Então,
no meio daquele coquetel de inauguração de qualquer coisa, entre
uma mulher que insistia em falar no Uri Geller e um homem que citava
Peter Drucker sem parar (ah, os novos profetas!), e fazendo o
possível para não ser visto pela grande senhora que há pouco o
ameaçara com uma nova teoria da comunicação que trazia escondida
entre os seios, ele procurou alívio numa bandeja que passava.
Confortai-me com canapés que desfaleço de banalidades.
E
pensar que aquela mesma espécie já dera tantos gênios.
Compositores, pintores, escritores, pensadores... se fosse possível
reuni-los todos num imenso coquetel. Que vitalidade. Que brilho.
Principalmente, que conversas!
Imaginemos
que aqueles dois ali, em vez de serem um empresário notoriamente
analfabeto e um político que fala português de anedota, fossem,
digamos, Beethoven e Vincent van Gogh. Aproximemo-nos para ouvir o
que dizem os gênios.
Van
Gogh aponta para um dos seus ouvidos.
— Fala
neste aqui que com o outro eu não ouço.
E
Beethoven:
— Hein?
— Fala no outro ouvido. Desse lado não escuto nada.
— O
quê?
— Hein?
— Como?
— O
outro ouvido! O outro ouvido!
Está
bem, não é um bom exemplo. O Picasso chegaria de bermuda e
beliscando as mulheres, também não serve. De repente bateriam à
porta, o mordomo iria abrir e não veria ninguém. Fecharia a porta,
intrigado, e ouviria batidas outra vez. Abriria de novo, sem ver
ninguém. E então ouviria uma voz vindo de baixo:
— Sou
eu, seu filho de um cão sarnento com uma faxineira da Antuérpia!
É
Toulouse-Lautrec. Mais tarde William Faulkner, a caminho do seu
décimo sétimo bourbon, tropeçará nele e cairá ao comprido
no tapete diante de Oscar Wilde que, girando seu absinto no copo,
dirá:
— Eu
gosto de ter admiradores, mas isso é ridículo.
— Aposto
que eles ensaiaram antes só para ele poder dizer a frase — dirá
George Bernard Shaw para Sócrates, a seu lado. Este olha com
desconfiança para o copo que tem na mão.
— O
que será que estão me dando? — pergunta Sócrates.
— Se
não é scotch é porcaria — setencia Shaw.
— A
última bebida que me deram era cicuta.
O
rosto de Shaw se ilumina com a deixa.
— Cicuta,
pra mim, é um veneno...
Shaw
sai de grupo em grupo para contar a própria frase, às gargalhadas,
mas a repercussão não é boa. Kant e Victor Hugo se desentenderam
por alguma razão, trocaram insultos e o ambiente ficou pesado. E
Wagner martelando no piano com as duas mãos abertas não está
ajudando nada. Beethoven é o único que não se incomoda. Van Gogh
tapa uma orelha. Salvador Dali tapa os olhos para não ouvir.
Ouve-se
um grito vindo de trás de uma porta fechada. A porta se abre e uma
mulher seminua sai correndo. Minutos depois, pela mesma porta,
ajeitando a gravata, aparece o Marquês de Sade e explica:
— Não
é o que vocês estão pensando. Nós estávamos tendo uma discussão
filosófica na cama e aí surgiu um hindu louco e puxou o lençol.
Por
trás do marquês aparece Mahatma Ghandi, envolto no lençol e
pedindo desculpas.
— É
que derramei Coca-cola na minha outra roupa e...
Hemingway,
rodeado por simbolistas franceses e segurando o copo como uma
granada, argumenta:
— Eu
(obscenidade) no leite do simbolismo. Eu (obscenidade) no leite das
proparoxítonas maricas.
Aristóteles,
que tem um copo de leite na mão, afasta-se do grupo prudentemente. A
tensão na sala é enorme. Alguém pede silêncio. Vai haver um
discurso. O orador é Rui Barbosa. Ouvem-se murmúrios e gemidos.
Muita gente começa a se dirigir para a porta de saída tentando não
dar na vista.
Não,
pensou ele, mastigando um quadradinho de pão coberto com uma pasta
vagamente marinha. Seria ótimo reunir os gênios. Mas não num
coquetel. Definitivamente, não num coquetel.
Luís
Fernando Veríssimo, in Banquete com os deuses
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