Temos
de começar pela bibliografia: Journal (1943-1945), de Julien
Green; e A Volta do Gato Preto, de Érico Veríssimo.
É
que os dois contam, cruzadamente, uma passagem, um caso que se deu, a
4 de agosto de 1944, no Mills College, Oakland, Califórnia, Estados
Unidos. Emparelhá-los seria já de si curioso, texto e texto. Mas o
próprio caso, em si, paga; veja-se que vale a pena.
Veríssimo
é imparcial, jovial, sem rugosidades, entre distâncias.
Aliteradamente, é um riacho: lúcido, lépido, límpido. E bom
contrarregra. Tenham como traz os personagens. Diz:
De
Julien Green: “... é um homem de estatura meã, construção
sólida, tez dum moreno claro, cabelos e olhos escuros e um nariz
gaulês, longo e fino. É retraído e tímido, dessa timidez que à
primeira vista pode parecer empáfia. Só depois duma apresentação
formal, durante a qual ele tirou da cabeça o panamá creme, é que
passou a me cumprimentar, mas sempre cerimoniosamente.”
E
de Carrera-Andrade: “Alto, corpulento, monumental, com seu bigode
aparado, seus olhos de índio... Temos feito longos passeios pelo
parque, a conversar sobre homens e livros, viagens e ideias. Ao cabo
de dois dias começamos a divergir em quase todos os assuntos que
atacamos.”
Mas,
do que Veríssimo desdobra, entende-se também um Carrera-Andrade rei
no intolerar, exorbitante:
“...
Um dia, ao cabo de uma dissertação que lhe fiz relativamente à
minha atitude diante do mundo, concluiu:
“— Mas
você não é um escritor latino.
“— Por
quê? “— É um homem frio, metódico, insensível.
“— Insensível?
Frio? Essa é boa...
“— Eu
o tenho observado todos estes dias, tenho acompanhado as suas reações
às coisas que lhe dizem, às pessoas que o cercam.”
Veríssimo
sorri e desvê de mais explicar-se.
Mas
Carrera-Andrade — que usa palmadas na coxa e outros jactos de
impaciência — declara amor ao “povo”, tem pendores para isso.
Sua má-vontade para com os norte-americanos se acende sempre. Assim:
“— Que
se pode dizer dum país onde nem criados existem!
“— Mas,
meu caro poeta — observo —, você não me disse que era
socialista?
“— Pues
si, amigo... Pero eso es diferente. Siempre habrá señores y
esclavos.”
Dando
a um o dado ao outro, compara-se agora. Green, no 3-V-43 de seu
diário:
“Há
os que deixam de repente de crer em Deus. Quanto a mim, noto que
deixo, pouco a pouco, de crer na humanidade. Por muito tempo, ela se
me impôs, com seus discursos, suas leis, seus livros, mas começo a
vê-la sob o verdadeiro aspecto, que é triste, porque é uma velha
louca, cujas crises de ferocidade alternam com sorrisos.”
Carrera-Andrade
faz belos versos, será “um dos mais interessantes poetas modernos
da América espanhola”. A pessoa de um homem é uma catarata de
surpresas.
E
Green, que convive com a Bíblia e compulsa o dicionário hebraico,
ignora a existência de Carrera-Andrade, mas sabe que o Demônio
existe. Green é um místico irresoluto. Passeia por si mesmo, como
em claustro circular, plataforma para o invisível. Glosa a danação
e a graça, o problema do mal, o destino, o pecado, o jogo entre Deus
e o homem.
Mas,
volta a falar Veríssimo, e a cena principia:
“...
Acha Carrera-Andrade que Julien Green habita numa torre de marfim,
alheio aos conflitos e inquietações sociais do momento.
“— E
se promovêssemos um encontro..., por exemplo, um almoço com Green,
para submetê-lo a uma sabatina? — pergunta-me ele.”
Arma-se
o almoço. Julien Green vem sentar-se à mesa dos sul-americanos, sem
suspeitar da cilada que lhe puseram. Veríssimo vai contando:
“...
Finalmente Carrera-Andrade aproveita uma deixa e entra no assunto:
“— Mr.
Green, não encontramos nos seus romances nenhuma inquietação
relativa aos fenômenos sociais do nosso tempo. Não há neles nem
mesmo menção desses problemas...
“Green
fita no interlocutor seus olhos sombrios. O poeta continua:
“— Talvez
tenha sido para evitar essa dificuldade que o senhor situou a ação
de Adrienne Mesurat antes das duas Guerras...
“Todos
nós esperamos a resposta com interesse. Uma expressão quase de
agonia passa pela fisionomia de Julien Green. Ele olha para os lados,
como a pedir socorro. Finalmente tartamudeia:
“— Problemas
sociais? Como poderei escrever a respeito deles... se não os
conheço? Só posso escrever sobre minha experiência humana... Essas
questões sociais estão fora da minha experiência... Não é que eu
não me interesse... Acontece que me sinto verdadeiramente perdido
neste mundo.
“Carrera
vai insistir. Isso me parece crueldade, crueldade de toureiro que,
depois de farpear um touro, de vê-lo sangrando, exausto, quer ainda
ir até o golpe final de espada.”
(Veríssimo
é amigo de Thornton Wilder; leu o de Michael Gould, sabe que as
paixões vivem de equívocos; opina:)
“Penso
que um escritor da importância de Green merece não apenas
admiração, mas também respeito. É, sem a menor dúvida, um
romancista sério. Não falará a nossa língua, o que não quer
absolutamente dizer que seja mudo. Não pertence ao nosso mundo, o
que não quer dizer que deva ser votado ao inferno. Por outro lado
parece-me que seus livros serão lembrados muitos anos depois que a
obra de alguns dos escritores modernos de propaganda tenha sido
completamente esquecida.
“Carrera-Andrade
continua a atirar suas farpas. Acho melhor desviar a conversa do
assunto. Vê-se claramente que Julien Green está infeliz.”
Mas
— atenção — agora, à versão de Green no Journal:
“Ontem,
na Casa Pan-americana, almocei em companhia de vários
sul-americanos, um dos quais muito inteligente e os outros menos.
Veríssimo, homem de grande modéstia apesar de seu sucesso, falou-me
de meus livros. Ele é moço, com uma fisionomia agradável. À minha
direita, uma espécie de bebê de bigodes pergunta-me, com voz em que
já vibra a cólera, por que não escrevo romances ‘sociológicos’.
Esse senhor sustenta, com efeito, que os romances devem servir para
alguma coisa, que não são mais admissíveis as obras de arte que
não sirvam para nada, e que seria ‘um real perigo haver escritores
demais como Julien Green’. Digo-lhe então que esse perigo não é
real, não é grande, e os outros todos começam a rir.”
E,
pois, públicos aplausos: Não se diga que nosso patrício não se
saiu excelentemente.
Guimarães
Rosa, in Ave, palavra
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