Entra
CREONTE, possuído
de forte irritação
CREONTE
Cidadãos!
Acabo de saber que Édipo formulou contra mim gravíssimas acusações,
que eu não posso admitir! Aqui estou para me defender! Se, no meio
da desgraça que nos aflige, ele supõe que eu o tenha atacado, por
palavras ou atos, não quero permanecer sob o vexame de semelhante
suspeita, pois para mim isso não seria ofensa de somenos valor, mas
sim uma profunda injúria, qual a de ser por vós, e por meus amigos,
considerado um traidor!
CORIFEU
Talvez
essa acusação injuriosa lhe tenha sido ditada pela cólera
momentânea, e não pela reflexão.
CREONTE
Quem
teria insinuado a Édipo que por meu conselho o adivinho proferiu
aquelas mentiras?
CORIFEU
Realmente,
ele assim declarou, mas não sei com que fundamento.
CREONTE
E
foi com olhar sereno e raciocínio seguro que ele ergueu tal
denúncia?
CORIFEU
Não
sei dizer... Não posso penetrar no íntimo dos poderosos; mas...
ei-lo que sai do palácio.
Entra
ÉDIPO,
bruscamente
ÉDIPO
Que
vieste fazer aqui? Tens coragem de vir a minha casa, tu, que
conspiras contra minha vida, e pretendes arrancar-me o poder? Vamos!
Dize-me, pelos deuses! pensas tu, por acaso, que eu seja um covarde,
ou um demente, para conceberes tais projetos? Supunhas que eu nunca
viesse a saber de tuas ações secretas, e que não as punisse logo
que fossem descobertas? Não será intento de um louco pretender, sem
riqueza e sem prosélitos, uma autoridade que somente nos podem dar o
povo e a fortuna?
CREONTE
Sabes
o que importa fazer? Deixa-me responder a tuas palavras de igual para
igual, e só me julgues depois de me teres ouvido!
ÉDIPO
Tu
és hábil em manobrar a palavra; mas eu não me sinto disposto a
ouvir-te, sabendo que tenho em ti um inimigo perigoso.
CREONTE
A
tal respeito, ouve o que te quero dizer.
ÉDIPO
Sim;
ouvirei; mas não insistas em afirmar que não és culpado.
CREONTE
Tu
te enganas, se crês que a teimosia seja uma virtude.
ÉDIPO
E
tu não te iludas pensando que ofenderás a um parente, sem que
recebas o devido castigo.
CREONTE
De
acordo; tens razão nesse ponto; mas dize-me qual foi a ofensa que te
fiz!
ÉDIPO
Foste
tu, ou não, quem me aconselhou a mandar vir esse famoso profeta?
CREONTE Sim; e mantenho minha opinião acerca dele.
ÉDIPO
Há
quanto tempo Laio...
CREONTE
Mas
que fez ele? Não compreendo!...
ÉDIPO
...
Desapareceu, vítima de um assassino?
CREONTE
Já
lá se vão muitos anos!
ÉDIPO
E
já nesse tempo Tirésias exercitava sua ciência?
CREONTE
Sim;
ele já era, então, sábio e respeitado.
ÉDIPO
E,
nessa época, disse ele alguma coisa a meu respeito?
CREONTE
Nunca!
pelo menos em minha presença.
ÉDIPO
E vós não fizestes pesquisas a fim de apurar o crime?
CREONTE
Fizemos,
certamente, mas nada se descobriu.
ÉDIPO
Como
se explica, pois, que esse homem tão hábil, não tivesse dito então
o que diz hoje?
CREONTE
Não
sei; e, quando desconheço uma coisa, prefiro calar-me!
ÉDIPO
Tu
não ignoras, no entanto, e deves em plena consciência confessar...
CREONTE
Que
devo eu confessar? Tudo o que souber, direi!
ÉDIPO
...
Que, se ele não estivesse de conluio contigo, nunca viria dizer que
a morte de Laio foi crime por mim cometido.
CREONTE
Que
ele disse, tu bem sabes. Mas também eu tenho o direito de te dirigir
algumas perguntas.
ÉDIPO
Pois
interroga-me! Tu não me convencerás de que haja sido eu o
assassino.
CREONTE
Ora
vejamos: tu desposaste minha irmã?
ÉDIPO
É
impossível responder negativamente a tal pergunta.
CREONTE
E
reinas tu neste país com ela, que partilha de teu poder supremo?
ÉDIPO
Sim;
e tudo o que ela deseja, eu imediatamente executo.
CREONTE
E
não serei eu igualmente poderoso, quase tanto como vós?
ÉDIPO
Sim;
e por isso mesmo é que pareces ser um pérfido amigo.
CREONTE
Não,
se raciocinares como eu. Examina este primeiro ponto: acreditas que
alguém prefira o trono, com seus encargos e perigos, a uma vida
tranquila, se também desfruta poder idêntico? Por minha parte,
ambiciono menos o título de rei, do que o prestígio real; e como eu
pensam todos quantos saibam limitar suas ambições. Hoje alcanço de
ti tudo quanto desejo: e nada tenho a temer... Se fosse eu o rei,
muita coisa, certamente, faria contra a minha vontade... Como, pois,
iria eu pretender a realeza, em troca de um valimento que não me
causa a menor preocupação? Não me julgo tão insensato que venha a
cobiçar o que não seja para mim, ao mesmo tempo honroso e
proveitoso. Atualmente, todos me saúdam, todos me acolhem com
simpatia; os que algo pretendem de ti, procuram conseguir minha
intercessão; para muitos é graças a meu patrocínio que tudo se
resolve. Como, pois, deixar o que tenho, para pleitear o que dizes?
Tamanha perfídia seria também uma verdadeira tolice! Não me seduz
esse projeto; e, se alguém se propusesse a tentá-lo, eu me oporia à
sua realização. Eis a prova do que afirmo: vai tu mesmo a Delfos e
procura saber se eu não transmiti fielmente a resposta do oráculo.
Eis outra indicação: se tu provares que eu estou de concerto com o
adivinho, condenar-me-ás à morte não por um só voto, mas por
dois: o teu e o meu. Não me acuses baseado em vagas suspeitas, sem
me ouvir primeiro. Não é lícito julgar levianamente, como
perversos, os homens íntegros, assim como não é justo considerar
íntegros os homens desonestos. Rejeitar um amigo fiel, penso eu,
equivale a desprezar a própria vida, esse bem tão precioso! O tempo
fará com que reconheças tudo isso com segurança, pois só ele nos
pode revelar quando os homens são bons, ao passo que um só dia
basta para evidenciar a maldade dos maus.
CORIFEU
Para
quem, sinceramente, quer evitar a injustiça, ele muito bem te falou,
ó rei. É sempre falível o julgamento de quem decide sem
ponderação!
Sófocles,
in Rei
Édipo
Nenhum comentário:
Postar um comentário