Vanesa
e Violeta, as gêmeas, minhas vizinhas de toda a vida, agora vivem no
exterior. Emigraram faz uns quinze anos, como eu, e não pisam no
país desde então. Levaram primeiro a mãe, depois o irmão mais
velho, a cunhada, os sobrinhos, e na casa do bairro ficou apenas o
outro irmão, o esquisito.
Voltar,
como todo mundo sabe, é impossível. Depois dos abraços e das
lágrimas, vem o verdadeiro reencontro, estar cara a cara com as
mesmas pessoas quando nós já somos outros, estar diante delas
quando não sabemos quem são. Ou seja, ninguém diante de ninguém.
A pantomima de: ai, que lindo, que delícia, quantas saudades.
Procuram-nos onde já não estamos, nós os procuramos onde já não
estão e aí começa a tragédia.
Depois
de alguns dias em casa, tomando as vitaminas de sempre, aparentando
uma docilidade de leão de circo, deixando-se envolver pelo meloso
olhar filial, chega um dia em que não é mais possível: fingir que
voltou requer um esforço exaustivo. Quase mata.
Bato
na porta do vizinho, o esquisito, porque, digo a mim mesma enquanto
ando os dez passos que me separam de sua casa, quero saber de suas
irmãs, mas na verdade quero saber dele: o esquecido dos exílios
familiares. Ele: o garoto de minha infância.
Ele
me abre a porta vestido com um roupão, um roupão de uma espécie de
flanela nessa terra que só falta nos cozinhar, mas o roupão é de
flanela, xadrez, um pouco acima dos joelhos. Está com chinelos azuis
de borracha. Não veste calças, mas usa óculos que ajeita dando uma
batidinha no nariz quando me vê parada do outro lado de sua porta
metálica pintada de branco. É tão pálido que parece vindo de um
mundo sem sol, o canário da mina, mas a verdade é que ele não sai
de casa. Perdeu todo o cabelo, engordou uns vinte quilos, tem o mau
cheiro dos idosos abandonados. É claro que me reconhece, é claro
que diz meu nome, é claro que me convida a entrar e a me sentar no
mesmo sofá vermelho de sempre que agora está desbotado e cheio de
pelos, como se aqui vivessem gatos, mas não há gatos. Ele sabe quem
eu sou. Porém, o mais importante: eu sei quem ele é. Cara a cara
não existe disfarce. Eu nunca fui embora, ele nunca ficou.
Depois
de três perguntas idiotas, que ele responde com seu balbucio
costumeiro e olhando para o outro lado — o que aconteceu com seus
irmãos, com sua mãe, e por que nunca voltaram —, eu me ajoelho no
tapete vermelho, um persa falsificado imundo, abro o roupão dele,
sob o qual não há nada, e o chupo. Ele não se surpreende. Eu sim,
pois o cheiro é repugnante e ele tem o púbis sem pelos e o pau
morto, mas continuo e continuo e continuo até que ele fica duro e
continuo mais ainda, até que ele goza na minha boca e eu engulo
aquilo que tem cheiro de mostarda Dijon e cloro. Ao lado de meu
joelho passa uma barata enorme e ele a pisoteia sobre o tapete persa
falsificado. Então me dou conta de que sobre o tapete há um monte
de baratas mortas, de barriga para cima, as patinhas duras, e que, de
fato, estou ajoelhada em cima de uma que morreu faz tempo, que é um
fóssil de barata, uma casca. Do bolso do roupão ele tira um lenço
imundo e limpa os cantos de minha boca. Não falamos.
Enquanto
ele está na cozinha, olho à minha volta. A sala de estar e a de
jantar se encontram tão cheias de coisas, de sacos pretos de lixo,
garrafas vazias, caixas de papelão, pentelhos, que isso já não
pode ser chamado de casa. As baratas sobem e descem pelas paredes e
há uma que se aproxima, intrépida, de meu pé. Tenho pavor delas,
mas não consigo me mexer, de repente me sinto muito cansada, o
viajante que pisa em terra firme depois da odisseia, e dormiria de
boa vontade nesse tapete cheio de pelos, de pele morta, cadáveres de
bichos e pó.
Ele
traz uma Coca-Cola sem gás num copo todo engordurado que tem cheiro
de ovo. Espera que eu tome tudo e me oferece a mão para que eu me
levante.
— Quer
vê-las?
Conheci
Vanesa e Violeta, que eram idênticas, no parque da esquina. Quando
me disseram que tinham minha idade, dois irmãos, e que viviam na
casa vermelha ao lado da minha, achei extraordinário. Sua família
era como a minha, tudo igual, mas elas eram duas e não uma. Eu era
apenas eu e achava chato. O lance gemelar me fascinava,
perguntava-lhes coisas sem parar, e elas, com seu rosto igualzinho,
como uma menina que fala com seu espelho, respondiam. Um dia me
disseram que, se uma delas sentia dor, a outra também sentia, então
belisquei Vanesa, e Violeta deu um grito. Bati palmas como se tivesse
presenciado uma verdadeira mágica e decidi que as amava: minhas
amigas prodigiosas eram como um espetáculo. Isto, o negócio de
machucar uma delas para que a outra sentisse, eu repeti muitas vezes:
dava-lhes socos no estômago, puxava seu cabelo, pisava em suas mãos,
jogava cera quente nas pernas delas, enfiava-lhes uma tachinha na
unha. Sempre sentiam ao mesmo tempo, até choravam, mas deixavam:
eram as meninas mais inocentes do mundo. As mais.
No
mês que as conheci foi meu aniversário de doze anos e as convidei
sem consultar ninguém. Vieram com vestidos idênticos, de xadrez
escocês e peitilho de renda, e cada uma trazendo por uma das mãos
um grande pacote embrulhado para presente. Minha mãe adorou as duas,
eram tão elegantes, ainda tão meninas, muito bem-educadas e me
presentearam com uma boneca que abria e fechava os olhos azuis de
pestanas enormes. Eu sempre achei essa boneca aterrorizante, e minha
mãe, que havia tentado de tudo, inclusive fazer um batismo com água
benta, finalmente teve de escondê-la porque em meus pesadelos Dina —
assim se chamava a boneca de acordo com a caixa — me estrangulava
com suas mãozinhas, nas quais de repente haviam crescido garras
vermelhas. Meus irmãos a chamavam Diabina e, às vezes, de noite,
vinham com ela ao meu quarto e a deixavam na cama, sentada,
observando-me com aqueles olhos vidrados, fixos. Faziam-na falar,
dizer-me coisas horríveis: que ia me levar para o inferno porque eu
era tão má quanto ela. Meus irmãos me torturaram com Diabina
durante meses e meses, até que meu pai lhes deu tapas nas costas e,
se não tivessem se protegido com os braços, teria batido na cabeça
deles.
— Parem
de infernizar sua irmã, vão deixá-la mais louca do que ela já é.
Vanesa
e Violeta tinham dessas bonecas espalhadas por todo o quarto, era uma
coisa horrorosa: jamais consegui ficar sozinha ali. Quando não
estavam, porque, por exemplo, iam ao banheiro ao mesmo tempo, ou
tinham sede ao mesmo tempo, eu ia para o corredor e, numa daquelas
tardes, uma das portas se abriu e eu conheci o irmão delas, o
esquisito. Ele me perguntou se eu queria ver uma coisa e eu lhe disse
que sim, porque toda a vida eu quis ver coisas e porque sempre digo
sim aos homens. Ele me levou à sacada e lá, numa gaiola, havia dois
hamsters mexendo seus narizes e boquinhas minúsculas, contemplando o
nada, bobalhões. Ele me disse que a fêmea tinha acabado de dar cria
e que havia comido os filhotes. Não acreditei até que ele enfiou a
mão na gaiola e tirou dali meio hamsterzinho, uma coisa diminuta e
rosada, uma patinha e um rabo ainda com um pouco de sangue e depois
uma cabeça do tamanho das bolinhas de papel que as meninas da escola
atiravam na minha nuca. A mãe, peluda e bochechuda, olhava para a
frente com seus olhinhos pretos e seus bigodes caricaturais. Era tão
difícil imaginá-la comendo suas criaturinhas; mas, por outro lado,
ele estava ali, com as palmas das mãos abertas, mostrando-me pedaços
de bebês hamster, pata e rabo na da direita, cabecinha na da
esquerda, e contando-me que havia visto tudo, desde o parto até o
canibalismo. Depois me disse que a hamster era muito esperta e não
queria que seus filhos crescessem naquela casa, sua casa, e atirou os
pedacinhos de carne pela sacada, limpou a mão num lenço que tirou
do bolso, abriu o zíper, pegou minha cabeça, disse que eu me
ajoelhasse, que abrisse a boca e que metesse na boca aquele outro
pedaço de carne rosada que ele tinha entre as pernas. Mandou que eu
não usasse os dentes e assim o fiz. Isso ocorreu na frente dos
hamsters e, quem sabe, dos vizinhos. Isso era amor, ele me explicou,
e eu disse que sim, porque sempre digo sim aos homens.
Eu
tinha doze e ele, treze. O que algum de nós sabia sobre amor?
Esperei
Vanesa e Violeta no corredor e lhes contei do hamster e as duas
disseram, sem espanto nem nojo, que não era a primeira vez, que
sempre comiam as crias, mas que seus pais haviam explicado a elas que
tudo bem que isso acontecesse porque os recém-nascidos eram fracos e
não sobreviveriam, que os roedores comem suas crias quando sentem
que o mundo vai comê-los de qualquer jeito. Disseram isso com tanta
naturalidade que eu estive a ponto de dizer a elas que, além de
tudo, o irmão havia enfiado sua carne na minha boca porque isso era
amor. Mas não falei nada. Fui para casa e comi purê com nuggets de
frango. Meu pai, como sempre, mandou minha mãe levar o jantar ao seu
quarto. Algumas vezes ele tentava jantar conosco, mas a sala de
jantar se convertia na dimensão desconhecida: nós engolíamos tudo
como desvairados, em silêncio, sem levantar a cabeça, e mamãe
queimava o arroz, derramava a sopa, ria, também, de nada, como se em
vez de nossa casa aquilo fosse um manicômio. Naquela noite contei o
lance dos hamsters, mas não o outro, e um de meus irmãos disse que
nojo, e o outro disse não fale essas merdas durante o jantar, e me
deu um tapa no braço. Minha mãe estava na cozinha. Ofereceu mais
nuggets, mais purê, e eles aceitaram e eu também, mas
engolindo as lágrimas porque na minha casa, quando você está
sufocando, você come, e quando ninguém vem em seu auxílio, você
come; e quando você está roxa, inchada, morta, você come. De
qualquer modo, minha mãe não ia fazer nada.
De
meu quarto eu podia escutar Vanesa e Violeta. Às vezes, gritavam meu
nome e então eu dizia à minha mãe que ia na casa delas. Nunca era
o contrário: meu pai não gostava que as pessoas viessem à nossa
casa. O pai de Vanesa e Violeta se chamava Tomás, sr. Tomás, e
metia medo. Era um senhor muito alto e muito corado que usava óculos
de aro preto grosso, vestia ternos claros e quase nunca estava em
casa. Quando estava, era preciso baixar a voz até o mutismo, o ar se
preenchia de uma substância elétrica, lacrimogênea, como quando
vai cair uma chuva torrencial, e a brincadeira se tornava enfermiça.
Matávamos as bonecas de formas horríveis, nós mesmas nos fingíamos
de mortas, ou jogávamos os brinquedos na caixa de qualquer maneira,
com ferocidade. Nesse silêncio, escutava-se nitidamente o barulho da
roda metálica da qual os hamsters, desesperados, inutilmente
tentavam escapar.
Então
eu me levantava devagarinho, descia as escadas como um fantasma,
abria a porta que me asfixiava e ia para casa, onde o ar não era
melhor, mas me pertencia. Você respira, embora seja espantoso,
aquilo que é seu, aquilo que seus pulmões anseiam sem saber por
quê. A pobre inteligência do pulmão. Carne de minha carne. Ar de
meu ar. Filha de meus pais.
A
mãe de minhas amigas, ao contrário, era baixinha, e só. Por mais
que eu pense, não me lembro de outra característica distintiva sua.
Era como um borrão caminhando de vestido. Talvez se chamasse
Margarida, talvez Rosa, algo piegas, floral.
Depois
do encontro na sacada, não vi o irmão esquisito durante um bom
tempo. Sei que ele sabia que eu tinha chegado à sua casa porque a
porta se abria um pouco e eu sentia seus olhinhos pretos me seguindo
enquanto avançava pelo corredor. Às vezes, quando eu passava ao
lado do quarto dele, sentia um calor bestial no baixo-ventre e um
calafrio, mas de nenhuma maneira semelhante ao que sentia quando
estava doente. Eu ficava sabendo que a hamster continuava parindo e
comendo suas crias e aquilo me excitava. Como esse lance do
canibalismo roedor acontecia de noite, sugeri que tirassem fotos, mas
eu é que não ia pegar a câmera de meu pai nem elas a do seu: eles
queimariam nossas mãos, portanto fiquei só na vontade de ver.
Com
o passar do tempo, comecei a me cansar de Vanesa e Violeta. Havia
começado a lhes chamar Vaneta ou Vionesa, mas não se chateavam,
jamais demonstravam outra emoção que não fosse uma risada débil
ou umas lágrimas amuadas. Eu já não achava graça o prodígio de
que, se batesse em uma, a outra é que se doía, mas continuava
fazendo aquilo. Eu só continuava indo até aquela casa para
percorrer o corredor onde sabia que ele estava, trancado com suas
coisas esquisitas: livros, insetos, aquários, revistinhas, e me
sentava no tapete para brincar com suas irmãs apenas para senti-lo
perto, para escutar sua tosse. De manhã, quando saíamos para ir ao
colégio ao mesmo tempo, não nos olhávamos, mas eu sentia o rosto
pegando fogo e o coração como uma bomba. Achava que todo mundo
percebia, mas a verdade é que ninguém olhava para mim naquela hora.
Em hora nenhuma. Meus irmãos olhavam para mim à noite para me
assustar com a boneca diabólica, isso sim.
Certa
tarde fui à sua casa, como sempre, e ele saiu do nada, me pegou pela
mão e me enfiou em seu quarto, rápido, sem dizer uma só palavra.
Ali, na penumbra que cheirava a meias usadas e a axilas sem lavar,
ele me olhou, ajeitou os óculos no nariz e me beijou, me beijou
muito, de pé e deitado, e eu me deixei beijar muito, de pé e
deitada. Ele já não teve de dizer que aquilo era amor, porque eu já
sabia.
Sabia
perfeitamente.
Quando
o pai os abandonou, o meu achou que não era bom que eu continuasse
frequentando a casa deles porque era uma casa sem cabeça. Assim ele
disse, talvez tenha dito sem cabeça de família, mas eu apenas
lembro que falou casa sem cabeça, como frango sem cabeça, ou seja,
loucos. Não foi traumático para mim porque eu já não queria as
gêmeas em minha vida, tinha descoberto os livros e, com eles, a
deliciosa sensação de não precisar de nada nem de ninguém no
mundo inteiro. Eu já não era uma menina estranha, mas uma menina
leitora. Às vezes, as imaginava do outro lado de minha parede, de
meu espelho, rodeadas por suas assustadoras bonecas de porcelana,
brincando de bate-mão como duas bobinhas. A natureza tinha duplicado
o erro. Eu não sentia pena delas nem nada.
Ele,
o irmão esquisito, eu via quando saíamos todos para o colégio, e
minha mãe, um pouco apressada, meio nervosa, cumprimentava Margarida
ou Rosa, a mãe, e dizia qualquer dia desses vou aí e a gente toma
um cafezinho. Nunca, é claro. Um dia, eu já devia ter uns quinze,
ele deixou de ir ao colégio. Tinha se formado e ninguém nunca
voltou a perguntar por sua existência. Eu morria de curiosidade de
saber, mas me imaginava derretendo-me no asfalto à medida que
pronunciava seu nome e dizendo a última sílaba a partir de uma poça
d’água em que eu me transformara. Meus irmãos também haviam se
formado, nossas pessoinhas tinham se tornado pessoas: o dano já
estava feito.
Eu
também me formei, comecei a faculdade, terminei, continuei dizendo
sim aos homens, espatifando-me como um copo barato contra as paredes
de diferentes casas. Ou seja, crescendo. Depois fui embora do país,
meu pai morreu sem que eu soubesse quem era aquele homem que eu tanto
desejei que me amasse — a pior forma de amor —, dei mil voltas
como o hamster na roda estúpida e um dia voltei e caminhei os dez
passos que me separavam de sua casa.
— Quer
vê-las?
Digo
que sim porque sempre digo sim aos homens. Eu me levanto e subo com
ele as escadas que não subi por centenas de anos, por mil vidas, ou
seja, nunca mais. A peste, como um invasor, se apossou também da
zona de cima, há um obstáculo para cada passo. Não sei o que é
toda essa merda, mas sei que se cair não vou conseguir me levantar,
que me fundirei na acumulação pastosa de lixo e ficarei ali para
sempre, como um inseto no âmbar, como Alice caindo sem parar pelo
buraco da árvore. O país das maravilhas: uma casa do sul entupida
de dejetos. O coelho branco: o irmão esquisito que todos
abandonaram. Ele me pega pela mão e me leva àquele que sempre foi
seu quarto.
Ali,
como se o tempo não tivesse passado, um casal de hamsters dá voltas
numa roda. Acende a luz, uma lâmpada imunda, sem abajur, e vejo que
em todas as paredes há fotos, fotos ampliadas até a desfiguração:
são hamsters gigantescos devorando passo a passo, com método, suas
crias. Simpáticos dentinhos de roedor cravados na carne rosada de
umas coisinhas com cara extraterrestre que são seus próprios
filhos. As fotos que sempre quis ver estão diante de meus olhos e
são mais belas do que jamais imaginei. Ser que come os seres que
gerou. Mãe se alimentando de seus pequenos. A natureza quando não
se equivoca. Olhamos um para o outro. Eu sorrio. Ele sorri.
Compreendo,
pelas cócegas que sinto no baixo-ventre, pela vertigem, pela mão
que desliza por baixo da minha saia e me eletriza, que, às vezes, só
às vezes, há uma terra à qual se pode voltar.
María Fernanda Ampuero, in Rinha de galos

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