04/05/2018

Trago o mundo pra você


A doidice que deixava ele doido por ela ia aumentando toda hora, todo dia, sendo muito pior no período da tarde. A vida ia indo, um dia atrás do outro, todo dia a mesma coisa, nada no mundo mudava.
Mas pra Antônio tudo mudou ali, exatamente naquele dia, ô dia desgraçado pras coisas desandarem, no exato momento em que ele viu o seu provável destino se recolher à sua frente, como uma passadeira vermelha que se enrolasse de volta, eita agonia miserável.
Foi isso que ele sentiu naquele dia, foi ali que começou o desespero de Antônio, portanto, nunca ia esquecer dos detalhes.
Cheguei cedo pro treino, Karina?”
E ela disse que não ia ter treino aquele dia não, nem treino nem ensaio, nem naquele dia nem nos próximos, que tinha chegado a hora dela pôr em prática e por este motivo ia se embora pro mundo, no que Antônio respondeu: “É o mundo que você quer? Então eu trago ele pra você.”

A certeza com que Antônio disse aquilo provocou em Karina uma tristeza que estava guardada pra mais tarde.
Ela então se botou a maldizer o mundo, usando cada palavra mais difícil que a outra.
Nunca ele imaginou que ela tivesse tamanha sabedoria da língua portuguesa. Ela também não sabia que sabia, e não sabia sequer se estava usando palavras adequadas, mas se fez entender perfeitamente.
E claro que não queria querer ir embora, se pudesse mandar em seu querer, se fosse possível desenhar o mapa do mundo todinho de novo, se pudesse inventar outra geografia, outra sociologia, outra filosofia, outra economia, como Karina falou bonito aquele dia. Falou que toda vez que se enfeitava toda pensava pra que tinha se enfeitado se aquela festa era de mentira e pra que ir a tal festa se as noites em Nordestina nunca vogavam.
Falou ainda que se não quisesse ser pra sempre um arremedo de gente gastando seus arremedos de dias numa vida arremedada, tinha que passar pro outro lado, pois à vera, à vera mesmo, era da risca pra lá, que tudo acontecia de verdade.
Pela primeira vez na vida Antônio botou seu próprio querer na frente do dela e disse, mesmo porque quis dizer, que desse jeito estava se sentindo um pouquinho desprezado.
Ela então justificou-se na hora: “Desprezo é quando a importância da pessoa escapole do pensamento da gente por conta própria, Antônio. Eu tou tangendo tua presença da minha cabeça que é pra facilitar o cabimento de outras coisas.”
Por fim ela falou ainda que ele deixasse de doidice, que mundo não é coisa que se leve nem se traga, além do que, por mais que tudo mudasse, ele e ela iam ser pra sempre Antônio de dona Nazaré e Karina da rua de baixo, e também pra que ser mais que isso se o mundo nunca ia se passar pra chamar eles pelo nome?
Então, chorou.
Chorou até a vontade de chorar secar por completo, deixando no lugar onde estava, bem no meio do peito, um vazio que vagamente incomodava.
Enxugou com as costas das mãos suas metades de lágrimas, abriu suas metades de olhos e viu que metade do vazio do seu peito tinha escapulido pro quarto, cadê Antônio? Se foi. Pra onde? Será que foi pra casa?

Mas é claro que Antônio não conseguiu dormir a noite inteira. Se tivesse dormido teria sonhado, com certeza, sonhos dificilmente contáveis, dada a falta de sentido e o excesso de detalhe, com pessoas tentando transformar lamento em aceno, paradas no meio-fio que se prestava a ampará-las, onde ficavam paradas até depois que o ônibus já tinha partido, sem razão nenhuma aparente pra isso, a não ser o propósito de adiar o daqui a pouco mais um tanto.
Como não dormiu, e por consequência não sonhou, ficou tentando espantar pensamento que doesse além do suportável. Quase todos, à exceção de um único, um só, o primeiro e o derradeiro pensamento que Antônio se deixou pensar naquela noite em que não dormiu, e portanto não sonhou, pra ficar ali pensando somente num jeito de impedir que Karina fosse embora de Nordestina levando com ela seu olhar pelo meio, pra ver o mundo lá, onde o mundo estava.
Adriana Falcão, in A máquina

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