sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Teatrinho

Temos de começar pela bibliografia: Journal (1943-1945), de Julien Green; e A Volta do Gato Preto, de Érico Veríssimo.
É que os dois contam, cruzadamente, uma passagem, um caso que se deu, a 4 de agosto de 1944, no Mills College, Oakland, Califórnia, Estados Unidos. Emparelhá-los seria já de si curioso, texto e texto. Mas o próprio caso, em si, paga; veja-se que vale a pena.
Veríssimo é imparcial, jovial, sem rugosidades, entre distâncias. Aliteradamente, é um riacho: lúcido, lépido, límpido. E bom contrarregra. Tenham como traz os personagens. Diz:
De Julien Green: “... é um homem de estatura meã, construção sólida, tez dum moreno claro, cabelos e olhos escuros e um nariz gaulês, longo e fino. É retraído e tímido, dessa timidez que à primeira vista pode parecer empáfia. Só depois duma apresentação formal, durante a qual ele tirou da cabeça o panamá creme, é que passou a me cumprimentar, mas sempre cerimoniosamente.”
E de Carrera-Andrade: “Alto, corpulento, monumental, com seu bigode aparado, seus olhos de índio... Temos feito longos passeios pelo parque, a conversar sobre homens e livros, viagens e ideias. Ao cabo de dois dias começamos a divergir em quase todos os assuntos que atacamos.”
Mas, do que Veríssimo desdobra, entende-se também um Carrera-Andrade rei no intolerar, exorbitante:
... Um dia, ao cabo de uma dissertação que lhe fiz relativamente à minha atitude diante do mundo, concluiu:
“— Mas você não é um escritor latino.
“— Por quê? “— É um homem frio, metódico, insensível.
“— Insensível? Frio? Essa é boa...
“— Eu o tenho observado todos estes dias, tenho acompanhado as suas reações às coisas que lhe dizem, às pessoas que o cercam.”
Veríssimo sorri e desvê de mais explicar-se.
Mas Carrera-Andrade — que usa palmadas na coxa e outros jactos de impaciência — declara amor ao “povo”, tem pendores para isso. Sua má-vontade para com os norte-americanos se acende sempre. Assim:
“— Que se pode dizer dum país onde nem criados existem!
“— Mas, meu caro poeta — observo —, você não me disse que era socialista?
“— Pues si, amigo... Pero eso es diferente. Siempre habrá señores y esclavos.”
Dando a um o dado ao outro, compara-se agora. Green, no 3-V-43 de seu diário:
Há os que deixam de repente de crer em Deus. Quanto a mim, noto que deixo, pouco a pouco, de crer na humanidade. Por muito tempo, ela se me impôs, com seus discursos, suas leis, seus livros, mas começo a vê-la sob o verdadeiro aspecto, que é triste, porque é uma velha louca, cujas crises de ferocidade alternam com sorrisos.”
Carrera-Andrade faz belos versos, será “um dos mais interessantes poetas modernos da América espanhola”. A pessoa de um homem é uma catarata de surpresas.
E Green, que convive com a Bíblia e compulsa o dicionário hebraico, ignora a existência de Carrera-Andrade, mas sabe que o Demônio existe. Green é um místico irresoluto. Passeia por si mesmo, como em claustro circular, plataforma para o invisível. Glosa a danação e a graça, o problema do mal, o destino, o pecado, o jogo entre Deus e o homem.
Mas, volta a falar Veríssimo, e a cena principia:
... Acha Carrera-Andrade que Julien Green habita numa torre de marfim, alheio aos conflitos e inquietações sociais do momento.
“— E se promovêssemos um encontro..., por exemplo, um almoço com Green, para submetê-lo a uma sabatina? — pergunta-me ele.”
Arma-se o almoço. Julien Green vem sentar-se à mesa dos sul-americanos, sem suspeitar da cilada que lhe puseram. Veríssimo vai contando:
... Finalmente Carrera-Andrade aproveita uma deixa e entra no assunto:
“— Mr. Green, não encontramos nos seus romances nenhuma inquietação relativa aos fenômenos sociais do nosso tempo. Não há neles nem mesmo menção desses problemas...
Green fita no interlocutor seus olhos sombrios. O poeta continua:
“— Talvez tenha sido para evitar essa dificuldade que o senhor situou a ação de Adrienne Mesurat antes das duas Guerras...
Todos nós esperamos a resposta com interesse. Uma expressão quase de agonia passa pela fisionomia de Julien Green. Ele olha para os lados, como a pedir socorro. Finalmente tartamudeia:
“— Problemas sociais? Como poderei escrever a respeito deles... se não os conheço? Só posso escrever sobre minha experiência humana... Essas questões sociais estão fora da minha experiência... Não é que eu não me interesse... Acontece que me sinto verdadeiramente perdido neste mundo.
Carrera vai insistir. Isso me parece crueldade, crueldade de toureiro que, depois de farpear um touro, de vê-lo sangrando, exausto, quer ainda ir até o golpe final de espada.”
(Veríssimo é amigo de Thornton Wilder; leu o de Michael Gould, sabe que as paixões vivem de equívocos; opina:)
Penso que um escritor da importância de Green merece não apenas admiração, mas também respeito. É, sem a menor dúvida, um romancista sério. Não falará a nossa língua, o que não quer absolutamente dizer que seja mudo. Não pertence ao nosso mundo, o que não quer dizer que deva ser votado ao inferno. Por outro lado parece-me que seus livros serão lembrados muitos anos depois que a obra de alguns dos escritores modernos de propaganda tenha sido completamente esquecida.
Carrera-Andrade continua a atirar suas farpas. Acho melhor desviar a conversa do assunto. Vê-se claramente que Julien Green está infeliz.”
Mas — atenção — agora, à versão de Green no Journal:
Ontem, na Casa Pan-americana, almocei em companhia de vários sul-americanos, um dos quais muito inteligente e os outros menos. Veríssimo, homem de grande modéstia apesar de seu sucesso, falou-me de meus livros. Ele é moço, com uma fisionomia agradável. À minha direita, uma espécie de bebê de bigodes pergunta-me, com voz em que já vibra a cólera, por que não escrevo romances ‘sociológicos’. Esse senhor sustenta, com efeito, que os romances devem servir para alguma coisa, que não são mais admissíveis as obras de arte que não sirvam para nada, e que seria ‘um real perigo haver escritores demais como Julien Green’. Digo-lhe então que esse perigo não é real, não é grande, e os outros todos começam a rir.”
E, pois, públicos aplausos: Não se diga que nosso patrício não se saiu excelentemente.
Guimarães Rosa, in Ave, palavra

Nenhum comentário:

Postar um comentário