Um
título para o novo livro. Fiquei sentado no hipódromo tentando
pensar em um. Este é um lugar onde se pode pensar. Suga seu cérebro
e seu espírito. É um chupar de pau até esgotar, é isso que aquele
lugar é. E não tenho dormido bem à noite. Alguma coisa está
roubando a minha energia.
Vi
o solitário hoje no hipódromo. “Como vai, Charles?” “Tudo
bem”, disse pra ele e me afastei. Ele quer camaradagem. Quer falar
sobre coisas. Cavalos. Você não fala sobre cavalos. É a ÚLTIMA
coisa sobre a qual você fala. Alguns páreos já passaram e o
flagrei me olhando por cima da máquina de apostas automáticas.
Coitado. Fui pra fora, me sentei e um guarda começou a falar comigo.
Bom, são chamados de seguranças. “Estão mudando o placar”,
disse ele. “É”, respondi. Tinham tirado a coisa do chão e a
estavam mudando mais para o oeste. Bom, tinham feito gente trabalhar.
Eu gostava de ver homens trabalhando. Achei que o segurança estava
falando comigo para descobrir se eu era louco ou não. Provavelmente,
não era por isso. Mas fiquei com essa ideia. Deixo que as ideias
saltem de mim assim. Cocei minha barriga e fingi ser um cara velho e
legal. “Vão voltar a encher os lagos”, eu disse. “É”, ele
disse. “Este lugar costumava se chamar o Hipódromo dos Lagos e das
Flores.” “É mesmo?”, disse ele. “É”, contei a ele, “havia
um concurso da Garota Ganso. Escolhiam uma garota ganso e ela saía
de barco, remando entre os gansos. Uma tarefa bem chata.” “É”,
disse o guarda. Ele ficou lá parado. Me levantei. “Bom”, eu
disse, “vou pegar um café. Não se canse.” “Claro”, disse
ele, “boa sorte.” “Pra você também, cara”, disse eu. Daí,
me afastei.
Um
título. Minha cabeça estava vazia. Estava ficando frio. Sendo
macaco velho, achei melhor pegar meu casaco. Desci pela escada
rolante do 4 o andar. Quem inventou a escada rolante? Degraus que se
movem. E depois falam de loucura. Pessoas subindo e descendo em
escadas rolantes, elevadores, dirigindo carros, tendo portas de
garagem que se abrem ao tocar de um botão. Depois elas vão para as
academias queimar a gordura. Daqui a 4.000 anos, não teremos pernas,
nos arrastaremos sobre nossas bundas, ou talvez só rolemos como
tumbleweeds. Cada espécie destrói a si mesma. O que matou os
dinossauros foi que eles comeram tudo à sua volta e depois tiveram
que comer uns aos outros e com isso só restou um e o filho da puta
morreu de fome.
Desci
até o meu carro, peguei o casaco, vesti-o e subi as escadas rolantes
de volta. Isso me fez sentir mais como um playboy, um gigolô –
saindo do lugar e depois voltando. Me senti como se tivesse
consultado alguma fonte secreta especial. Bem, fiz as apostas, tive
alguma sorte. Lá pelo 13 o páreo, ficou escuro e começou a chover.
Apostei dez minutos antes e fui embora. O trânsito apavora os
motoristas de L.A. Entrei na freeway atrás de um mar de lanternas
vermelhas. Não liguei o rádio. Queria silêncio. Um título me
passou pela cabeça: Bíblia para os desencantados. Não, não
é bom. Lembrei de alguns dos melhores títulos. Quero dizer, de
outros escritores. Curve-se à madeira e às pedras. Grande
título, péssimo escritor. Notas do underground. Grande
título. Grande escritor. Também, O coração é um caçador
solitário. Carson McCullers, um escritor muito subestimado. De
todas as minhas dezenas de títulos, o que mais gostei foi
Confissões de um homem insano o suficiente para viver com bestas.
Mas gastei esse em um pequeno panfleto mimeografado. Azar.
Então,
a freeway entupiu e eu fiquei lá, sentado. Nenhum título. Minha
cabeça estava vazia. Tive vontade de dormir por uma semana. Fiquei
contente por ter colocado as latas de lixo na rua. Estava cansado.
Agora não preciso mais fazer isso. Latas de lixo. Uma noite dormi,
bêbado, em cima de latas de lixo. New York City. Fui acordado por um
enorme rato sentado na minha barriga. Nós dois, de uma só vez,
pulamos quase um metro pra cima. Eu estava tentando ser um escritor.
Hoje, eu deveria ser um e não consegui pensar num título. Eu era
uma fraude. O trânsito começou a se movimentar e fui atrás.
Ninguém sabia o que os outros eram e isso era ótimo. Então, um
grande raio caiu sobre a freeway e, pela primeira vez naquele dia, me
senti muito bem.
Charles
Bukowski, in O capitão saiu para o almoço e os marinheiros
tomaram conta do navio
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