Ouçamos
Silvia Seoane evocar uma recordação de sua infância em Buenos
Aires. Trata-se ainda do paraíso e da voz:
“Quando
eu era pequena, minha mãe me contava, à noite, com as luzes
apagadas, a história de Alice no País das Maravilhas. Não sei se
ela tinha lido o romance de Lewis Carroll; não sei se a sua mãe, um
irmão mais velho ou uma freira do colégio interno onde ela estudou
haviam contado a história para ela. Não sei se ela leu uma versão
do romance no Tesouro da juventude, livro de cabeceira de sua
infância (que eu imaginava quando criança como a fonte de todas as
histórias). Quer dizer, não sei como esse clássico foi parar nas
mãos, nos olhos ou nas orelhas de minha mãe.
[...]
Sei que ela mantinha um pequeno comércio em nossa casa e que,
provavelmente por essa razão, as aventuras daquela Alice, que me
contava, aconteciam em um mundo de árvores de chocolate e de
cascatas de Fanta Laranja e Coca-Cola. Sei que Alice chegava nesse
paraíso depois de passar por um espelho (por isso, eu adorava o
armário de remédios do banheiro) e sei que havia o Coelho e a
Rainha de Copas.
[...]
Eu não me lembro de muitos detalhes da história, mas lembro da voz
da minha mãe na escuridão. Lembro, com bastante clareza, o que eu
via enquanto ela falava. Lembro da emoção e da maravilhosa sensação
alucinada. Sei que eu estava convencida de que, de certa forma, eu
era Alice
[...];
todas as noites, um mundo paralelo nascia na voz da minha mãe. Com a
sua narrativa, eu atravessava o espelho e entrava ritualmente na
ficção. Assim como quando ela me contava a história do rei Davi ou
do meu tataravô, soldado no sul da Itália; a história de Pedro e o
Lobo e também a do meu tio Oreste, as histórias dos meus bisavós,
professores primários na Patagônia no início do século, e a da
pedra movediça de Tandil, ao lado da qual minha avó dava aulas
(histórias graças às quais, tenho certeza, me tornei professora).
Tantos
eram os relatos. Palavras trabalhadas artesanalmente por minha mãe
para criar mundos para mim”.
Todas
as noites, na escuridão, a voz da mãe de Silvia, alimentada pelo
Tesouro da juventude e por algumas epopeias familiares, tecia
narrações que encantavam o cotidiano, misturando-o a uma dimensão
poética, com árvores de chocolate e cascatas de Fanta Laranja. Aí
vemos como a leitura é uma questão de boca: tem a ver com a voz,
mas também com os primeiros alimentos que a criança recebe. E sem
dúvida por isso que nos hospitais na Colômbia, os mediadores de
leitura intervém muito, sob solicitação médica, junto às
crianças em estado de desnutrição. Pensemos também em Marc
Soriano, salvando-se da anorexia graças a Pinóquio.
Porém,
na cena descrita por Silvia, não é o prazer de retornar ao colo
materno que predomina. Nem mesmo a fascinação recíproca da mãe e
da criança. Por meio de suas palavras, sua mãe abre o lugar do
Outro. O Outro são todas as pessoas das gerações passadas que se
encontram na sua voz, o antepassado soldado, o tio Oreste, os bisavós
professores, cujas proezas transmite, introduzindo a filha no tempo
histórico do século passado como no tempo bíblico do rei Davi, e
em um espaço imenso que se estende até a Patagônia e o sul da
Itália. As histórias contadas fazem com que ela corra para além do
espelho, atravesse outras terras; engrandecem sua vida.
Oral
ou escrita, a literatura é uma oferta de espaço. As palavras não
cansam de revelar paisagens, passagens, “como se a sua essência
fosse bem mais espacial do que verbal, como se o seu fundamento
geográfico formasse o seu alicerce de sentido”, escreve
Georges-Arthur Goldschmidt. Antes de tudo, é talvez um espaço que é
encontrado nas palavras lidas, de modo vital, ainda mais para quem
não dispõe de nenhum lugar, nenhum território pessoal, nenhuma
margem de manobra.
Michèle
Petit, in A arte de ler: ou como resistir à adversidade
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