes, intérpretes,
fotógrafos de salão e publicistas; e uma multidão de cozinheiros,
garçons, peões, faxineiros, eletricistas, telefonistas, leões de
chácara e manobristas. Todos na folha de pagamento dos cassinos e
com rendimentos acima da média, porque ganhavam gorjetas em fichas —
as mesmas fichas de madrepérola que se trocavam por dinheiro na boca
do caixa —, e quem dá uma ficha de gorjeta nem sempre se preocupa
com o valor.
Mas
quem mais sofreria com o fim dos cassinos seria o pessoal do palco e
adjacências: diretores artísticos, diretores de cena, roteiristas,
cantores, maestros, músicos, arranjadores, copistas, ensaiadores,
coreógrafos, dançarinas, coristas, cômicos, acrobatas, locutores,
mestres de cerimônia, costureiras, aderecistas, passadeiras,
camareiras, maquiadores, cabeleireiros.
Os
grandes cassinos mantinham, cada um, duas ou três orquestras, vários
conjuntos menores e solistas, para produzir música de dança, de
fundo e de acompanhamento. As orquestras eram compostas de naipes
completos de trompetes, trombones e saxofones, além de piano,
contrabaixo, violão, bateria, ritmistas e dois crooners — um total
de quinze a vinte músicos por orquestra, todos de primeira linha. A
de Carlos Machado na Urca, por exemplo, tinha como destaques o
pianista Dick Farney, o violinista Fafá Lemos, o violonista Laurindo
de Almeida, o trompetista Barriquinha, o guitarrista Betinho e o
exuberante Russo do Pandeiro. De todos, o único não músico era o
próprio Machado — apenas se fazia de maestro. Duas de suas
crooners, antes da fama e não na mesma época, tinham sido Emilinha
Borba e Marlene. Cerca de trezentos músicos e cantores perderam o
emprego no Rio.
Não
havia mercado para absorver tanta gente e tão de repente. Os
artistas mais famosos voltaram para seus palcos de origem, nos
teatros de revista da praça Tiradentes, e os músicos sempre
encontrariam trabalho nos dancings, gafieiras, estações de rádio,
gravadoras de discos e bailes de formatura. Mas nunca veriam tanto
dinheiro quanto ganhavam nos cassinos. Vicente Paiva, também chefe
de orquestra na Urca e coautor de sucessos como “Mamãe, eu quero”
e “Disseram que voltei americanizada”, preferiu vender seus dois
carros novos e ficar somente com um velho, que pôs na praça — foi
ser motorista de táxi, enquanto a situação não melhorasse. Outros
se tornaram corretores de imóveis, comerciários e ascensoristas. E
algumas moças foram para a Lapa, não exatamente para cantar.
O
acaso se encarregou de dar um toque de cruel ironia ao fim do jogo.
Mal fechados os cassinos, Joaquim Rolla foi obrigado a organizar, a
pedido do Itamaraty, uma festa para o presidente Dutra no Quitandinha
— este já reduzido a um hotel impossível de administrar sem o
dinheiro das roletas. O evento fora acertado pouco depois da posse de
Dutra, quando ainda não se sabia que ele apunhalaria os cassinos
pelas costas. Carlos Machado teve de juntar às pressas cantores,
músicos e coristas da Urca, e pode-se imaginar o constrangimento com
que eles se apresentaram para o seu algoz.
Calcula-se
que o jogo movimentava 300 milhões de dólares por ano no país —
dólares de 1946 —, 70% dos quais no Rio, e empregava 40 mil
pessoas. Um cassino de categoria tinha pelo menos quinze mesas de
roleta, doze de campista e seis de bacará, distribuídas em dois
salões — um para os ricos, artistas, políticos, visitantes e
turistas ilustres; outro, para uma clientela mais popular, que
apostava menos mas comparecia em batalhões. Jantava-se quase de
graça nos cassinos e, idem, assistia-se a espetáculos estrelados
pelos maiores nomes da música brasileira — Carmen Miranda fora um
símbolo da Urca. Entre os estrangeiros, o jogo trouxera ao Rio os
americanos Bing Crosby, Josephine Baker e os Nicholas Brothers, as
francesas Mistinguett, Lucienne Boyer e a orquestra de Ray Ventura
(com seu jovem cantor Henri Salvador); o estelar casal formado pela
soprano húngara Martha Eggerth e pelo tenor polonês Jan Kiepura; a
contralto peruana Yma Sumac, com suas 5,4 oitavas de extensão de
voz; os mexicanos Agustín Lara, Tito Guizar, Pedro Vargas, Alfonso
Ortiz Tirado e o padre cantor José Mojica; e muitos outros, todos
ídolos de massa. E não importava que seus cachês fossem
milionários — metade desse dinheiro ficava por aqui mesmo, nas
mesas da Urca, do Copacabana Palace e do Atlântico.
Mesas
essas que só podiam ser operadas por profissionais treinados. De um
crupiê de roleta, exigia-se que tivesse reflexos rápidos para
enxergar a mesa inteira (um pano verde dividido em 36 números e mais
o zero, o duplo zero, o vermelho, o preto, as colunas, as dúzias, o
par e o ímpar), agilidade na manipulação das fichas e boa cabeça
para aritmética. As operações eram simples, mas, no calor das
apostas, podiam se confundir na cabeça do encarregado. De um crupiê
de bacará eram requeridas essas mesmas qualidades e alguma
desenvoltura ao falar, já que parte do charme do jogo consistia no
que ele dizia. E, não que fosse obrigatória, mas uma certa
semelhança com Cary Grant não faria mal ao crupiê. Toda essa gente
viu-se, de repente, consultando os classificados do Jornal do
Brasil em busca de emprego.
Um
dos termos da legalização original dos cassinos sob Getulio Vargas,
em 1933, era que os impostos decorrentes do jogo não passariam pelo
governo, mas iriam para causas beneficentes controladas pelo Serviço
de Assistência Social. Para o influente jornalista J. E. [José
Eduardo] de Macedo de Soares, do Diário Carioca, isso era uma
farsa. Em editorial assinado na primeira página de seu jornal, ele
saudou o decreto-lei de Dutra como “um ato de saneamento social”.
Para Macedo Soares, o país se tornara uma “formidável empresa do
pano verde”, e o governo Vargas, “sócio da jogatina”. O artigo
não ignorava os prejuízos que a extinção do jogo produziria em
quem, direta ou indiretamente, vivia dele, mas ainda assim, dizia,
ela valia a pena.
Os
jornais foram quase unânimes em aplaudir o fechamento dos cassinos,
embora vários de seus proprietários, como Paulo (filho de Edmundo)
Bittencourt, do Correio da Manhã, Orlando Dantas, do Diário
de Notícias, Assis Chateaubriand, dos Diários Associados,
e Roberto Marinho, de O Globo, fossem seus habitués —
nem tanto para apostar, mas em busca de contatos e informações.
Segundo seus editoriais, o que os cassinos significavam para o
turismo ou para a prosperidade da noite carioca deixara de ter
importância, comparado ao seu papel de destruidores de patrimônios
e desagregadores de famílias — sem contar suas ligações com a
ditadura de Getulio. Até por isso, intelectuais das mais variadas
plumagens, como Oswald de Andrade, Manuel Bandeira e Plínio Salgado,
vibraram com a proibição.
Por
que Dutra fizera aquilo? A medida foi atribuída à pressão de sua
mulher, a professora Carmela Dutra, mais conhecida como dona
Santinha. Católica até enquanto dormia, dizia-se que ela
bombardeava os ouvidos de Dutra com as pregações que escutava dos
padres. Nem o argumento de que os impostos do jogo financiavam as
obras sociais pelas quais ela, como primeira-dama, ficara responsável
a sensibilizava. Mas, na verdade, o hidrófobo inimigo do jogo junto
a Dutra era seu ministro da Justiça, o provinciano Carlos Luz,
ex-vereador, delegado de polícia e inspetor escolar em Leopoldina
(MG), depois fundador do PSD e deputado constituinte por Minas
Gerais. Para ele, o jogo era um câncer moral, que arruinava os
homens de bem e destroçava as famílias. Os grandes perdedores se
matavam — e, de fato, os jornais abriam páginas quando se dava um
desses suicídios. Carlos Luz assegurou a Dutra que, se quisesse
tornar-se imediatamente popular, era só fechar os cassinos. Dutra
queria ser popular. Dois dias depois, saiu o decreto que arruinou o
almoço de Joaquim Rolla e estomagou seus concorrentes.
A
pressão para o fim do jogo vinha de longe. Em 1941, o general
Candido Rondon já pregava a transformação dos cassinos em
hospitais. Uma lei do Estado Novo (1937-45) dispunha que, se um dia o
jogo fosse proibido, o governo federal pagaria uma indenização aos
proprietários dos cassinos e assumiria as dívidas trabalhistas para
com os funcionários demitidos. Mas, em 1946, acabáramos de
ingressar na democracia, e Dutra, subitamente esquecido de que fora
um dos cardeais do regime deposto, anunciou que não era responsável
pelos compromissos do Estado Novo — e não pagou a ninguém. Pior:
em decreto complementar, estabeleceu que os ônus, encargos sociais e
indenizações aos empregados despedidos deveriam ser saldados pelos
próprios banqueiros do jogo. Naturalmente, estes contestaram e,
depois de uma briga de anos, nada se decidiu. Rolla e colegas
conseguiram zerar suas dívidas bancárias e com os fornecedores, mas
a maioria de seus empregados nunca viu a cor do dinheiro. Na histeria
do momento, um juiz de direito da cidade de São Simeão, no interior
de São Paulo, proibiu a venda de balas contendo figurinhas. Alegou
que recebia queixas de pais apreensivos porque seus filhos não
queriam saber de estudar, dedicando-se dia e noite ao bafo-bafo — o
que tornava as figurinhas um “jogo de azar”.
No
auge do jogo, havia oficialmente 79 cassinos em território nacional.
Mas, caso se contassem as batotas de salas dos fundos, frequentadas
pelos menos abonados, as casas de jogo chegariam a mil. Como já eram
clandestinas e fora do radar da proibição, não havia motivo para
que, por causa desta, deixassem de funcionar. Na prática, portanto,
apenas os ricos e os turistas foram proibidos de jogar. Os pobres
continuaram a dispor desses pontos clandestinos, mais as tômbolas
nas quermesses católicas, as loterias, as corridas de cavalo e o
jogo do bicho, este em confortável ilegalidade. E a prova de que
dona Santinha não tinha a ver com a história é que, em outubro de
1947, um ano e meio depois da proibição, ela morreu, em
consequência de uma cirurgia a que se submetera, semanas antes, no
Hospital Central da Aeronáutica — mas a lei não foi revogada nem
se cogitou essa hipótese. Tinha 63 anos. Os jornais falaram de suas
“acendradas virtudes domésticas, como dona de casa exemplar e
esposa perfeita”. Insinuou-se também a ocorrência de erro médico.
Levou
tempo, mas os músicos que sobreviveram à diáspora voltaram aos
palcos. Só que, agora, em formações menores — no máximo, um
trompete ou sax, um piano, uma seção rítmica e um cantor —,
tocando em andamento médio e num volume mais próximo a um sussurro
ao ouvido. As novas casas em que eles passaram a se apresentar também
primavam pela discrição, sem o brilho e a luminosidade dos cassinos
— ao contrário, seus candelabros no piano e abajures nas mesas
favoreciam a penumbra, a intimidade, o romance. As pessoas que as
frequentavam eram gente que não saía antes às ruas do Rio, exceto
para ir às corridas no Jockey, aos chás dançantes do Country e aos
torneios de tênis no Fluminense. E uma nova música, cuja gestação
vinha de longe — e, bem ao seu estilo, sem alarde —, tomava aos
poucos esses espaços, com seus compositores, letristas e cantores de
quem não se sabia onde terminava a arte e começava a vida.
Tais
espaços eram as boates de Copacabana. Seus frequentadores, os novos
donos do glamour, da intriga e do poder. E a música, o samba-canção.
Ruy Castro, in A noite do meu bem

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