segunda-feira, 30 de março de 2020

A servidão

Os dias estavam repletos de novas experiências para Caninos Brancos. Enquanto Kiche continuava atada pela vara, ele corria por todo o acampamento, inquirindo, investigando, aprendendo. Rapidamente ficou sabendo muito sobre os hábitos dos animais-homens, mas a familiaridade não gerou desprezo. Quanto mais aprendia sobre eles, mais eles demonstravam a sua superioridade, mais revelavam seus poderes misteriosos, mais gigantesca avultava a sua semelhança com deuses.
Ao homem foi concedida a dor frequente de ver os seus deuses derrubados e os seus altares desmoronados; mas ao lobo e ao cão selvagem que vieram se deitar aos pés dos homens, essa dor nunca chegou. Ao contrário do homem, cujos deuses são feitos de vapores e névoas invisíveis e conjeturados da fantasia que evita a veste da realidade, espectros errantes de bondade e poder almejados, afloramentos intangíveis do ser no reino do espírito – ao contrário do homem, o lobo e o cão selvagem que se aproximaram do fogo encontram os seus deuses em carne e osso, sólidos ao tato, ocupando o espaço da terra e exigindo tempo para realizar os seus fins e a sua existência. Não é necessário nenhum esforço de fé para acreditar num deus desse tipo; nenhum esforço de vontade consegue induzir a descrença num desses deuses. Não há como afastar-se de tal deus. Ele ali está, sobre as duas patas traseiras, um macete na mão, imensamente potente, apaixonado, irado e amante, deus e mistério e poder, tudo envolto pela carne que sangra quando rasgada, e que é boa de comer como qualquer outra carne.
E o mesmo acontecia com Caninos Brancos. Os animais-homens eram deuses inequívocos e inescapáveis. Assim como a mãe Kiche lhes demonstrara lealdade ao primeiro grito de seu nome, ele estava começando a demonstrar a sua lealdade. Ele lhes dava a dianteira como um privilégio indubitavelmente seu. Quando caminhavam, saía do caminho. Quando chamavam, acudia. Quando ameaçavam, encolhia-se. Quando o mandavam embora, afastava-se depressa. Pois atrás de qualquer desejo dos animais-homens estava o poder de impor esse desejo, um poder que machucava, um poder que se expressava em bofetadas e macetes, em pedras voadoras e chicotadas que ferroavam.
Ele lhes pertencia como todos os cachorros lhes pertenciam. As suas ações estavam à mercê do comando dos deuses. O seu corpo, à mercê de suas pancadas, pisoteios, indulgência. Essa era a lição que lhe foi rapidamente incutida. Uma lição dura, que na realidade ia contra muita coisa que era forte e dominante na sua natureza; e, apesar de não gostar dela enquanto a aprendia, sem o saber ele estava aprendendo a apreciá-la. Era colocar o seu destino nas mãos de outro, uma troca das responsabilidades da existência. Isso era em si mesmo uma compensação, pois é sempre mais fácil encostar-se num outro que manter-se sozinho.
Mas tudo não aconteceu num único dia, esta entrega de si mesmo, corpo e alma, aos animais-homens. Ele não podia renunciar imediatamente à sua herança selvagem e às suas lembranças da Floresta. Havia dias em que andava furtivamente até a orla da floresta, ali ficava e escutava algo que o chamava de muito longe. E sempre retornava, inquieto e incomodado, para choramingar suave e melancolicamente ao lado de Kiche, e para lamber a face da mãe com uma língua ansiosa e inquiridora.
Caninos Brancos aprendia rapidamente os hábitos do acampamento. Conheceu a injustiça e ganância dos cachorros mais velhos, quando lhes eram jogados carne ou peixe na hora da ração. Veio a saber que os homens eram mais justos, as crianças mais cruéis, e as mulheres mais bondosas e mais inclinadas a lhe atirar um pedaço de carne ou osso. E depois de duas ou três aventuras dolorosas com as mães de outros filhotes parcialmente crescidos, ele aprendeu que era sempre uma boa política deixar essas mães em paz, manter-se o mais afastado possível de todas, e evitá-las quando as via se aproximar.
Mas a maldição da sua vida era Lip-lip. Maior, mais velho e mais forte, Lip-lip tinha escolhido Caninos Brancos para seu objeto especial de perseguição. Caninos Brancos lutava com bastante vontade, mas era sobrepujado. O seu inimigo era demasiado grande. Lip-lip tornou-se um pesadelo. Sempre que Caninos Brancos se aventurava a sair de perto da mãe, era certo que o valentão aparecia, correndo no seu encalço, rosnando, atormentando-o, atento a qualquer oportunidade, quando nenhum animal-homem estava por perto, para pular em cima do lobinho e forçar uma briga. Como invariavelmente vencia, Lip-lip gostava imensamente dessas brigas. Tornaram-se o seu principal prazer na vida, assim como se tornaram o principal tormento de Caninos Brancos.
Mas isso não teve o efeito de acovardar Caninos Brancos. Embora sofresse a maior parte dos danos e fosse sempre derrotado, o seu espírito continuava indomável. Entretanto, as lutas produziram um efeito ruim. Caninos Brancos tornou-se malévolo e soturno. Seu temperamento era selvagem de nascença, mas tornou-se ainda mais com essa perseguição interminável. Seu lado alegre e brincalhão de filhote encontrava pouca expressão. Nunca brincava, nem dava cabriolas com os outros filhotes do acampamento. Lip-lip não permitia. Assim que o filhote de lobo aparecia perto deles, Lip-lip saltava sobre Caninos Brancos, maltratando-o e humilhando-o, ou lutando até afastá-lo.
O efeito de tudo isso foi privar Caninos Brancos de grande parte da sua vida de filhote e dotá-lo de um comportamento mais maduro que o da sua idade. Negada a expressão de suas energias por meio das brincadeiras, ele se encolhia dentro de si e desenvolvia os seus processos mentais. Tornou-se astucioso; tinha tempo ocioso para se dedicar às trapaças. Impedido de obter a sua porção de carne e peixe quando a ração geral era dada aos cachorros do acampamento, tornou-se um ladrão inteligente. Tinha de saquear por si mesmo, e ele saqueava bem, embora por isso fosse muitas vezes uma praga para as índias. Aprendeu a mover-se sorrateiramente pelo acampamento, a ser astuto, a saber o que estava acontecendo em toda parte, a ver e ouvir tudo e raciocinar de acordo com essas informações, e a inventar com sucesso meios e maneiras de evitar o seu implacável perseguidor.
Foi nos primeiros dias da perseguição que ele armou seu primeiro grande lance realmente astuto naquele jogo e teve o primeiro gosto de vingança. Assim como Kiche, na companhia dos lobos, tinha atraído os cachorros para a destruição afastando-os dos acampamentos dos homens, Caninos Brancos, de maneira bastante semelhante, atraiu Lip-lip para as mandíbulas vingativas de Kiche. Recuando diante de Lip-lip, Caninos Brancos começou uma fuga indireta, entrando numa tenda, saindo de outra e contornando as várias tendas do acampamento. Era um bom corredor, mais rápido do que qualquer outro filhote do seu tamanho, e mais rápido do que Lip-lip. Mas ele não chegava ao máximo da sua velocidade nessa perseguição. Mantinha um ritmo constante, um pulo à frente de seu perseguidor.
Lip-lip, excitado pela perseguição e pela proximidade constante de sua vítima, esqueceu a cautela e o local. Quando se lembrou do local, era tarde demais. Arremessando-se a toda velocidade ao redor de uma tenda, investiu contra Kiche, deitada na ponta da sua vara. Deu um ganido de consternação, enquanto as mandíbulas punitivas dela se fechavam sobre ele. Ela estava amarrada, mas ele não conseguiu livrar-se facilmente. Ela o virou de patas para o ar, impedindo-o de correr, enquanto o rasgava e mordia com as presas.
Quando conseguiu por fim rolar e livrar-se da loba, Lip-lip aprumou-se com dificuldade, todo desgrenhado, ferido tanto no corpo como no espírito. O pelo era todo tufos salientes nos lugares que os dentes de Kiche tinham estropiado. O brigão ficou parado no lugar em que tinha se levantado, abriu a boca e irrompeu num longo e angustiado gemido de filhote. Mas até isso não lhe foi permitido completar. No meio do gemido, Caninos Brancos, vindo na corrida, afundou os dentes na pata traseira de Lip-lip. Não havia mais nenhum instinto de luta em Lip-lip, e ele fugiu desavergonhadamente, com a vítima no seu encalço, atormentando-o durante todo o caminho até a tenda. Ali as índias o socorreram, e Caninos Brancos, transformado num demônio enfurecido, só foi finalmente afastado por uma fuzilada de pedras.
Veio o dia em que Castor Cinza, determinando que já não havia mais perigo de fuga, libertou Kiche. Caninos Brancos ficou maravilhado com a liberdade da mãe. Ele a acompanhava alegremente pelo acampamento e, enquanto permanecia perto da mãe, Lip-lip mantinha uma distância respeitosa. Caninos Brancos chegava a eriçar o pelo e caminhar de pernas enrijecidas, mas Lip-lip ignorava o desafio. Ele não era tolo, e qualquer que fosse a vingança que desejava, podia esperar até pegar Caninos Brancos sozinho.
Mais tarde naquele dia, Kiche e Caninos Brancos afastaram-se até a entrada do mato perto do acampamento. Ele conduzira a mãe até aquele ponto, passo a passo, e então, cada vez que parava, tentava atraí-la para mais longe. A corrente, a toca e a quietude dos matos o chamavam, e ele queria que ela viesse. Correu alguns passos adiante, parou e olhou para trás. Ela não se movera. Ele choramingou suplicante e correu brincalhão para dentro e para fora do matagal. Voltou correndo para a mãe, lambeu a sua face e tornou a correr para diante. Mesmo assim, ela não se movia. Ele parou e considerou-a, todo envolto numa atenção e ansiedade fisicamente manifestas que lentamente desapareceram, quando ela virou a cabeça e fitou o acampamento.
Algo o chamava na floresta. A mãe também escutava esse apelo. Mas ela escutava igualmente aquele outro chamado mais forte, o chamado do fogo e do homem – o chamado que, dentre todos os animais, foi dado apenas ao lobo responder, ao lobo e ao cachorro selvagem, que são irmãos.
Kiche virou-se e caminhou lentamente de volta para o acampamento. Mais forte do que a restrição física da vara era o poder que o acampamento exercia sobre ela. Invisíveis e ocultos, os deuses ainda a prendiam com o seu poder e não a deixavam partir. Caninos Brancos sentou-se à sombra de uma bétula e choramingou suavemente. Havia um forte cheiro de pinho, e as fragrâncias sutis da mata enchiam o ar, lembrando-lhe a antiga vida de liberdade antes dos dias de cativeiro. Mas ele ainda era um filhote parcialmente crescido, e mais forte do que o chamado do homem ou da Floresta era o chamado da mãe. Em todas as horas da sua curta vida, ele dependera da mãe. Ainda não chegara o tempo da independência. Assim ele se levantou e voltou infeliz para o acampamento, parando uma ou duas vezes para sentar, choramingar e escutar o chamado que ainda soava nas profundezas da floresta.
Na Floresta, o tempo da mãe com seu filhote é curto, mas, sob o domínio do homem, às vezes é até mais curto. Foi o que aconteceu a Caninos Brancos. Castor Cinza estava em dívida com Três Águias. Três Águias estava de partida, ia subir o Mackenzie até o Lago do Grande Escravo. Uma tira de tecido escarlate, uma pele de urso, vinte cartuchos e Kiche saldaram a dívida. Caninos Brancos viu a mãe ser levada a bordo da canoa de Três Águias, e tentou segui-la. Um golpe de Três Águias o atirou de volta para a terra. A canoa partiu. Ele pulou na água e nadou na direção da canoa, surdo aos gritos agudos de Castor Cinza para que retornasse. Até um animal-homem, um deus, Caninos Brancos ignorou, tal era o seu terror de perder a mãe.
Mas os deuses estão acostumados a serem obedecidos, e Castor Cinza lançou irado uma canoa na sua perseguição. Quando alcançou Caninos Brancos, estendeu o braço e, agarrando-o pela nuca, puxou-o para fora da água. Não o depositou logo no fundo da canoa. Segurando-o suspenso com uma das mãos, com a outra começou a bater no lobinho. E foi uma surra e tanto. A sua mão era pesada. Toda pancada era para machucar, e ele desferiu uma série de golpes.
Impelido pelos golpes que choviam sobre ele, ora de um lado, ora de outro, Caninos Brancos balançava de um lado para o outro como um pêndulo errático e espasmódico. Variáveis eram as emoções que se elevavam dentro dele. Primeiro, ficara surpreso. Depois surgiu um medo momentâneo, quando ganiu várias vezes com o impacto da mão. Mas isso foi logo seguido pela raiva. A sua natureza livre afirmou-se, e ele mostrou os dentes e rosnou destemidamente diante do deus irado. Isso só serviu para tornar o deus ainda mais irado. Os golpes caíam mais rápidos, mais pesados, mais para machucar.
Castor Cinza continuou a bater, Caninos Brancos continuou a rosnar. Mas isso não podia durar para sempre. Um ou outro devia ceder, e esse alguém foi Caninos Brancos. O medo cresceu mais uma vez dentro dele. Pela primeira vez estava realmente sendo dominado pela mão do homem. Os golpes ocasionais de paus e pedras antes experimentados eram carícias em comparação a isso. Ele sucumbiu e começou a gritar e ganir. Por algum tempo, cada golpe lhe arrancava novo ganido, mas o medo transformou-se em terror, até que finalmente os ganidos eram emitidos numa sucessão ininterrupta, sem conexão com o ritmo do castigo.
Por fim, Castor Cinza deteve a mão. Caninos Brancos, molemente dependurado, continuava a gritar. Isso pareceu satisfazer o dono, que o atirou rudemente para o fundo da canoa. Nesse meio tempo, a canoa descera a corrente à deriva. Castor Cinza pegou o remo. Caninos Brancos estava no seu caminho. O índio o empurrou selvagemente com o pé. Nesse momento, a natureza livre de Caninos Brancos teve novo lampejo, e ele afundou os dentes no pé coberto pelo mocassim.
A surra que acontecera antes não foi nada comparada com a surra que então recebeu. A ira de Castor Cinza era terrível, e igualmente terrível o pânico de Caninos Brancos. Não só a mão, mas também o remo duro de madeira foi usado sobre o lobinho; e todo o seu pequeno corpo estava ferido e machucado, quando foi novamente atirado para o fundo da canoa. De novo, e desta vez de propósito, Castor Cinza o chutou. Caninos Brancos não repetiu o ataque ao pé. Tinha aprendido outra lição do cativeiro. Nunca, não importa qual fosse a circunstância, devia ousar morder o deus que era seu senhor e dono; o corpo do senhor e dono era sagrado, não devia ser profanado pelos dentes de alguém como ele. Isso era evidentemente o crime dos crimes, a única ofensa para a qual não havia perdão, nem tolerância.
Quando a canoa tocou na margem, Caninos Brancos continuou deitado, imóvel e choramingando, à espera da vontade de Castor Cinza. Era vontade de Castor Cinza que ele fosse para a terra, pois foi atirado para a margem, caindo pesadamente sobre o lado e machucando de novo as feridas. Levantou-se tremendo e continuou a choramingar. Lip-lip, que observara todo o procedimento da margem, precipitou-se sobre ele, derrubando-o e afundando os dentes na sua carne. Caninos Brancos estava fraco demais para se defender, e as coisas teriam se tornado feias para ele, se o pé de Castor Cinza não tivesse disparado, levantando Lip-lip no ar com a sua violência, de modo que ele se esborrachou no chão a uns quatro metros de distância. Essa era a justiça do animal-homem; e mesmo então, no seu estado lamentável, Caninos Brancos sentiu uma pequena ponta de gratidão. No encalço de Castor Cinza, mancou obedientemente pela vila até a tenda. E assim Caninos Brancos veio a aprender que o direito de castigar era algo que os deuses reservavam para si e negavam às criaturas inferiores.
Naquela noite, quando tudo estava quieto, Caninos Brancos lembrou-se da mãe e chorou com a sua ausência. O seu lamento foi demasiado barulhento e acordou Castor Cinza, que bateu no filhote. Depois disso, ele passou a lamentar-se suavemente, quando os deuses estavam por perto. Mas às vezes, errando sozinho até a beirada da mata, ele dava vazão à sua dor e abria o berro com longos choros e gemidos.
Foi durante esse período que ele poderia ter escutado as lembranças da toca e da corrente, voltando a correr para a Floresta. Mas a lembrança da mãe o prendia. Assim como os animais-homens caçadores partiam e voltavam, ela voltaria para a vila um dia. Por isso, ele continuou no seu cativeiro esperando a mãe.
Mas não foi um cativeiro inteiramente infeliz. Havia muito a interessá-lo. Algo estava sempre acontecendo. Não havia fim para as coisas estranhas que os deuses faziam, e ele estava sempre curioso para ver. Além disso, estava aprendendo a se dar com Castor Cinza. Obediência, uma obediência rígida e constante, era o que dele se esperava; em troca, escapava das surras e a sua existência era tolerada.
O próprio Castor Cinza às vezes até lhe atirava um pedaço de carne e o defendia dos outros cachorros que também queriam o festim. E esse pedaço de carne tinha valor. De um modo estranho, era mais valioso que uma dúzia de pedaços de carne atirados pela mão de uma índia. Castor Cinza nunca mimava, nem acariciava. Talvez tenha sido o peso da sua mão, talvez a sua justiça, talvez a sua força pura, talvez tenha sido tudo isso que influenciou Caninos Brancos; pois uma certa ligação estava se formando entre ele e seu rude senhor.
Insidiosamente, e de modos remotos, bem como pelo poder da maça, da pedra e da bofetada, os grilhões estavam sendo assentados sobre Caninos Brancos. As qualidades da sua espécie, que no início tornaram possível que os lobos se aproximassem das fogueiras dos homens, eram qualidades capazes de serem desenvolvidas. Estavam se expandindo dentro do seu ser, e a vida no acampamento, ainda que repleta de desgraças, começava a se tornar secretamente cara para ele. Mas Caninos Brancos disso não tinha consciência. Sabia apenas da dor pela perda de Kiche, da esperança de seu retorno, e de um desejo faminto pela vida livre que fora sua.
Jack London, in Caninos Brancos

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