08/04/2020

Uma oferta de espaço

Ouçamos Silvia Seoane evocar uma recordação de sua infância em Buenos Aires. Trata-se ainda do paraíso e da voz:

Quando eu era pequena, minha mãe me contava, à noite, com as luzes apagadas, a história de Alice no País das Maravilhas. Não sei se ela tinha lido o romance de Lewis Carroll; não sei se a sua mãe, um irmão mais velho ou uma freira do colégio interno onde ela estudou haviam contado a história para ela. Não sei se ela leu uma versão do romance no Tesouro da juventude, livro de cabeceira de sua infância (que eu imaginava quando criança como a fonte de todas as histórias). Quer dizer, não sei como esse clássico foi parar nas mãos, nos olhos ou nas orelhas de minha mãe.
[...] Sei que ela mantinha um pequeno comércio em nossa casa e que, provavelmente por essa razão, as aventuras daquela Alice, que me contava, aconteciam em um mundo de árvores de chocolate e de cascatas de Fanta Laranja e Coca-Cola. Sei que Alice chegava nesse paraíso depois de passar por um espelho (por isso, eu adorava o armário de remédios do banheiro) e sei que havia o Coelho e a Rainha de Copas.
[...] Eu não me lembro de muitos detalhes da história, mas lembro da voz da minha mãe na escuridão. Lembro, com bastante clareza, o que eu via enquanto ela falava. Lembro da emoção e da maravilhosa sensação alucinada. Sei que eu estava convencida de que, de certa forma, eu era Alice
[...]; todas as noites, um mundo paralelo nascia na voz da minha mãe. Com a sua narrativa, eu atravessava o espelho e entrava ritualmente na ficção. Assim como quando ela me contava a história do rei Davi ou do meu tataravô, soldado no sul da Itália; a história de Pedro e o Lobo e também a do meu tio Oreste, as histórias dos meus bisavós, professores primários na Patagônia no início do século, e a da pedra movediça de Tandil, ao lado da qual minha avó dava aulas (histórias graças às quais, tenho certeza, me tornei professora).
Tantos eram os relatos. Palavras trabalhadas artesanalmente por minha mãe para criar mundos para mim”.

Todas as noites, na escuridão, a voz da mãe de Silvia, alimentada pelo Tesouro da juventude e por algumas epopeias familiares, tecia narrações que encantavam o cotidiano, misturando-o a uma dimensão poética, com árvores de chocolate e cascatas de Fanta Laranja. Aí vemos como a leitura é uma questão de boca: tem a ver com a voz, mas também com os primeiros alimentos que a criança recebe. E sem dúvida por isso que nos hospitais na Colômbia, os mediadores de leitura intervém muito, sob solicitação médica, junto às crianças em estado de desnutrição. Pensemos também em Marc Soriano, salvando-se da anorexia graças a Pinóquio.
Porém, na cena descrita por Silvia, não é o prazer de retornar ao colo materno que predomina. Nem mesmo a fascinação recíproca da mãe e da criança. Por meio de suas palavras, sua mãe abre o lugar do Outro. O Outro são todas as pessoas das gerações passadas que se encontram na sua voz, o antepassado soldado, o tio Oreste, os bisavós professores, cujas proezas transmite, introduzindo a filha no tempo histórico do século passado como no tempo bíblico do rei Davi, e em um espaço imenso que se estende até a Patagônia e o sul da Itália. As histórias contadas fazem com que ela corra para além do espelho, atravesse outras terras; engrandecem sua vida.
Oral ou escrita, a literatura é uma oferta de espaço. As palavras não cansam de revelar paisagens, passagens, “como se a sua essência fosse bem mais espacial do que verbal, como se o seu fundamento geográfico formasse o seu alicerce de sentido”, escreve Georges-Arthur Goldschmidt. Antes de tudo, é talvez um espaço que é encontrado nas palavras lidas, de modo vital, ainda mais para quem não dispõe de nenhum lugar, nenhum território pessoal, nenhuma margem de manobra.
Michèle Petit, in A arte de ler: ou como resistir à adversidade

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