domingo, 1 de março de 2020

Borgianas

Eu estava jogando xadrez com o Jorge Luis Borges, no escuro, para não lhe dar nenhuma vantagem, quando ouvimos um tropel vindo da rua.
Escuta — disse Borges. — Zebras!
Por que zebras? — perguntei. — Devem ser cavalos.
Ele suspirou, como quem desiste. Em seguida me contou que há muitos anos pensava em escrever uma história assim:
De repente, na Europa, começam a desaparecer pessoas. Pessoas humildes, gente do campo, soldados rasos. E desaparecem depois de acidentes estranhos. São atropeladas por cavalos, ou por bispos, ou por outras pessoas humildes, ou o mais estranho de tudo, por torres. Estão caminhando na rua, trabalhando, nas suas casas, e de repente vem um cavalo e as atropela, ou vem um bispo e as derruba, ou vem uma torre, não se sabe de onde, e as soterra. E as pessoas desaparecem do mundo.
Neste instante ouvimos o estouro de um motor vindo da rua.
Escuta — disse eu, tentando me recuperar. — O Hispano Suiza de uma diva estrábica!
Deve ser uma Kombi — disse Borges. E continuou. — Outras coisas estranhas acontecem. Uma torre do castelo real da Holanda desloca-se loucamente pelo mapa e choca-se contra uma parede do castelo do rei Juan Carlos, da Espanha. E os bispos! Causa grande comoção o comportamento de alguns bispos europeus, que passam a só andar em diagonal, ameaçadoramente. Ninguém consegue explicar por quê. Nem eles mesmos.
Cavalos, bispos em diagonal, torres, reis... — disse eu. — Isso está me lembrando alguma coisa.
Exatamente — disse Borges. — Um jogo de xadrez. Um imenso jogo de xadrez. O tabuleiro é um continente. As peças, vivas, são manipuladas por forças desconhecidas. Quem está jogando? O Bem contra o Mal? Cientistas loucos, senhores de forças irresistíveis que alteram a matéria e o comportamento humano de acordo com a sua loucura? A me galomania natural de todo jogador de xadrez elevada a uma dimensão inimaginável? No fim tudo termina com um grande escândalo.
Como? — perguntei, descobrindo, pelo tato, que Borges liquidara todos os meus peões.
Descobrem um bispo na casa da rainha. A Elizabeth da Inglaterra. Um bispo anglicano, mas mesmo assim... Os tablóides fazem um carnaval. Há brigas no Parlamento. O grande jogo de xadrez termina, tão misteriosamente quanto começou. O apocalipse é derrotado pelo senso de propriedade inglês. Sua vez.
Mais tarde Jorge Luis Borges me contou que no Antigo Egito já se falava num Antigo Egito. Por baixo das areias do Antigo Egito existia outro Egito, e mais outro, no qual se falava em mais três. Mas no nosso Antigo Egito, no Antigo Egito mais recente, disse Borges, acreditava-se numa vida depois desta e Borges indicou o tabuleiro com as duas mãos. Acreditava-se em ainda outro Egito acima do Antigo Egito. Um Futuro Egito. Para onde iam os mortos, de navio. Os egípcios acreditavam também que, quando o nome ou a imagem de um morto eram apagados na Terra, o espírito do morto se apagava no Além. Os profanadores e os iconoclastas tinham a oportunidade de matar o morto pela segunda vez. O rei Akhnaton, por exemplo, apagara todas as referências a seu pai, o rei Amenhotep, das paredes e dos escritos do reino, apagando-o na Eternidade. Perguntei então a Borges o que pensava da teoria segundo a qual Akhnaton, o da Tebas das Mil Portas, no Egito, fora o modelo histórico de Édipo, o da Tebas das Sete Portas da Grécia, que Freud... Mas Borges ergueu as mãos e me pediu para não introduzir Freud, o dos 500 alçapões, nesta história, que já se complicava demais. E disse que só contava a história para mostrar o poder dos escritores sobre a posteridade e como até os mortos estavam à mercê dos revisores.
Outra vez eu estava jogando xadrez com Jorge Luis Borges numa sala de espelhos, com peças invisíveis num tabuleiro imaginário, quando um corvo entrou pela janela, pousou numa estante e disse:
Nunca mais.
Por favor, chega de citações literárias — disse Borges, interrompendo sua concentração.
Tínhamos eliminado tudo do xadrez, menos a concentração. Protestei que não estava fazendo citações literárias.
Há horas que estou em silêncio.
Citando entrelinhas — acusou Borges.
E mesmo — insisti —, não fui eu que falei. Foi um corvo.
Um corvo? — disse Borges, empinando a cabeça.
O corvo de Poe.
Obviamente, não — disse Borges. — Ele falou em português. É o corvo do tradutor.
Imediatamente Borges começou a contar que traduzira para o espanhol a poesia de Robal de Almendres, o poeta anão da Catalunha. Robal escrevia na areia com uma vara e seus seguidores literários literalmente o seguiam, ao mesmo tempo copiando e apagando os seus versos do chão com os pés. Desta maneira, Robal jamais revisava os seus poemas, pois não podia voltar atrás para ver o que tinha escrito.
Por que não lia o que seus seguidores tinham copiado?
Porque não confiava neles. Se houvesse um entre eles com pretensão à originalidade, fatalmente teria alterado a poesia do mestre e não mereceria confiança. Os outros eram meros copiadores, e quem pode confiar em copiadores? Assim Robal se considerava o poeta mais inédito do mundo. Todas as edições das suas obras eram desautorizadas por ele. Quanto mais o editavam, mais inédito ele ficava. Robal quase ganhou um Prêmio Nobel, mas desestimulou a academia em Estocolmo com a ameaça de ir receber o prêmio em Nairóbi. E eu traduzi a sua obra.
Como você se manteve fiel ao espírito de Robal de Almendres, na tradução?
Mudando tudo. Fazendo prosa em vez de poesia. Não traduzindo fielmente nem uma palavra.
E onde está essa obra?
É toda a minha obra — confidenciou Borges.
O corvo voou.
Mais tarde, chegamos à questão da importância da experiência para o escritor. Eu sustentava que a experiência é importante para um escritor. Borges mantinha que a experiência só atrapalhava.
Toda a experiência de vida de que eu necessito está nesta biblioteca — disse Borges, indicando a sala de espelhos com as mãos.
Mas nós não estamos numa biblioteca, mestre — observei.
Eu estou sempre numa biblioteca — disse Borges. Continuou: — E, mesmo assim, sei como é enfrentar um tigre.
Mas você alguma vez enfrentou um tigre?
Nunca. Nunca sequer vi um tigre na minha vida. Mas sei como os seus olhos faíscam. Sei como é o seu cheiro, e o silêncio macio dos seus pés no chão do jângal. Tenho 117 maneiras de descrever o seu pêlo e posso comparar seu focinho com outras 117 coisas, desde a frente de um Packard até um dos disfarces do Diabo. Sei como é o seu bafo, quente como o de uma fornalha, no meu rosto, quando ele procura minha jugular com os dentes.
Você se baseia no relato de alguém que enfrentou um tigre e escreveu a respeito?
Não. Ninguém que enfrentou um tigre jamais deu um bom escritor.
E o contrário? Um escritor que tenha enfrentado um tigre?
Houve um — contou Borges. — Aliás, um bom escritor. Um dia ele foi atacado por um tigre dentro da sua biblioteca, que ficava no centro de Amsterdã. Nunca foi possível descobrir como o tigre chegou lá.
O tigre o matou?
Não. Ele está vivo até hoje.
Mas então ele, melhor que ninguém, pode descrever o que é enfrentar um tigre. Porque tem a experiência.
Não. Você não vê? Para escrever de maneira convincente sobre o tigre ele teria que voltar à sua biblioteca. Consultar os seus volumes. Os zoólogos e os caçadores. Os simbolistas. As enciclopédias. Tudo que já foi escrito sobre o tigre. As comparações do seu focinho com a frente de um Packard ou com um dos disfarces do Diabo. E isso ele não pode fazer.
Por que não?
Porque tem um tigre na sua biblioteca!
Luís Fernando Veríssimo, in Banquete com os deuses

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