28/08/2019

Federico...


Federico Fellini se divertia com o espanto do seu produtor.
— Você está brincando comigo, Federico.
— Não, não. É verdade.
— Não acredito.
— Mas é verdade. Meu próximo filme terá dois personagens. No máximo três.
— Eu estou sonhando.
— E só um cenário.
— Já sei. O Coliseu, todo pintado de rosa.
— Não. Um apartamento.
— Um apartamento enorme...
— Um apartamento de tamanho médio. De classe média. Decoração normal.
— Me belisca. Eu estou sonhando.
— Você não está sonhando.
— Já sei. Já vi tudo. Os personagens sonham. Sonhos espetaculares. Manadas de elefantes fosforescentes passeando pelas ruas da Babilônia.
— Não. Nenhum sonho. Apenas os dois personagens, acordados, dentro de um apartamento comum.
— Só isso?
— Só.
— Você não quer que eu mande construir um navio em tamanho natural?
— Não.
— Você não quer que eu encontre uma mulher com três metros de altura?
— Não.
— Dezessete anões com chifres?
— Não.
— Um hermafrodita albino?
— Pra que toda essa gente? Eles só encheriam o apartamento.
— E esses personagens, que tamanho têm?
— São pessoas comuns, de tamanho normal. Um homem e uma mulher. Talvez uma empregada, para servir o chá.
— Tamanho normal também?
— Normalíssimo.
— Federico! Olhe aí, eu estou até arrepiado. É tudo com que eu sempre sonhei! Uma história intimista. Uma produção sem problemas. Principalmente um orçamento baixo. Até que enfim!
— Que bom que você gostou.
— Tem certeza de que você não vai querer nem um elefante?
— Nem um gato.
— Deus seja louvado.
— Bem, talvez um gato.
— Certo.
— Caolho.
— Um gato caolho. Não tem problema.
— Dez gatos caolhos.
— Dez?
— Oitocentos.
— Federico...
— Isso. Oitocentos gatos caolhos. Mil. Os gatos estão por todo o apartamento. O casal não consegue sentar ou dormir por causa dos gatos. Os gatos comem a empregada. Os gatos ocupam todo o prédio. Toda a cidade! É isso! A cidade está tomada por gatos caolhos. Milhões de gatos caolhos. Anote aí: um milhão de gatos caolhos. Só o casal ainda não foi comido pelos gatos, porque...
— Federico…
Luís Fernando Veríssimo, in Banquete com os deuses

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