terça-feira, 7 de junho de 2022

Crias


Vanesa e Violeta, as gêmeas, minhas vizinhas de toda a vida, agora vivem no exterior. Emigraram faz uns quinze anos, como eu, e não pisam no país desde então. Levaram primeiro a mãe, depois o irmão mais velho, a cunhada, os sobrinhos, e na casa do bairro ficou apenas o outro irmão, o esquisito.
Voltar, como todo mundo sabe, é impossível. Depois dos abraços e das lágrimas, vem o verdadeiro reencontro, estar cara a cara com as mesmas pessoas quando nós já somos outros, estar diante delas quando não sabemos quem são. Ou seja, ninguém diante de ninguém. A pantomima de: ai, que lindo, que delícia, quantas saudades. Procuram-nos onde já não estamos, nós os procuramos onde já não estão e aí começa a tragédia.
Depois de alguns dias em casa, tomando as vitaminas de sempre, aparentando uma docilidade de leão de circo, deixando-se envolver pelo meloso olhar filial, chega um dia em que não é mais possível: fingir que voltou requer um esforço exaustivo. Quase mata.
Bato na porta do vizinho, o esquisito, porque, digo a mim mesma enquanto ando os dez passos que me separam de sua casa, quero saber de suas irmãs, mas na verdade quero saber dele: o esquecido dos exílios familiares. Ele: o garoto de minha infância.
Ele me abre a porta vestido com um roupão, um roupão de uma espécie de flanela nessa terra que só falta nos cozinhar, mas o roupão é de flanela, xadrez, um pouco acima dos joelhos. Está com chinelos azuis de borracha. Não veste calças, mas usa óculos que ajeita dando uma batidinha no nariz quando me vê parada do outro lado de sua porta metálica pintada de branco. É tão pálido que parece vindo de um mundo sem sol, o canário da mina, mas a verdade é que ele não sai de casa. Perdeu todo o cabelo, engordou uns vinte quilos, tem o mau cheiro dos idosos abandonados. É claro que me reconhece, é claro que diz meu nome, é claro que me convida a entrar e a me sentar no mesmo sofá vermelho de sempre que agora está desbotado e cheio de pelos, como se aqui vivessem gatos, mas não há gatos. Ele sabe quem eu sou. Porém, o mais importante: eu sei quem ele é. Cara a cara não existe disfarce. Eu nunca fui embora, ele nunca ficou.
Depois de três perguntas idiotas, que ele responde com seu balbucio costumeiro e olhando para o outro lado — o que aconteceu com seus irmãos, com sua mãe, e por que nunca voltaram —, eu me ajoelho no tapete vermelho, um persa falsificado imundo, abro o roupão dele, sob o qual não há nada, e o chupo. Ele não se surpreende. Eu sim, pois o cheiro é repugnante e ele tem o púbis sem pelos e o pau morto, mas continuo e continuo e continuo até que ele fica duro e continuo mais ainda, até que ele goza na minha boca e eu engulo aquilo que tem cheiro de mostarda Dijon e cloro. Ao lado de meu joelho passa uma barata enorme e ele a pisoteia sobre o tapete persa falsificado. Então me dou conta de que sobre o tapete há um monte de baratas mortas, de barriga para cima, as patinhas duras, e que, de fato, estou ajoelhada em cima de uma que morreu faz tempo, que é um fóssil de barata, uma casca. Do bolso do roupão ele tira um lenço imundo e limpa os cantos de minha boca. Não falamos.
Enquanto ele está na cozinha, olho à minha volta. A sala de estar e a de jantar se encontram tão cheias de coisas, de sacos pretos de lixo, garrafas vazias, caixas de papelão, pentelhos, que isso já não pode ser chamado de casa. As baratas sobem e descem pelas paredes e há uma que se aproxima, intrépida, de meu pé. Tenho pavor delas, mas não consigo me mexer, de repente me sinto muito cansada, o viajante que pisa em terra firme depois da odisseia, e dormiria de boa vontade nesse tapete cheio de pelos, de pele morta, cadáveres de bichos e pó.
Ele traz uma Coca-Cola sem gás num copo todo engordurado que tem cheiro de ovo. Espera que eu tome tudo e me oferece a mão para que eu me levante.
Quer vê-las?
Conheci Vanesa e Violeta, que eram idênticas, no parque da esquina. Quando me disseram que tinham minha idade, dois irmãos, e que viviam na casa vermelha ao lado da minha, achei extraordinário. Sua família era como a minha, tudo igual, mas elas eram duas e não uma. Eu era apenas eu e achava chato. O lance gemelar me fascinava, perguntava-lhes coisas sem parar, e elas, com seu rosto igualzinho, como uma menina que fala com seu espelho, respondiam. Um dia me disseram que, se uma delas sentia dor, a outra também sentia, então belisquei Vanesa, e Violeta deu um grito. Bati palmas como se tivesse presenciado uma verdadeira mágica e decidi que as amava: minhas amigas prodigiosas eram como um espetáculo. Isto, o negócio de machucar uma delas para que a outra sentisse, eu repeti muitas vezes: dava-lhes socos no estômago, puxava seu cabelo, pisava em suas mãos, jogava cera quente nas pernas delas, enfiava-lhes uma tachinha na unha. Sempre sentiam ao mesmo tempo, até choravam, mas deixavam: eram as meninas mais inocentes do mundo. As mais.
No mês que as conheci foi meu aniversário de doze anos e as convidei sem consultar ninguém. Vieram com vestidos idênticos, de xadrez escocês e peitilho de renda, e cada uma trazendo por uma das mãos um grande pacote embrulhado para presente. Minha mãe adorou as duas, eram tão elegantes, ainda tão meninas, muito bem-educadas e me presentearam com uma boneca que abria e fechava os olhos azuis de pestanas enormes. Eu sempre achei essa boneca aterrorizante, e minha mãe, que havia tentado de tudo, inclusive fazer um batismo com água benta, finalmente teve de escondê-la porque em meus pesadelos Dina — assim se chamava a boneca de acordo com a caixa — me estrangulava com suas mãozinhas, nas quais de repente haviam crescido garras vermelhas. Meus irmãos a chamavam Diabina e, às vezes, de noite, vinham com ela ao meu quarto e a deixavam na cama, sentada, observando-me com aqueles olhos vidrados, fixos. Faziam-na falar, dizer-me coisas horríveis: que ia me levar para o inferno porque eu era tão má quanto ela. Meus irmãos me torturaram com Diabina durante meses e meses, até que meu pai lhes deu tapas nas costas e, se não tivessem se protegido com os braços, teria batido na cabeça deles.
Parem de infernizar sua irmã, vão deixá-la mais louca do que ela já é.
Vanesa e Violeta tinham dessas bonecas espalhadas por todo o quarto, era uma coisa horrorosa: jamais consegui ficar sozinha ali. Quando não estavam, porque, por exemplo, iam ao banheiro ao mesmo tempo, ou tinham sede ao mesmo tempo, eu ia para o corredor e, numa daquelas tardes, uma das portas se abriu e eu conheci o irmão delas, o esquisito. Ele me perguntou se eu queria ver uma coisa e eu lhe disse que sim, porque toda a vida eu quis ver coisas e porque sempre digo sim aos homens. Ele me levou à sacada e lá, numa gaiola, havia dois hamsters mexendo seus narizes e boquinhas minúsculas, contemplando o nada, bobalhões. Ele me disse que a fêmea tinha acabado de dar cria e que havia comido os filhotes. Não acreditei até que ele enfiou a mão na gaiola e tirou dali meio hamsterzinho, uma coisa diminuta e rosada, uma patinha e um rabo ainda com um pouco de sangue e depois uma cabeça do tamanho das bolinhas de papel que as meninas da escola atiravam na minha nuca. A mãe, peluda e bochechuda, olhava para a frente com seus olhinhos pretos e seus bigodes caricaturais. Era tão difícil imaginá-la comendo suas criaturinhas; mas, por outro lado, ele estava ali, com as palmas das mãos abertas, mostrando-me pedaços de bebês hamster, pata e rabo na da direita, cabecinha na da esquerda, e contando-me que havia visto tudo, desde o parto até o canibalismo. Depois me disse que a hamster era muito esperta e não queria que seus filhos crescessem naquela casa, sua casa, e atirou os pedacinhos de carne pela sacada, limpou a mão num lenço que tirou do bolso, abriu o zíper, pegou minha cabeça, disse que eu me ajoelhasse, que abrisse a boca e que metesse na boca aquele outro pedaço de carne rosada que ele tinha entre as pernas. Mandou que eu não usasse os dentes e assim o fiz. Isso ocorreu na frente dos hamsters e, quem sabe, dos vizinhos. Isso era amor, ele me explicou, e eu disse que sim, porque sempre digo sim aos homens.
Eu tinha doze e ele, treze. O que algum de nós sabia sobre amor?
Esperei Vanesa e Violeta no corredor e lhes contei do hamster e as duas disseram, sem espanto nem nojo, que não era a primeira vez, que sempre comiam as crias, mas que seus pais haviam explicado a elas que tudo bem que isso acontecesse porque os recém-nascidos eram fracos e não sobreviveriam, que os roedores comem suas crias quando sentem que o mundo vai comê-los de qualquer jeito. Disseram isso com tanta naturalidade que eu estive a ponto de dizer a elas que, além de tudo, o irmão havia enfiado sua carne na minha boca porque isso era amor. Mas não falei nada. Fui para casa e comi purê com nuggets de frango. Meu pai, como sempre, mandou minha mãe levar o jantar ao seu quarto. Algumas vezes ele tentava jantar conosco, mas a sala de jantar se convertia na dimensão desconhecida: nós engolíamos tudo como desvairados, em silêncio, sem levantar a cabeça, e mamãe queimava o arroz, derramava a sopa, ria, também, de nada, como se em vez de nossa casa aquilo fosse um manicômio. Naquela noite contei o lance dos hamsters, mas não o outro, e um de meus irmãos disse que nojo, e o outro disse não fale essas merdas durante o jantar, e me deu um tapa no braço. Minha mãe estava na cozinha. Ofereceu mais nuggets, mais purê, e eles aceitaram e eu também, mas engolindo as lágrimas porque na minha casa, quando você está sufocando, você come, e quando ninguém vem em seu auxílio, você come; e quando você está roxa, inchada, morta, você come. De qualquer modo, minha mãe não ia fazer nada.
De meu quarto eu podia escutar Vanesa e Violeta. Às vezes, gritavam meu nome e então eu dizia à minha mãe que ia na casa delas. Nunca era o contrário: meu pai não gostava que as pessoas viessem à nossa casa. O pai de Vanesa e Violeta se chamava Tomás, sr. Tomás, e metia medo. Era um senhor muito alto e muito corado que usava óculos de aro preto grosso, vestia ternos claros e quase nunca estava em casa. Quando estava, era preciso baixar a voz até o mutismo, o ar se preenchia de uma substância elétrica, lacrimogênea, como quando vai cair uma chuva torrencial, e a brincadeira se tornava enfermiça. Matávamos as bonecas de formas horríveis, nós mesmas nos fingíamos de mortas, ou jogávamos os brinquedos na caixa de qualquer maneira, com ferocidade. Nesse silêncio, escutava-se nitidamente o barulho da roda metálica da qual os hamsters, desesperados, inutilmente tentavam escapar.
Então eu me levantava devagarinho, descia as escadas como um fantasma, abria a porta que me asfixiava e ia para casa, onde o ar não era melhor, mas me pertencia. Você respira, embora seja espantoso, aquilo que é seu, aquilo que seus pulmões anseiam sem saber por quê. A pobre inteligência do pulmão. Carne de minha carne. Ar de meu ar. Filha de meus pais.
A mãe de minhas amigas, ao contrário, era baixinha, e só. Por mais que eu pense, não me lembro de outra característica distintiva sua. Era como um borrão caminhando de vestido. Talvez se chamasse Margarida, talvez Rosa, algo piegas, floral.
Depois do encontro na sacada, não vi o irmão esquisito durante um bom tempo. Sei que ele sabia que eu tinha chegado à sua casa porque a porta se abria um pouco e eu sentia seus olhinhos pretos me seguindo enquanto avançava pelo corredor. Às vezes, quando eu passava ao lado do quarto dele, sentia um calor bestial no baixo-ventre e um calafrio, mas de nenhuma maneira semelhante ao que sentia quando estava doente. Eu ficava sabendo que a hamster continuava parindo e comendo suas crias e aquilo me excitava. Como esse lance do canibalismo roedor acontecia de noite, sugeri que tirassem fotos, mas eu é que não ia pegar a câmera de meu pai nem elas a do seu: eles queimariam nossas mãos, portanto fiquei só na vontade de ver.
Com o passar do tempo, comecei a me cansar de Vanesa e Violeta. Havia começado a lhes chamar Vaneta ou Vionesa, mas não se chateavam, jamais demonstravam outra emoção que não fosse uma risada débil ou umas lágrimas amuadas. Eu já não achava graça o prodígio de que, se batesse em uma, a outra é que se doía, mas continuava fazendo aquilo. Eu só continuava indo até aquela casa para percorrer o corredor onde sabia que ele estava, trancado com suas coisas esquisitas: livros, insetos, aquários, revistinhas, e me sentava no tapete para brincar com suas irmãs apenas para senti-lo perto, para escutar sua tosse. De manhã, quando saíamos para ir ao colégio ao mesmo tempo, não nos olhávamos, mas eu sentia o rosto pegando fogo e o coração como uma bomba. Achava que todo mundo percebia, mas a verdade é que ninguém olhava para mim naquela hora. Em hora nenhuma. Meus irmãos olhavam para mim à noite para me assustar com a boneca diabólica, isso sim.
Certa tarde fui à sua casa, como sempre, e ele saiu do nada, me pegou pela mão e me enfiou em seu quarto, rápido, sem dizer uma só palavra. Ali, na penumbra que cheirava a meias usadas e a axilas sem lavar, ele me olhou, ajeitou os óculos no nariz e me beijou, me beijou muito, de pé e deitado, e eu me deixei beijar muito, de pé e deitada. Ele já não teve de dizer que aquilo era amor, porque eu já sabia.
Sabia perfeitamente.
Quando o pai os abandonou, o meu achou que não era bom que eu continuasse frequentando a casa deles porque era uma casa sem cabeça. Assim ele disse, talvez tenha dito sem cabeça de família, mas eu apenas lembro que falou casa sem cabeça, como frango sem cabeça, ou seja, loucos. Não foi traumático para mim porque eu já não queria as gêmeas em minha vida, tinha descoberto os livros e, com eles, a deliciosa sensação de não precisar de nada nem de ninguém no mundo inteiro. Eu já não era uma menina estranha, mas uma menina leitora. Às vezes, as imaginava do outro lado de minha parede, de meu espelho, rodeadas por suas assustadoras bonecas de porcelana, brincando de bate-mão como duas bobinhas. A natureza tinha duplicado o erro. Eu não sentia pena delas nem nada.
Ele, o irmão esquisito, eu via quando saíamos todos para o colégio, e minha mãe, um pouco apressada, meio nervosa, cumprimentava Margarida ou Rosa, a mãe, e dizia qualquer dia desses vou aí e a gente toma um cafezinho. Nunca, é claro. Um dia, eu já devia ter uns quinze, ele deixou de ir ao colégio. Tinha se formado e ninguém nunca voltou a perguntar por sua existência. Eu morria de curiosidade de saber, mas me imaginava derretendo-me no asfalto à medida que pronunciava seu nome e dizendo a última sílaba a partir de uma poça d’água em que eu me transformara. Meus irmãos também haviam se formado, nossas pessoinhas tinham se tornado pessoas: o dano já estava feito.
Eu também me formei, comecei a faculdade, terminei, continuei dizendo sim aos homens, espatifando-me como um copo barato contra as paredes de diferentes casas. Ou seja, crescendo. Depois fui embora do país, meu pai morreu sem que eu soubesse quem era aquele homem que eu tanto desejei que me amasse — a pior forma de amor —, dei mil voltas como o hamster na roda estúpida e um dia voltei e caminhei os dez passos que me separavam de sua casa.
Quer vê-las?
Digo que sim porque sempre digo sim aos homens. Eu me levanto e subo com ele as escadas que não subi por centenas de anos, por mil vidas, ou seja, nunca mais. A peste, como um invasor, se apossou também da zona de cima, há um obstáculo para cada passo. Não sei o que é toda essa merda, mas sei que se cair não vou conseguir me levantar, que me fundirei na acumulação pastosa de lixo e ficarei ali para sempre, como um inseto no âmbar, como Alice caindo sem parar pelo buraco da árvore. O país das maravilhas: uma casa do sul entupida de dejetos. O coelho branco: o irmão esquisito que todos abandonaram. Ele me pega pela mão e me leva àquele que sempre foi seu quarto.
Ali, como se o tempo não tivesse passado, um casal de hamsters dá voltas numa roda. Acende a luz, uma lâmpada imunda, sem abajur, e vejo que em todas as paredes há fotos, fotos ampliadas até a desfiguração: são hamsters gigantescos devorando passo a passo, com método, suas crias. Simpáticos dentinhos de roedor cravados na carne rosada de umas coisinhas com cara extraterrestre que são seus próprios filhos. As fotos que sempre quis ver estão diante de meus olhos e são mais belas do que jamais imaginei. Ser que come os seres que gerou. Mãe se alimentando de seus pequenos. A natureza quando não se equivoca. Olhamos um para o outro. Eu sorrio. Ele sorri.
Compreendo, pelas cócegas que sinto no baixo-ventre, pela vertigem, pela mão que desliza por baixo da minha saia e me eletriza, que, às vezes, só às vezes, há uma terra à qual se pode voltar.

María Fernanda Ampuero, in Rinha de galos

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